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segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Love Love Love

Esta será seguramente a última entrada de 2013. Provavelmente a última entrada deste blog. Tudo tem um fim. Esgotei os recursos e a vontade de aqui escrever. Foi um diário que durou 7 anos, desde a minha vivência em Barcelona até à minha vida real em Lisboa. Foi um blogue, longe de estar bem escrito, mas que reflectiu os meus pensamentos, angústias, alegrias, tristezas, reflexões pessoais, gostos e sobretudo desgostos. E é precisamente por estes que termino este blogue. Tornei-me repetitivo acompanhando o maior desgosto amoroso que tive até hoje. Passei por várias relações, provoquei desgostos a pessoas que amei fruto da imaturidade, passei por paixões, vivenciei um divórcio, tive relações efémeras, outras mais sérias, não soube amar quem mais merecia e apaixonei-me por quem não devia. Mas a vida e os anos ensinam-nos. Tanta coisa mudaria se vivesse outra vez à sombra do passado. Até sempre.ou
PS: Irei manter hábitos de escrita... a new blog is going to born... Don't know when or how. :)

sábado, 21 de dezembro de 2013

Felicidade

É um lugarejo comum falar de felicidade. Ou da ausência dela. Será fácil definir felicidade? É um estado de plenitude, alegria, onde os pensamentos são invariavelmente bons. É um estado onde nos sentimos amados, queridos e convidados. A felicidade assenta na euforia, na boa-disposição, no sorriso, no rir até chorar. A felicidade torna-nos imortais. Quando estamos felizes a morte não existe, o sucesso é uma presença crónica, as pessoas cultivam a verdadeira amizade. Na felicidade não há mentiras, hipocrisias, cinismos, sacanices, angústias, depressões, prepotências, maus-tratos, faltas de educação e humilhações. Na felicidade não há seres humanos. Só a natureza pura pode ser verdadeiramente feliz. Não conseguimos ser invariavelmente felizes. Isso não seria normal. Podemos embebedarmo-nos diariamente ou fumar erva a toda a hora e sermos felizes artificialmente. Mas seria isso felicidade? Quando estamos felizes não há segundas-feiras negras, não há pessoas malformadas á nossa volta, não há tristezas, não nos sentimos irritados. Aceitamos as abstrusidades dos outros com um sorriso nos lábios. Não há medos. Sim, já fui feliz. Mas à medida que o tempo passa sinto-me cada vez mais distante do único objectivo de vida que realmente importa: Ser Feliz.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

11-12-13

Hoje aproveito o meu dia de folga para estudar, fazer pesquisa e continuar a escrever o meu projecto. Acordo, levanto a persiana e vejo o mar ao longe coberto por uma película cinzenta de nuvens como se de celofane se tratasse. Está frio na rua. Cá dentro, fruto dos euros a mais com que irei contribuir para o ordenado milionário do Sr. Mexia, a temperatura está agradável. Acordei envolto na luz violeta que deixei ligada a noite passada. Adormeci a ouvir um som novo do qual gostei muito. Pick a piper. Já me levantei, bebi um volutto, fumei um cigarro e troquei dois ou três sms perdidos nos meandros do iPhone. Tenho imensos planos para hoje, todos chatos. Ir ao banco, ir aos correios, ir comprar o almoço, não fazer que hoje é o meu dia de folga, comprar tabaco, ou não, a decisão de deixar de fumar (verdadeiramente) está cada vez mais presente no meu espírito. Não obstante, já tive tantas decisões presentes no meu espírito e que não se concretizaram. Tenho preguiça de me enfiar na banheira e tomar um duche. Terá que ser, não me quero tornar anti-social no banco, nos correios e quando for comprar o almoço. Mas estou tão quentinho com as minhas pantufas Tommy Hilfiger de penas que a indolência apodera-se de mim. Antes ainda tenho à volta de 20-30 artigos para sacar da net e espero por um telefonema de uma jornalista do público que comigo quer discutir uns assuntos. Isto tudo por que me lembrei que hoje é dia 11 de Dezembro de 2013, ou seja 11-12-13. Interessante a conjugação, será o único dia na minha vida deste género. Na realidade todos os dias, todas as horas, minutos, segundos, milésimas de segundo e por aí diante são ímpares. A vida, apesar de tudo é um círculo perfeito, onde tudo é ímpar. Só o início e o fim têm algo em comum: a inexistência do ser. Tudo o resto é vivido uma só vez. E por isso convém que se viva bem e com prazer cada momento. Mesmo os de tristeza e de frustração devem ser entendidos como momentos de emoção e ser vividos, não recalcados, não retraídos. Este dia de calendário bonito não é diferente de todos os outros. Aquilo que realmente importa é tentar levar a cabo os nossos projectos e empreendimentos. E por isso, vou-me enfiar na banheira e tomar duche para tratar rapidamente das coisas que me faltam. 11-12-13. Ja está.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Silence

