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sábado, 9 de dezembro de 2017

A Praia

Caminho por entre milhares de grãos de areia. São pensamentos que me invadem e envolvem a cada passo que dou. Sento-me e deslizo as mãos na areia macia e quente que contrasta com... Aglomero cada grão, pensamento, num castelo imaginário que dia após dia vou construindo. Aprisiono-me perante as paredes voláteis de medo alimentado pelas evidências que deixo para trás.  Enfio a cabeça na areia e deixo-me envolver pelos milhares de grãos de areia quentes e macios que me anestesiam. Resisto ao sono profundo em que me encontro. Quero muito acordar e devolver a maça envenenada que alguém deixou em cima da mesa de pedra bordeaux. Acredito em cada grão de areia que é projectado pelas cordas vocais como se de música se tratasse. Cada nota, cada ritmo, cada timbre e eu envolvido na melancolia de tudo aquilo em que quero acreditar. Caminho pela praia com o medo de ser sempre a última caminhada. 

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

OTEP "Ghost Flowers"







Ghost Flower in my Mind. Im Loosing my Soul. I waked up in the middle of Nowhere. Im driving through the Strawberries Fields Forever.

domingo, 5 de novembro de 2017

Forgiveness

Os períodos de reflexão têm sido uma constante no meu pensamento. Salvo nos períodos de meditação em que esvazio a mente até ao vazio. São momentos essenciais para a minha sanidade e reequilibrio mental. Uma espécie de tábua rasa emocional. Após pensamentos mais conturbados e gritos de desespero, eis que reflicto acerca da capacidade de desculpar alguém. A capacidade de perdoar alguém que nos fez mal é essencial para a nossa condição humana. E, em última instância, só nos pode tornar mais felizes. Perdoar implica uma compreensão e uma empatia de que nem todos usufruímos. Mas também isso se treina. É possível perdoar mesmo situações que consideremos muito graves. Não obstante, tal só é possível se quem pede perdão seja capaz, ele próprio, de ser empático e transparente. O acto humano, de perdoar e ser perdoado é algo que nos distingue e que nos aproxima dos outros. Devemos perdoar quem não nos é indiferente. Mesmo situações graves podem ser perdoadas. Mas esse acto implica que devemos estar na presença do todo. Não podem ficar pontas soltas. As pessoas merecem ser perdoadas se assumirem os seus erros e tenham uma compreensão das suas consequências.
No entanto, o acto de perdoar não significa esquecer ou  tapar o Sol com a peneira. O acto de perdoar deverá navegar paralelamente ao que despoletou determinada situação. A única forma de quem perdoa e de quem é perdoado se aproximarem e não voltarem a vivenciar situações fomentadoras de mágoa é assumirem de frente as memórias e não as esquecer. O acto de perdoar e ser perdoado implica a não repetição do que motivou a discórdia. Happy Sunday.


sábado, 4 de novembro de 2017

Tanti Auguri Principessa

E hoje, especialmente hoje, acordo de manhã e beijo-te na boca. Sinto o doce sabor dos teus lábios. Abraço-te com aquela intensidade que só nós dois sentimos. Sinto o calor do teu corpo a pulsar na minha pele. Olho-te os olhos rasgados e perco-me. Como sempre. O teu olhar sempre me desarmou. Fico sem palavras. O amor que por ti sinto é infinito. Somos dois seres em uníssono. Duas almas que dançam. "Sou medo do teu medo". "Sou sangue do teu sangue." Acordo de manhã e beijo-te na boca. Hoje é um dia especial. O teu dia. Ficamos uns minutos em admiração mútua. Levanto-me de repente e vou buscar o teu presente. Aquele relógio verde marinho que cobiçaste num dos nossos passeios. Hoje o dia será especial, como todos aqueles que vivemos até hoje. O dia lá fora está meio cinzento. Sinto-me em comunhão total. Peço-te para despachares, e tu sem perceberes. Quis-te fazer uma surpresa e consegui. Temos pouco mais de uma hora para apanharmos o avião. Pela hora do almoço quero estar em Florença. Ao meio dia quero-te beijar a admirar a ponte Vecchio. Levamos pouca bagagem. Na segunda-feira, mais tardar, estaremos de volta. Escondi os bilhetes bem escondidos. Nunca desconfiaste de nada. Nem do relógio. Quero este dia seja especial. Já o programei há quase dois meses. Tudo marcado, avião, um hotel de charme, e o itinerário bem construído no meu ser. Comprei o guia da Lonely Planet em pdf para que não desconfiasses de nada. Adoro surpresas. E sobretudo, fazer surpresas. Hoje o dia é especial e escrevo-o para o imortalizar. Até segunda-feira, entretanto, irei banhar-me em amor e paixão.