O silêncio é uma resposta em si mesmo. O silêncio é um estado de limbo, de incerteza, de dor, de amor não correspondido. O silêncio magoa porque é a negação do próprio ser. A negação de tudo aquilo que foi vivido, de tudo aquilo que se quer viver. O silêncio é uma morte silenciosa, uma tortura dissimulada. O silêncio é frio, é cáustico, é amargo. O silêncio corroí a alma por dentro. É o confronto com a nossa insignificância. O silêncio é um turbilhão de sentimentos vis e cruéis. É uma faca que nos rasga perante as memórias que ficaram guardadas. É um sangrar lento e duradouro. O silêncio é a pior das armas contra quem nos amou. O silêncio é o desrespeito absoluto. O silêncio é a manutenção de uma esperança ligada á máquina. É a maldade no estado puro. O silêncio é a perseguição surda, é manter o outro algemado, manietado, imóvel. É a cegueira provocada, é transformação no homem-bolha. O silêncio é um grito de despero, que tem um fim: quando é a resposta em si mesmo. 

domingo, 1 de dezembro de 2013

... but Love.

Cut-Off

E eis que cheguei ao cut-off que tinha definido no meu espírito. Frequentemente defino cut-offs gregorianos para determinado tipo de decisões. No dia tal começo a estudar, em certo dia deixo de fumar, naquele dia irei tratar das coisas para a próxima viagem e assim por diante. Marquei para mim mesmo o cut-off da não desistência, da esperança, da espera vã. Confesso que já nem sei bem o que esperaria. O que sei é que atingi o cut-off que defini no meu espírito. E contra isso não há nada a fazer. Ironicamente, ouço Muse - Live Rome Olympic Stadium. Ao longe ouvem-se palavras em italiano. Dentro de 31 dias perfaz-se um ano de distância física, emocional e intelectual. Exceptuando as memórias tudo morreu. E o cut-off foi atingido. É difícil desligar-me da medicina baseada na evidência. Mas tudo aquilo que perdi é estatisticamente significativo. Tudo aquilo que ganhei também. O p inferior a 0.05. Somo cabelos brancos e rugas. O espírito continua igual, mas as cervicalgias, lombalgias, refluxo gasto-esofágico e insónias recordam-me que não posso parar no tempo. Devo ultrapassar as vicissitudes da tristeza e frustração. O ano chega ao fim e olhando para trás foi um ano de quase completa inutilidade deitado à rua. Estive amorfo e rotineiro. Mas cheguei ao cut-off e quanto a isso não há nada a fazer. 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

ZX Spectrum

Todos nós guardamos na memória os jogos de infância. Ainda ontem recordei juntamente com colegas o jogo do mata, 1-2-3 lá vai ai, macaca e depois os mais sedutores em que começamos a despertar, o quarto-escuro e o bate-pé. Provavelmente hoje em dia os meus filhos e os restantes miúdos nem sequer saberão do que estamos a falar. Cada um tem uma consola de jogos em casa, televisão por cabo, ipods, computadores on-line 24 por dia. Nós habitavamos as casas alheias em grupo. Nem todos os pais tinham poder económico para oferecer aos filhos um 48K. Há alguns anos atrás custavam perto de 50 contos, o equivalente a hoje oferecermos a alguém um carro como presente de natal. A vantagem é que os amigos juntavam-se aleatoriamente e jogavam em grupo. Os discos ouviam-se em grupo e quando nos fartavamos ia-mos brincar para o jardim da frente. As noites que passei na pré-adolescência a conversar nos bancos do jardim. Eramos rapazes e raparigas no jardim que hoje já não existe. As noites de Luar em cima dos telhados da EDP. Inacreditavelmente perigoso. Se o telhado de fibrocimento se partisse íamos cair directamente no centro dos geradores de alta voltagem. Nem sequer tínhamos a noção. Consegui nunca partir a cabeça. Em compensação fracturei duas vezes o pé esquerdo, a primeira vez caído de uma laranjeira que dava para a janela de um hotel. Tudo na esperança de ver uma bifa loura a despir-se. A segunda, enfiei o pé num buraco e continuei a marcha. A mazela mais grave foi um traumatismo crânio-encefálico com perda de conhecimento que me trouxe de charola para as urgências de São José. Claro que fui suturado num joelho, num dedo mindinho com exposição óssea... Enfim... Sobrevivi e vivi a minha infância como se fosse a última infância. Podia ter morrido algumas vezes e sido notícia de jornal. Andei de BMX em contramão, pior... andei de BMX numa torre abandonada sem barreiras de protecção. Subi a gruas, explorei fábricas de conservas desactivadas, brinquei em obras. Recordo-me de ter dado as primeiras passas num cigarro junto à escola primária dentro de umas manilhas de cimento gigantes. O peso na consciência foi tanto que assim que cheguei a casa bebi um litro de leite na inocente tentativa de me desintoxicar. Hoje olho para os meus filhos e para os meus pais e apercebo-me de que eles não tiveram sequer metade das ideias do que nós fazíamos. Mas fomos crescendo em liberdade, algo que os meus filhos não têm verdadeiramente. Aos 7-8 anos já ia para a escola sozinho, isto é, com grupos de amigos. Até aí a empregada dos meus pais ia-me levar. Hoje continuo a deixar os meus à porta da escola de carro. A rotina que lhes imponho, escola, casa, escola, casa sem vivência na rua pelo meio só pode estar a fabricar adultos que não crescem verdadeiramente. Será esta uma infância feliz? Duvido. Não sei que volta hei-de dar a isto. Mas talvez por ter feito tanta merda tenho um medo de morte do que lhes pudesse acontecer. De facto, o ideal seria viver na ignorância como os meus pais.