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Por favor, só mais um bocadinho de Gengibre.


A minha vontade de cozinhar continua no limiar do elemento nulo. Era algo que me dava prazer, preparar as refeições, sobretudo os jantares. A Bimby continua em alegre hibernação. Voltei aos velhos hábitos de comer fora quase diariamente. Ou então não comer de todo. Mas hoje, saído das actividades laborais lá me dirigi ao sushi de um centro comercial aqui por perto. Sem grande apetite, não exagerei no pedido, excepto no gengibre. E dei por mim a rir sozinho com essa frase que se tornou o ex-libris das idas ao Sushi. Chegávamos a pedir duas e três vezes gengibre. Os senhores com um sorriso nos lábios e seguramente com pensamentos ofensivos lá o traziam. Enfim, reais ou não, há momentos que ficam guardados. 

De agora em diante, só escritas positivas. É sorrir e acenar amigos. Sorrir e Acenar.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

I Can´t Explain in The Other Way.

A Cegueira do Amor ou Dança com Escorpiões

O amor tolda-nos a visão e a capacidade de avaliarmos adequadamente por quem nos apaixonamos. Vemos as virtudes que queremos e eliminamos da nossa mente os defeitos que sempre existiram. Acabamos por vezes por perdoar manifestações de personalidades tóxicas que em qualquer outra circunstância nos afastaria. É por essa razão que somos racionais a dar conselhos, mas ineficazes quando vivenciamos o amor. O amor cega-nos. O amor acaba por ser um sentimento perigoso porque nos despe. O amor é ambivalente. É a melhor experiência que um ser humano pode vivenciar, podendo ser simultaneamente o maior atentado a que estamos sujeitos. E só depende do ser por quem nos apaixonamos. É uma roleta russa. Podemos ter a felicidade de amarmos alguém puro que nos ama, ou pelo contrário, nos apaixonarmos por quem nunca nos deveríamos ter cruzado. E tudo porque não nos sabemos defender, ficamos cegos perante o amor. Acabamos por amar pessoas que não existem verdadeiramente. Os chamados lobos em pele de cordeiro. E isso é aleatório. Só nos apercebemos verdadeiramente se estivermos atentos e quando as máscaras começam a cair. E mesmo assim, com a nossa visão turva, demoramos algum tempo em assumirmos que a pessoa com quem dividimos a nossa vida, a nossa existência, a nossa cama, na realidade não existe. Acabamos por constatar que dormimos com o inimigo. Dependendo da inteligência emocional de cada um podemos demorar mais ou menos tempos a confrontarmos-nos com as evidências. Mas elas acabam por surgir. E, de facto, há pessoas cujo o invólucro é de uma correcção irrepreensível, no entanto com almas podres e doentias, com  a insensibilidade suficiente para nos fazer acreditar no amor enquanto as suas vivências assentam em mentiras, omissões e dissimulações. E perante a cegueira do amor, acabamos por acreditar na reciprocidade, sem que nos apercebamos que estamos a ser usados. Por mais incrível que pareça, há mais pessoas assim do que parece, os psicopatas, homens ou mulheres que andam por aí. Há imensos estudos acerca deste género humano. São seres profundamente egoístas, no entanto sedutores, que mentem sem problemas, e mesmo quando apanhados nas suas mentiras, conseguem frequentemente desconstruir a mentira com base noutras mentiras. A consciência do mal que fazem pura e simplesmente não existe. São seres frios, calculistas e muito perigosos, porque aparentam tudo menos o lixo tóxico que na realidade são. Na verdade são pessoas muito doentes, que recusam qualquer tipo de cura, porque nem sequer têm consciência do que são. São as últimas pessoas por quem nos devíamos apaixonar. Mas acontece com frequência, porque são predadores emocionais, e aproximam-se frequentemente de pessoas puras e bem formadas, de forma a poderem sugar a sua essência. Este género de ser só se descarta quando é confrontado verdadeiramente por alguém que demonstra maior vitalidade. O que nem sempre acontece. Há pessoas que passam a vida inteira a ser usadas e abusadas por este tipo de parasitas humanos. 
Habitualmente são seres sociais com amigos superficiais que nunca chegam a conhecer a sua essência obscura. Escondem-se debaixo das pedras e perante a sua família apresentam-se com se de boas pessoas se tratassem. 
Temos muito dificuldade em defendermos-nos deste tipo de pessoas. São seres intrinsecamente maus e que nos enganam com uma doçura que nos anestesia. Frequentemente só nos apercebemos depois de nos afastarmos emocionalmente, após a rotura de uma relação. Que na realidade, é a melhor coisa que pode acontecer a quem tem o azar de se apaixonar por um psicopata. Naturalmente, que para o próprio, desprovido de sentimentos, foi só um episódio que passou até procurarem e encontrarem a vítima seguinte. 
Há um fábula oriental que conta a história de um escorpião que querendo passar um rio, pede a uma tartaruga que o leve no seu dorso. Após muita sedução, acabou por convencer a tartaruga. A meio do rio, o escorpião levanta o rabo, picando a tartaruga com o seu veneno tóxico. A tartaruga à beira da morte pergunta-lhe porque fizeste isto?, sabendo que eu ao morrer acabo por te levar comigo para o fundo do rio e tu próprio morrerás, ao que o escorpião respondeu que não pôde evitar porque era a natureza dele.
Infelizmente, fruto do azar, acabamos por encontrar pessoas deste género, que podendo ter tudo acabam por destruir o ser que dizem amar. 
Na vida, acabamos frequentemente a dançar com escorpiões. Sei que é difícil, mas quando tal acontece, o melhor é fugir. Os escorpiões nunca irão, nem querem, mudar a sua natureza.





Kasabian - You're In Love With a Psycho (Official Video)

domingo, 29 de outubro de 2017

Ensaio sobre a Cumplicidade.

Após quatro de pausa determinei-me a escrever novamente nestas páginas. Naturalmente que durante este período nunca suspendi a escrita. Este blogue é o paradigma de que tudo é imortal. Não existem fins. E, quando menos se espera, renasce-se das cinzas. Como já tinha referido, pensei em iniciar outro blogue. Mas confesso que tive preguiça. E na realidade o que interessa é o conteúdos das palavras que por aqui se vão debitando. Não estou certo acerca da assiduidade com que irei escrevendo. Nem se irei dar continuidade ao momento. Mas, agora, é só o que se me apraz. Apetece-me escrever. 

E reflicto sobre a cumplicidade entre dois seres humanos. O que é isso da cumplicidade? Será que ela existe?  Será que é possível existir?

Penso que sim, mas só depende da sintonia e do comprimento de onda que se compartilham. A cumplicidade implica um desnudamento total entre dois seres. Implica sinceridade, honestidade e transparência, como se de dois gémeos siameses se tratasse. A cumplicidade implica a comunicação não verbal. Em última instância, quase leitura de pensamento. Quando dois seres são cúmplices não há lugar para sentimentos negativos. A cumplicidade corresponde à união total e absoluta entre dois seres, uma fusão. 