sábado, 9 de novembro de 2013

Club Noir

Já algumas vezes tinha passado à porta. Imaginei que se tratasse de um daqueles locais de culto nocturnos para populações seleccionadas. E é-o, mais ou menos. Paguei um euro à porta para entrar. Acho que fui literalmente roubado. Mas não convinha chatear o segurança de 2x1 metros. Nunca pago direitos de admissão. Acho uma verdadeira afronta. Passo normalmente directo. E acabo sempre por consumir mais do que me irritar e virar-lhes costas. Mas neste caso específico, queria mesmo entrar e resolvi dar uma moedinha ao arrumador de almas à porta do club noir. As escadas que dão acesso à cave têm um ar soturno e enigmático. Gostei sobretudo de uma pintura da capa do mítico filme de David Lynch, Eraserhead. Tive uma t-shirt assim que ofereci a uma espécie de namorada gótica dos tempos da faculdade. Hoje é uma tiazoca respeitável. Na altura gótica. Cá por baixo o ambiente é eclético. A música de gótica não tem nada. Zero. Porém muito boa para a minha faixa etária. The Cure. Peter Murphy. Bauhaus. Waterboys. etc. As pinturas b&w de ícones como Nick Cave, Bjork, Eduardo-mãos-de-tesoura, O Padrinho e Robert Smith estavam espalhadas pelas paredes. A fauna era mista e variada. As pessoas, sobretudo as chicks, dançavam de uma forma libertadora e despretensiosa. Ou seja, nas antípodas dos sítiozinhos da moda onde all eyes are on us. E isso agradou-me. Fiquei com vontade de ficar por lá mais tempo. Mas os meus amigos cortaram-se e quiseram mudar de ares. Não seria boa educação não acompanha-los. Sobretudo porque eu fui o taxista, bêbado, de serviço. Irei regressar. Club Nu-Arrrrr...

terça-feira, 5 de novembro de 2013

It was just a blow job. Maybe two.

Há sons que nos transportam. Melodias, acordes, letras que nos levam para outros locais. Conduzem-nos para outros tempos. Há músicas de uma vida. Ouço algo que tinha abandonado há algum tempo. A pronúncia britânica de outras paragens projecta-me a Paris. Dentro de um comboio, a seguir um autocarro, uma residência universitária, um jantar, uma discoteca da qual não sei o nome. Os registos ficaram. A dor que senti olhando para o tecto de madeira clara, ondulado. Lá fora o barulho das turbinas nas descolagens. O mundo ruiu à minha volta. E na realidade foi só um pequeno invólucro de uma tristeza infinita. Acabei de ver os dois últimos episódios da 5ª temporada de Californication. A minha novela erótico-dramática. It was just a blowjob. Maybe two. Não importa o sentido. O que ficou foi a dor de Charlie ao imagina-la nos braços de outro homem. Doí-me o ombro esquerdo. A sensação de queimadura arrasta-se desde há uma semana. A dor foi mais forte desta vez. Tenho a alma dorida. Mais do que o coração de escarlate incompleto. A peça perdida algures talvez um dia seja encontrada. 