Todas as pessoas que conheço que se amam verdadeiramente e para todo o sempre tem esse elemento em comum: a cumplicidade. Quando ela existe, e quando dois seres sentem que é genuína, as relações são infinitas. 

É difícil chegar a este ponto de união, e, muito provavelmente, pouquíssimas pessoas neste mundo o conseguirão. A maioria nunca. E porquê?

Para que tal aconteça, será necessário que duas pessoas totalmente puras se encontrem neste mundo aleatório. O que se torna uma roleta russa. Cada vez mais impera o egoísmo, o prazer fácil e a promoção da superficialidade. As pessoas preferem viver num mundo de fantasia onde as aparências são mais importantes do que a profundidade das relações. Colocam-se como prioridades e mantêm-se relações com base naquilo que é supérfluo. Na realidade nunca será uma verdadeira relação. Partilham-se vidas com estranhos, sem que disso haja consciência. Um verdadeiro Matrix.

A relação perfeita assenta na cumplicidade. O amor puro depende da cumplicidade. E essa é a única forma de relacionamento imortal.

Infelizmente, a sociedade actual vai perdendo a noção da ética, do respeito pelo próximo, do amor próprio e isso acaba por se reflectir no comportamento humano. 

No entanto, a Vida é uma aprendizagem, e estou consciente que a cumplicidade pode ser desenvolvida se dois seres assim o desejarem. Mas para isso, é condição sine qua non, que os dois sejam bem formados e com personalidades irrepreensíveis. Não pode haver lugar à obscuridade.

A cumplicidade é, talvez, o último reduto daquilo que ambicionamos numa relação eterna.




segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Love Love Love

Esta será seguramente a última entrada de 2013. Provavelmente a última entrada deste blog. Tudo tem um fim. Esgotei os recursos e a vontade de aqui escrever. Foi um diário que durou 7 anos, desde a minha vivência em Barcelona até à minha vida real em Lisboa. Foi um blogue, longe de estar bem escrito, mas que reflectiu os meus pensamentos, angústias, alegrias, tristezas, reflexões pessoais, gostos e sobretudo desgostos. E é precisamente por estes que termino este blogue. Tornei-me repetitivo acompanhando o maior desgosto amoroso que tive até hoje. Passei por várias relações, provoquei desgostos a pessoas que amei fruto da imaturidade, passei por paixões, vivenciei um divórcio, tive relações efémeras, outras mais sérias, não soube amar quem mais merecia e apaixonei-me por quem não devia. Mas a vida e os anos ensinam-nos. Tanta coisa mudaria se vivesse outra vez à sombra do passado. Até sempre.ou
PS: Irei manter hábitos de escrita... a new blog is going to born... Don't know when or how. :)

sábado, 21 de dezembro de 2013

Felicidade

É um lugarejo comum falar de felicidade. Ou da ausência dela. Será fácil definir felicidade? É um estado de plenitude, alegria, onde os pensamentos são invariavelmente bons. É um estado onde nos sentimos amados, queridos e convidados. A felicidade assenta na euforia, na boa-disposição, no sorriso, no rir até chorar. A felicidade torna-nos imortais. Quando estamos felizes a morte não existe, o sucesso é uma presença crónica, as pessoas cultivam a verdadeira amizade. Na felicidade não há mentiras, hipocrisias, cinismos, sacanices, angústias, depressões, prepotências, maus-tratos, faltas de educação e humilhações. Na felicidade não há seres humanos. Só a natureza pura pode ser verdadeiramente feliz. Não conseguimos ser invariavelmente felizes. Isso não seria normal. Podemos embebedarmo-nos diariamente ou fumar erva a toda a hora e sermos felizes artificialmente. Mas seria isso felicidade? Quando estamos felizes não há segundas-feiras negras, não há pessoas malformadas á nossa volta, não há tristezas, não nos sentimos irritados. Aceitamos as abstrusidades dos outros com um sorriso nos lábios. Não há medos. Sim, já fui feliz. Mas à medida que o tempo passa sinto-me cada vez mais distante do único objectivo de vida que realmente importa: Ser Feliz.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