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Dead People Walking on my Dreams

As pessoas mantêm-se vivas enquanto delas nos recordarmos. Não costumo ligar muito a dias específicos mas hoje é o dia de finados, ou de todos os santos, ou como lhe quiserem chamar. Na realidade devíamos pensar mais vezes em que já partiu. O nosso caminho é esse, sem excepções, desde o mais pobre ao mais poderoso dos seres humanos. A única certeza que temos. O dia e a hora não a escolhemos. Ou bem, até podemos, mas será sempre contranatura. Estava deitado e dei comigo a recordar algumas pessoas. Umas com grande importância na minha vida, outras que não deixaram marcas tão intensas mas com quem me cruzei. 
Cheguei a casa vindo da escola. Sabia que a minha madrinha estava muito doente e que não duraria muito. Que iria para o Céu ou lá o que isso era. Não era a minha verdadeira madrinha, mas sim da minha mãe. Para mim foi uma grande amiga, avó emprestada, quiçá segunda mãe. Sempre que saia em viagem as saudades que guardava dela eram imensuráveis. Trazia-me sempre qualquer coisa guardada na mala beje de pele. Ainda guardo uma t-shirt preta com um tucano carioca. Umas das viagens que fez e me marcaram foi ao Egipto. Uns anos mais tarde corri-o de uma ponta à outra e recordei os momentos, as fotos amareladas guardadas lá por casa. Penso que adquiri o gosto pelas viagens influenciado pela madrinha. Se existirem anjos da guarda a Nanã estará sempre ao meu lado. Senti-o na noite que antecedeu o meu exame de saída. Sabia que estava doente, mas talvez não tenha sido devidamente preparado para a sua morte. Despedi-me dela uns dias antes. Morreu em casa, rodeada pelas pessoas que lhe eram queridas. Quando cheguei a casa a empregada dos meus pais, com uma sensibilidade digna de um calhau musgoso, disse-me a tua madrinha morreu. Recordo-me do choque que foi como se tivesse sido hoje. Há momentos que ficam enraizados para todo o sempre. Esse foi um deles. As memórias visuais que guardo são esbatidas, as espirituais estão bem presentes. Confesso que não consigo perceber se é dela que me lembro ou de todos os milhares de registos do amor incondicional que tinha por mim. Já passaram quase 30 anos e as saudades são muitas. 
Outra morte que me foi especialmente penosa foi a da avó paterna. Estava em plena adolescência e passara a noite de fim-de-ano nos copos, no deboche. Recordo-me de chegar a casa a horas impróprias e encontrar o meu pai choroso que me disse, dorme umas horas e despacha-te que temos que ir para Lisboa - a tua avó faleceu hoje de madrugada no Santa Maria. Só cai em mim quando cheguei ao velório. Olhei à volta e cai em mim. A minha família é de facto envelhecida. Daqui para a frente vão ser um cair de peças de dominó paralelas como se de um jogo se tratasse. Todas as minhas tias e tio paterno já faleceram e alguns do lado materno. É a desvantagem de ser o mais novo da família. Bem, que agora já não sou. A morte da tia Nanda foi especialmente penosa. Essa a minha verdadeira madrinha. Estava de banco nesse dia. O meu pai ligou-me a dizer-me que a tia estava a caminho do hospital numa ambulância do INEM. Tinha alterações do estado de consciência. Quando cheguei ao pé dela, de bata, chamou-me pelo nome de um primo meu. Insisti com a colega da urgência central que lhe pedisse uma TAC CE. A carta enviada pela médica do lar, depositada em cima da mesa, que só li por acaso, fazia referência a uma queda. A colega queria-lhe pedir análises primeiro. Na minha opinião tratava-se provavelmente de um hematoma subdural. Infelizmente, acertei. Foi sujeita a uma trepanação e internada na neurocirurgia. Ainda a vi consciente. Tive tempo para me despedir. Durou poucos mais dias. É impressionante como aquela senhora, sempre impecavelmente bem arranjada que me levava a lanchar à Lua de Mel e à Suiça se possa ter deteriorado tanto. Há mais pessoas em quem penso, a avó pepa, a tia luisa, o tio mario, os meus priminhos tragicamente mortos num acidente na barragem de santa clara, no alentejo, o meu amigo pedro, o meu amigo joão, colegas... mas estou a ficar com um semblante demasiado pesado para continuar a escrever isto. Vou ver um episódio do californication e ver se arrebito.

quinta-feira, 31 de outubro de 2013

segredos da solidão

A solidão é a força motriz do pensamento romântico. Quando estamos sozinhos sem alternativa as nossas memórias fluem para locais inesperados e distantes. Esquecemos-nos de comer. A tristeza alimenta-nos o espírito. O corpo definha numa convulsão emocional. Os espelhos espalhados não reflectem o corpo que já não parece nosso. Como se de uma feira popular se tratasse. Os espelhos são ondulados e deformam tudo o que deles se aproxima. As janelas abertas ondulam os cortinados inexistentes destes quartos vazios. Sentimos as correntes de ar como chicotes. O lixo acumula-se. A caixa do correio idem. O caos instala-se. Os pratos vazios empilhados. As revistas dobradas sem ordem. Os cinzeiros transbordam. O café acaba sem que se dê conta. A solidão mantêm-nos acordados durante a noite. A almofada que cai e ninguém a apanha. Escreve-se sobre a solidão como se ela merecesse alguma consideração. Talvez para algumas pessoas a solidão seja um modo de vida. Não para mim. Sempre tive necessidade de chegar a casa e não encontra-la vazia. Os telefones e as redes sociais não matam as saudades. Sobretudo se as chamadas não atendidas se forem acumulando e os registos sejam os mesmo de há um ano. As memória coloridas metamorfoseiam-se em rasgos B&W. O bolor acumula-se lentamente nas paredes testemunhas do amor que aqui já se sentiu. Não mais. Tudo morre à nossa volta quando não existe amor. As plantas com a terra seca entram em colapso. O lado negro da força tudo invade. A solidão é escura e oportunista. Surge quando menos se espera. Cada vez mais compreendo os workaholics. Não há nada mais triste do que as relações que nos são impostas. Colegas de trabalho, da faculdade, amigos circunstanciais. As relações impostas não são puras. Recordo-me sempre dos tempos da escola. Haviam aqueles amigos que pareciam para a vida. Quando se mudava de turma, de escola, de ambiente, desapareciam da nossa vida como se nunca tivessem existido. Raras excepções existiram. O mesmo se passa com as relações. Fico sempre surpreendido como pessoas com quem compartilhamos as nossas vidas, os nossos anseios, as nossas alegrias, tristezas, viagens, pessoas como quem fizemos amor, com quem nos entregamos verdadeiramente na nossa intimidade, desaparecem como se nunca tivessem existido. Há sempre a falácia de que as memórias mantêm as pessoas vivas. Mas nada é mais falível do que as memórias. Tantos momentos recordados que se calhar  não foram bem assim. Ninguém sabe. Mesmo momentos vividos a dois, cada um tem a sua interpretação, as suas cores, sons e sabores guardados. A solidão traz-nos segredos que só nós conhecemos. Na solidão surgem os medos, os anseios e as falsas esperanças. A solidão é diferente de estar só. A solidão é imposta, estar só é uma opção.

domingo, 27 de outubro de 2013

Fucking Jet Lag

Estou acordado desde as 5 da manhã. Este clima nocturno de insónia têm-me acompanhado toda a semana. To much coffee perhaps. Só podia ter agravado com a porra da mudança da hora. E de facto agravou. Daqui umas horas estou a trabalhar. Entretanto, passeio-me pela casa. Vejo um episódio de Californication e recordo-me que me esqueci de jantar ontem. À medida que se envelhece a necessidade de sono vai diminuindo. Paralelamente às nossas actividades cognitivas. Já li, já fumei, já bebi mais café, ouço Nick Cave e espero ansiosamente pela hora do duche. A colecção de Swatch espera pelo acerto da hora. Theres no need to forgive. A pouco e pouco vou acertando os ponteiros à medida que os dias forem passando. Devia estar habituado ao Jet Lag. Afinal todas as semanas é como se viajasse para o outro lado do mundo. Só quem trabalha verdadeiramente durante a noite me compreenderá. E não me refiro a estar sentado a um computador ou em actividade intelectual. Trabalhar a sério, com os sentidos todos alerta. E de facto a maioria das criaturas resolve nascer de noite, por muito que nós tentemos viciar a natureza. E mesmo, que com um bocado de sorte, não sejamos chamados a meio da noite para resolver qualquer emergência obstétrica o nosso cérebro está meio-adormecido. Descanso com um olho aberto e outro fechado. O day-after é invariavelmente caracterizado por dormir enquanto as pessoas normais vão trabalhar e os miúdos vão para a escola. Cada vez mais me convenço que não há nada que nos foda mais a mona do que passar por esta tortura semana após semana. Devia ter enveredado pelo caminho artístico. Podia ter sido músico. Afinal o meu gosto pela arte é imensurável. Agora já é tarde. Resta-me ir apreciando o que os outros fazem para meu deleite. São 6:37. Já não vale de todo a pena tentar adormecer. Infelizmente o café onde costumo tomar o pequeno-almoço ainda está fechado. Acho mesmo que nem sequer abre. Domingo é mesmo dia de futebol. Lá para o meio-dia talvez as pessoas comecem a entrar para comer os seus tremoços e beber a suas cervejas geladas. Olho pela janela e está tudo branco. O nevoeiro caiu sobre Lisboa. E não me apetece sair de casa. 