11-12-13

Hoje aproveito o meu dia de folga para estudar, fazer pesquisa e continuar a escrever o meu projecto. Acordo, levanto a persiana e vejo o mar ao longe coberto por uma película cinzenta de nuvens como se de celofane se tratasse. Está frio na rua. Cá dentro, fruto dos euros a mais com que irei contribuir para o ordenado milionário do Sr. Mexia, a temperatura está agradável. Acordei envolto na luz violeta que deixei ligada a noite passada. Adormeci a ouvir um som novo do qual gostei muito. Pick a piper. Já me levantei, bebi um volutto, fumei um cigarro e troquei dois ou três sms perdidos nos meandros do iPhone. Tenho imensos planos para hoje, todos chatos. Ir ao banco, ir aos correios, ir comprar o almoço, não fazer que hoje é o meu dia de folga, comprar tabaco, ou não, a decisão de deixar de fumar (verdadeiramente) está cada vez mais presente no meu espírito. Não obstante, já tive tantas decisões presentes no meu espírito e que não se concretizaram. Tenho preguiça de me enfiar na banheira e tomar um duche. Terá que ser, não me quero tornar anti-social no banco, nos correios e quando for comprar o almoço. Mas estou tão quentinho com as minhas pantufas Tommy Hilfiger de penas que a indolência apodera-se de mim. Antes ainda tenho à volta de 20-30 artigos para sacar da net e espero por um telefonema de uma jornalista do público que comigo quer discutir uns assuntos. Isto tudo por que me lembrei que hoje é dia 11 de Dezembro de 2013, ou seja 11-12-13. Interessante a conjugação, será o único dia na minha vida deste género. Na realidade todos os dias, todas as horas, minutos, segundos, milésimas de segundo e por aí diante são ímpares. A vida, apesar de tudo é um círculo perfeito, onde tudo é ímpar. Só o início e o fim têm algo em comum: a inexistência do ser. Tudo o resto é vivido uma só vez. E por isso convém que se viva bem e com prazer cada momento. Mesmo os de tristeza e de frustração devem ser entendidos como momentos de emoção e ser vividos, não recalcados, não retraídos. Este dia de calendário bonito não é diferente de todos os outros. Aquilo que realmente importa é tentar levar a cabo os nossos projectos e empreendimentos. E por isso, vou-me enfiar na banheira e tomar duche para tratar rapidamente das coisas que me faltam. 11-12-13. Ja está.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Silence

O silêncio é uma resposta em si mesmo. O silêncio é um estado de limbo, de incerteza, de dor, de amor não correspondido. O silêncio magoa porque é a negação do próprio ser. A negação de tudo aquilo que foi vivido, de tudo aquilo que se quer viver. O silêncio é uma morte silenciosa, uma tortura dissimulada. O silêncio é frio, é cáustico, é amargo. O silêncio corroí a alma por dentro. É o confronto com a nossa insignificância. O silêncio é um turbilhão de sentimentos vis e cruéis. É uma faca que nos rasga perante as memórias que ficaram guardadas. É um sangrar lento e duradouro. O silêncio é a pior das armas contra quem nos amou. O silêncio é o desrespeito absoluto. O silêncio é a manutenção de uma esperança ligada á máquina. É a maldade no estado puro. O silêncio é a perseguição surda, é manter o outro algemado, manietado, imóvel. É a cegueira provocada, é transformação no homem-bolha. O silêncio é um grito de despero, que tem um fim: quando é a resposta em si mesmo. 

domingo, 1 de dezembro de 2013

... but Love.

Cut-Off

E eis que cheguei ao cut-off que tinha definido no meu espírito. Frequentemente defino cut-offs gregorianos para determinado tipo de decisões. No dia tal começo a estudar, em certo dia deixo de fumar, naquele dia irei tratar das coisas para a próxima viagem e assim por diante. Marquei para mim mesmo o cut-off da não desistência, da esperança, da espera vã. Confesso que já nem sei bem o que esperaria. O que sei é que atingi o cut-off que defini no meu espírito. E contra isso não há nada a fazer. Ironicamente, ouço Muse - Live Rome Olympic Stadium. Ao longe ouvem-se palavras em italiano. Dentro de 31 dias perfaz-se um ano de distância física, emocional e intelectual. Exceptuando as memórias tudo morreu. E o cut-off foi atingido. É difícil desligar-me da medicina baseada na evidência. Mas tudo aquilo que perdi é estatisticamente significativo. Tudo aquilo que ganhei também. O p inferior a 0.05. Somo cabelos brancos e rugas. O espírito continua igual, mas as cervicalgias, lombalgias, refluxo gasto-esofágico e insónias recordam-me que não posso parar no tempo. Devo ultrapassar as vicissitudes da tristeza e frustração. O ano chega ao fim e olhando para trás foi um ano de quase completa inutilidade deitado à rua. Estive amorfo e rotineiro. Mas cheguei ao cut-off e quanto a isso não há nada a fazer. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

ZX Spectrum

Todos nós guardamos na memória os jogos de infância. Ainda ontem recordei juntamente com colegas o jogo do mata, 1-2-3 lá vai ai, macaca e depois os mais sedutores em que começamos a despertar, o quarto-escuro e o bate-pé. Provavelmente hoje em dia os meus filhos e os restantes miúdos nem sequer saberão do que estamos a falar. Cada um tem uma consola de jogos em casa, televisão por cabo, ipods, computadores on-line 24 por dia. Nós habitavamos as casas alheias em grupo. Nem todos os pais tinham poder económico para oferecer aos filhos um 48K. Há alguns anos atrás custavam perto de 50 contos, o equivalente a hoje oferecermos a alguém um carro como presente de natal. A vantagem é que os amigos juntavam-se aleatoriamente e jogavam em grupo. Os discos ouviam-se em grupo e quando nos fartavamos ia-mos brincar para o jardim da frente. As noites que passei na pré-adolescência a conversar nos bancos do jardim. Eramos rapazes e raparigas no jardim que hoje já não existe. As noites de Luar em cima dos telhados da EDP. Inacreditavelmente perigoso. Se o telhado de fibrocimento se partisse íamos cair directamente no centro dos geradores de alta voltagem. Nem sequer tínhamos a noção. Consegui nunca partir a cabeça. Em compensação fracturei duas vezes o pé esquerdo, a primeira vez caído de uma laranjeira que dava para a janela de um hotel. Tudo na esperança de ver uma bifa loura a despir-se. A segunda, enfiei o pé num buraco e continuei a marcha. A mazela mais grave foi um traumatismo crânio-encefálico com perda de conhecimento que me trouxe de charola para as urgências de São José. Claro que fui suturado num joelho, num dedo mindinho com exposição óssea... Enfim... Sobrevivi e vivi a minha infância como se fosse a última infância. Podia ter morrido algumas vezes e sido notícia de jornal. Andei de BMX em contramão, pior... andei de BMX numa torre abandonada sem barreiras de protecção. Subi a gruas, explorei fábricas de conservas desactivadas, brinquei em obras. Recordo-me de ter dado as primeiras passas num cigarro junto à escola primária dentro de umas manilhas de cimento gigantes. O peso na consciência foi tanto que assim que cheguei a casa bebi um litro de leite na inocente tentativa de me desintoxicar. Hoje olho para os meus filhos e para os meus pais e apercebo-me de que eles não tiveram sequer metade das ideias do que nós fazíamos. Mas fomos crescendo em liberdade, algo que os meus filhos não têm verdadeiramente. Aos 7-8 anos já ia para a escola sozinho, isto é, com grupos de amigos. Até aí a empregada dos meus pais ia-me levar. Hoje continuo a deixar os meus à porta da escola de carro. A rotina que lhes imponho, escola, casa, escola, casa sem vivência na rua pelo meio só pode estar a fabricar adultos que não crescem verdadeiramente. Será esta uma infância feliz? Duvido. Não sei que volta hei-de dar a isto. Mas talvez por ter feito tanta merda tenho um medo de morte do que lhes pudesse acontecer. De facto, o ideal seria viver na ignorância como os meus pais.