sábado, 26 de outubro de 2013

World´s Greatest DAD

Correu bem o jantar. É sempre um prazer estar rodeado, mais do que colegas, por amigos. Alguém definiu as nossas conversas como surreais. E são-no de facto. Acho que os médicos de outros especialidades ficam sempre algo perturbados quando se sentam à mesa com ginecologistas. Talvez com urologistas seja semelhante. Porém, sem tanta piada. Bebemos um vinho fantástico, que agora não me ocorre o nome, do Douro. Eu habitualmente, sem ser grande conhecedor, aprecio vinhos Alentejanos. Se forem estrangeiros, no mínimo Bordeaux. Mas este era de facto fabuloso. Foi-nos recomendado por alguém que diz que não bebe. Excepto este vinho. A noite ficou-se pelo jantar. Regressei a casa quase às duas da manhã e com vontade de aterrar na cama. Não passei do sofá. As vezes em que eu durmo no sofá são quase tantas como as que durmo na cama. Contando com as noites que pernoito fora, no Hospital bem entendido, passam-se noites em que a minha almofada não me reconhece. Tenho tido algumas insónias, pouco habituais, nos últimos dias. Mas na noite anterior teria dormido umas 3-4 horas no máximo e passei o dia a trabalhar. A resistência humana tem limites. Não consigo entender os workaholics. Morre-se e pronto. E depois, o que ficou, os jantares por fazer, as risadas por dar, as quecas por mandar, os concertos por ouvir, os cigarros por fumar, as viagens por fazer, os filmes por ver, os livros por ler, as músicas por desfrutar e por aí adiante. 
Apesar de este fim-de-semana os miúdos estarem com a mãe, vou buscá-los para ir a festa de anos da filhota de uma das minhas melhores amigas. One of the reasons that i am the world´s greatest DAD. Cada minuto com os meus filhos é um minuto ímpar e inesquecível na minha vida. Mesmo quando me zango com eles. Rapidamente me desarmam. São umas criaturas adoráveis. Espero que se transformem em adultos igualmente bem-formados e sobretudo melhores do que eu. É para isso que serve a educação, para que os nossos filhos nos suplantem em tudo. Afinal alguém vai ter que pagar a minha reforma, já que o estado... 
PS: Texto acompanhado do revivalismo Punk dos Clash.

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

when the time stops

Chego a casa cansado de um dia de intensa labuta. Sai de casa na manhã ainda escura e no meio de intenso nevoeiro. Os miúdos ficaram no colégio. Regresso a casa quase às 22h sem eles. Pelo meio 200 km e umas quases duas dúzias de ecografias e consultas feitas. Dark Thursdays. Todas as semanas a mesma rotina. Passei por uma churrasqueira obscura na Buraca que tem os melhores frangos com piri-piri que conheço. As pessoas na fila olham-me de lado enquanto estaciono. Talvez não seja habitual. Corro o risco de ser assaltado em troca de um belo frango assado. A preguiça impede-me de cozinhar. Trago arroz de cantina como acompanhamento. Olho para as batatas fritas Ti-Ti de lado. Os empregados com pronúncia do leste são simpáticos. Hoje não me atrevi a pedir factura. Queria era pirar-me dali o quanto antes. Não porque alguém quisesse trocar o fiat punto pardacento do lado pelo meu, mas estava a definhar com vontade comer. Não fome. Vontade de comer, como passo a vida a insistir aos meus miúdos. Estou enjoado. Não devia ter comido um frango inteiro sozinho. Bebo um ristretto e fumo um cigarro. Entretanto dou os parabéns a uma grande amiga. Daquelas que passamos meses sem nos encontrar mas quando nos vemos parece que foi ontem. Todos nós temos sensações semelhantes. Amanhã vamos matar saudades e reunir a malta no ao Rubro do campo pequeno. Acendi um cigarro e afundei-me no sofá a ver umas das minhas séries fetiche - Californication. Revi o episódio das macacadas e auto-asfixia erótica. Lindo. Olho para o relógio de parede. São 22:50. Foda-se, tenho que lhe mudar a pilha. Tenho sono mas para variar não me consigo ir deitar. Fico sempre com a sensação que é uma perda de tempo. Esta necessidade biológica básica de dormir põe-me louco. Não quero. Mas acabo por ir invariavelmente cheio de sono de manhã. Vale-me o Diogo Beja Show na Antena 3 para me despertar. Resolvi ouvir o último disco dos The Strokes. E à medida que estas palavras fluem recordo-me da última vez que ouvi Strokes. Estava sentado, também num dia chuvoso e deprimente, no comboio a caminho de Salzburgo com origem em Munique. O meu pensamento fluia onde costuma fluir quando estou sozinho. Vou-me imiscuir de o descrever. Não vale a pena. Cheguei a salzburgo ainda cedo. Cidade interessante. Almocei nesse dia num café giríssimo recomendado pela Lonely Planet. Não me recordo o nome. Era frequentado por universitários. Na realidade por universitárias. Fui devorado com os olhos. De facto a diferença torna-se um desejo. Não há nada como ir para um sítio onde abundam louros de olhos azuis para nos sentirmos desejados, enquanto passamos despercebidos na nossa terra. Resolvi tomar as gotas e desci à terra. Sou somente mais um ser banal que quando morrer não deixará marcas na humanidade. Thats Life. 