sábado, 9 de novembro de 2013

Club Noir

Já algumas vezes tinha passado à porta. Imaginei que se tratasse de um daqueles locais de culto nocturnos para populações seleccionadas. E é-o, mais ou menos. Paguei um euro à porta para entrar. Acho que fui literalmente roubado. Mas não convinha chatear o segurança de 2x1 metros. Nunca pago direitos de admissão. Acho uma verdadeira afronta. Passo normalmente directo. E acabo sempre por consumir mais do que me irritar e virar-lhes costas. Mas neste caso específico, queria mesmo entrar e resolvi dar uma moedinha ao arrumador de almas à porta do club noir. As escadas que dão acesso à cave têm um ar soturno e enigmático. Gostei sobretudo de uma pintura da capa do mítico filme de David Lynch, Eraserhead. Tive uma t-shirt assim que ofereci a uma espécie de namorada gótica dos tempos da faculdade. Hoje é uma tiazoca respeitável. Na altura gótica. Cá por baixo o ambiente é eclético. A música de gótica não tem nada. Zero. Porém muito boa para a minha faixa etária. The Cure. Peter Murphy. Bauhaus. Waterboys. etc. As pinturas b&w de ícones como Nick Cave, Bjork, Eduardo-mãos-de-tesoura, O Padrinho e Robert Smith estavam espalhadas pelas paredes. A fauna era mista e variada. As pessoas, sobretudo as chicks, dançavam de uma forma libertadora e despretensiosa. Ou seja, nas antípodas dos sítiozinhos da moda onde all eyes are on us. E isso agradou-me. Fiquei com vontade de ficar por lá mais tempo. Mas os meus amigos cortaram-se e quiseram mudar de ares. Não seria boa educação não acompanha-los. Sobretudo porque eu fui o taxista, bêbado, de serviço. Irei regressar. Club Nu-Arrrrr...

terça-feira, 5 de novembro de 2013

It was just a blow job. Maybe two.

Há sons que nos transportam. Melodias, acordes, letras que nos levam para outros locais. Conduzem-nos para outros tempos. Há músicas de uma vida. Ouço algo que tinha abandonado há algum tempo. A pronúncia britânica de outras paragens projecta-me a Paris. Dentro de um comboio, a seguir um autocarro, uma residência universitária, um jantar, uma discoteca da qual não sei o nome. Os registos ficaram. A dor que senti olhando para o tecto de madeira clara, ondulado. Lá fora o barulho das turbinas nas descolagens. O mundo ruiu à minha volta. E na realidade foi só um pequeno invólucro de uma tristeza infinita. Acabei de ver os dois últimos episódios da 5ª temporada de Californication. A minha novela erótico-dramática. It was just a blowjob. Maybe two. Não importa o sentido. O que ficou foi a dor de Charlie ao imagina-la nos braços de outro homem. Doí-me o ombro esquerdo. A sensação de queimadura arrasta-se desde há uma semana. A dor foi mais forte desta vez. Tenho a alma dorida. Mais do que o coração de escarlate incompleto. A peça perdida algures talvez um dia seja encontrada. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Dead People Walking on my Dreams