domingo, 20 de outubro de 2013

turn on the radars

Há um dia em que após o limbo ligamos novamente os radares. Inesperadamente começamos a observar o mundo que nos rodeia. Reparamos em pormenores antes despercebidos. Damos por nós a não desligar quando isso era rotina. Olhamos e começamos novamente a desejar. Há um dia em que as nuvens carregadas se afastam e sentimos trocas de olhares, trocas de afectos.  É sempre imprevisível a sua ocorrência. Passaram-se meses de dor e saudade. Os conselhos dados implicavam sempre reactivar os radares, os olhares, desaparecer desse mundo autista que parecia o único existente. Acabou-se a anestesia. Costuma acontecer na primavera. A mim aconteceu-me hoje. Coincidência. Talvez não. O mês de Outubro sempre foi um mês de viragem nos caminhos tortuosos da minha vida. Liguei novamente os radares e tento encontrar o meu caminho onde podes ou não estar. Mas paulatinamente vão-se desvanecendo as memórias impostas. Talvez reaprenda a amar.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

I like...

Música. Punk. Electrônica. Clássica. Heavy Metal. Alternativa. Rock. Ópera. Acústica. Fado. Gelados. Morango. Côco. A ideia não foi minha. Livros. Muitos. Filmes. Fotografia. B&W. Objectivas. Macros. Portraits. Conduzir. Se for a chover tanto melhor. Mais música. Conduzir a ouvir música. Meditação. Candeeiros de lava. Séries. X-Files. Seinfeld. Californication. Game of Thrones. Family Guy. Ficção científica. Matrix. Star wars. Pipocas doces. Salgadas. Coca-Cola. Apple. Ipod. Iphone. Ipad. IMac. MacBook. Tudo. Água. Vinho tinto. Weissbier. Marlboro. Gold de preferência. Todos os outros me arranham a garganta. Perfumes. Black XS. A-Men. Batman. X-Men. Marvel. Salomon. Onitsuka Tiger. Mercedes-Benz. Popular Science. Viajar. Viajar. Viajar. Lonely Planet. Amar. Viver. Sonhar. Tudo or resto são bens materiais.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Obsession. Obsession. Obsession. Obsession.