As pessoas mantêm-se vivas enquanto delas nos recordarmos. Não costumo ligar muito a dias específicos mas hoje é o dia de finados, ou de todos os santos, ou como lhe quiserem chamar. Na realidade devíamos pensar mais vezes em que já partiu. O nosso caminho é esse, sem excepções, desde o mais pobre ao mais poderoso dos seres humanos. A única certeza que temos. O dia e a hora não a escolhemos. Ou bem, até podemos, mas será sempre contranatura. Estava deitado e dei comigo a recordar algumas pessoas. Umas com grande importância na minha vida, outras que não deixaram marcas tão intensas mas com quem me cruzei. 
Cheguei a casa vindo da escola. Sabia que a minha madrinha estava muito doente e que não duraria muito. Que iria para o Céu ou lá o que isso era. Não era a minha verdadeira madrinha, mas sim da minha mãe. Para mim foi uma grande amiga, avó emprestada, quiçá segunda mãe. Sempre que saia em viagem as saudades que guardava dela eram imensuráveis. Trazia-me sempre qualquer coisa guardada na mala beje de pele. Ainda guardo uma t-shirt preta com um tucano carioca. Umas das viagens que fez e me marcaram foi ao Egipto. Uns anos mais tarde corri-o de uma ponta à outra e recordei os momentos, as fotos amareladas guardadas lá por casa. Penso que adquiri o gosto pelas viagens influenciado pela madrinha. Se existirem anjos da guarda a Nanã estará sempre ao meu lado. Senti-o na noite que antecedeu o meu exame de saída. Sabia que estava doente, mas talvez não tenha sido devidamente preparado para a sua morte. Despedi-me dela uns dias antes. Morreu em casa, rodeada pelas pessoas que lhe eram queridas. Quando cheguei a casa a empregada dos meus pais, com uma sensibilidade digna de um calhau musgoso, disse-me a tua madrinha morreu. Recordo-me do choque que foi como se tivesse sido hoje. Há momentos que ficam enraizados para todo o sempre. Esse foi um deles. As memórias visuais que guardo são esbatidas, as espirituais estão bem presentes. Confesso que não consigo perceber se é dela que me lembro ou de todos os milhares de registos do amor incondicional que tinha por mim. Já passaram quase 30 anos e as saudades são muitas. 
Outra morte que me foi especialmente penosa foi a da avó paterna. Estava em plena adolescência e passara a noite de fim-de-ano nos copos, no deboche. Recordo-me de chegar a casa a horas impróprias e encontrar o meu pai choroso que me disse, dorme umas horas e despacha-te que temos que ir para Lisboa - a tua avó faleceu hoje de madrugada no Santa Maria. Só cai em mim quando cheguei ao velório. Olhei à volta e cai em mim. A minha família é de facto envelhecida. Daqui para a frente vão ser um cair de peças de dominó paralelas como se de um jogo se tratasse. Todas as minhas tias e tio paterno já faleceram e alguns do lado materno. É a desvantagem de ser o mais novo da família. Bem, que agora já não sou. A morte da tia Nanda foi especialmente penosa. Essa a minha verdadeira madrinha. Estava de banco nesse dia. O meu pai ligou-me a dizer-me que a tia estava a caminho do hospital numa ambulância do INEM. Tinha alterações do estado de consciência. Quando cheguei ao pé dela, de bata, chamou-me pelo nome de um primo meu. Insisti com a colega da urgência central que lhe pedisse uma TAC CE. A carta enviada pela médica do lar, depositada em cima da mesa, que só li por acaso, fazia referência a uma queda. A colega queria-lhe pedir análises primeiro. Na minha opinião tratava-se provavelmente de um hematoma subdural. Infelizmente, acertei. Foi sujeita a uma trepanação e internada na neurocirurgia. Ainda a vi consciente. Tive tempo para me despedir. Durou poucos mais dias. É impressionante como aquela senhora, sempre impecavelmente bem arranjada que me levava a lanchar à Lua de Mel e à Suiça se possa ter deteriorado tanto. Há mais pessoas em quem penso, a avó pepa, a tia luisa, o tio mario, os meus priminhos tragicamente mortos num acidente na barragem de santa clara, no alentejo, o meu amigo pedro, o meu amigo joão, colegas... mas estou a ficar com um semblante demasiado pesado para continuar a escrever isto. Vou ver um episódio do californication e ver se arrebito.