Saio de casa à tua procura. Deixo as chaves do carro em casa. Propositadamente. As nuvens baixas observam-me. Sinto um frio agradável na face. Acendo um cigarro. Não consigo distinguir os vultos que me contornam... WTF. Sem grande pachorra para a petulância daqueles que não sabem escrever mas tentam-no. Wannabes. E assim interrompo este texto. Saio de casa à procura todos os dias. Com ou sem advérbios de modo. Quando vou na estrada e vejo um carro prateado igual ao teu dou comigo a tentar relembrar a tua matrícula. Não vejo muito bem ao longe. Todas as miúdas giras de cabelo comprido sentadas ao volante podem corresponder à tua pessoa. Mas não são. Desilusões em cima de desilusões. Não mais te encontrei. Quando saio à noite com os amigos maço-os com o meu discurso repetitivo. A sensação de que um dia irei encontrar-te acompanhada não me abandona. E vejo-me nesse dia de facto a vomitar-me todo sem me conseguir controlar. Com ou sem álcool. Com um bocado de sorte vomito-te os sapatos. Nada que não me tivesses feito em pleno Príncipe Real. Nessa altura ainda me amavas. Estavas péssima nessa noite. Quem manda beber sangria rasca no bar dos Erasmus. Pus-te os dedos à boca para purgares a toxicidade que acumulaste no estômago. Só duas pessoas até hoje tiveram esse previlégio. Um dos meus melhores amigos que nos tempos de Coimbra exagerou na queima. Recorda esse dia fatídico em que em 1997 também o purguei em frente ao Banco de Portugal na baixa de Coimbra. Sujou-me a capa e batina toda. Desgraça. De facto o tempo vai passando e vamos mantendo as nossas memórias bem vivas dentro de nós. Distorcidas como todas as memórias. Nada de aquilo que aqui descrevo se terá passado exactamente assim. Mas é assim que hoje recordo. Vivemos todos numa amálgama de cogumelos mágicos e space cakes. Nada é o que parece. As luzes, as cores, os sons, os momentos, as conversas, os pensamentos. Tudo é distorcido. Nada é verdadeiramente real. Nem eu saio de casa à tua procura. Mas todos os dias te procuro em vão. Hoje é o aniversário do Lux. Até tinha vontade de ir. Não me privo de sair por não ter companhia. Mas prefiro ter companhia. Não tomei as deligências necessárias para sair hoje. Amanhã fortuitamente não trabalho. Era ouro sobre azul. Mas também nada me faz muito sentido. Até nas borgas a rotina se instalou. Inicia-se um jantar aqui e ali. O café buenos aires é sempre uma boa opção. Como sempre 1/2 bife argentino e bebo sangria de espumante. Depois vou invariavelmente ao bairro. Bebo sempre uns copos de vinho a 5€ naquela enoteca da qual nunca recordo o nome. As donas giras e simpáticas. Passo sempre pelo Purex a caminho do Cais do Sodré. Antes ia ao Roterdão mas agora está fechado para remodelação. E depois Lux. Outras vezes o caminho leva-me até ao incógnito. Não gosto de variar na noite. Detesto aqueles sítios comerciais tipo meninos do rio. Abomino. Em tempos ia ao BBC. Nunca mais lá pus os pés. Não me dizem nada aquelas pessoas. Na realidade a noite já não me diz muito. Gosto de sair na esperança de te reencontrar. Sei que isso não vai acontecer. Ou quando acontecer vou-me vomitar porque virás acompanhada. E eu não vou aguentar. A minha obsessão mantêm-se de tal forma que dificilmente escrevo doutras coisas. De tal forma que já nem as pessoas aguentam vir a este blog ler o que quer que seja. Prometo que vou escrever sobre outros temas. Prometo. Vou tentar. Como vou tentar esquecer-te. 

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Mickey Mao

Hoje vou vestir a minha Mickey Mao. Vou jantar à noite com colegas e apetece-me despir a farda habitual politicamente correcta. Vou começar por beber umas margaritas e afundar-me em sangria de champagne e frutos silvestres. Espero que os mariachis do costume estejam por lá. A última vez que lá fui os meus miúdos adoraram - Comandante Che Guevara. Hoje sem miúdos sou eu o miúdo vestido de Mickey Mao. Vai ser giro. É sempre. As conversas descambam sempre. Muito mesmo. É o problema de sentar à mesa vários ginecologistas. Os outros coitados têm que se aguentar à bronca. O último grande jantar ficou marcado pela diferença entre Squirting e Golden Shower. Sim, até eu fiquei perturbado com o conhecimento de algumas das pessoas. Espero que haja after-dinner. Apetece-me dançar e ver luzes a piscar. Talvez Incógnito ou Lux. No que diz respeito à noite não sou de grandes variações. A noite começa invariavelmente no Bairro e acaba invariavelmente no Lux. O tempo está cinzento e chuvoso. Who cares. Sinto-me bem disposto. Nada como uma boa sexta-feira. Friday, My second favourite F word. ;) Well. See u.

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

cheiro a terra molhada

Sinto o corpo pegajoso. Trabalhei mais de 24 horas e não tomei duche a seguir. Naturalmente, não por vontade própria. Prefiro sem sombras de dúvida tomar o meu banho em casa. Como tal, não trouxe nem shampoo, nem gel, nem escova, nem creme de rosto, nem perfume e muito menos roupa lavada e passada a ferro. Mas hoje fui apanhado à traição - tens que ir vigiar exames. E lá fui, pegajoso, remelento, despenteado e a cheirar a cavalo. Evitei cumprimentar as pessoas que fui encontrando. Detesto gente mal-cheirosa. Assim que pus o pé fora do hospital senti os chuviscos refrescarem-me e o cheiro a terra molhada. Uhhhmmmm... Adoro o cheiro das primeiras chuvas de Outono. Fui caminhando cautelosamente na calçada escorregadia e ouvindo os gritos selváticos dos putos a serem praxados. Irrita-me profundamente a praxe académica. Não passa de um exercício de humilhação por parte de imbecis. Se quiserem chamar as coisas pelo nome e à séria então façam-no como em Coimbra onde os caloiros são rapados se apanhados na rua depois da meia-noite. Eu fui, apanhado por uma trupe chefiada por um atrasado mental que depois chegou a ser meu colega de ano. O que ele era gozado. Posteriormente, já como doutor participei em trupes e também eu rapei caloiros. Algo do qual me envergonho profundamente hoje em dia. Atitudes impensadas e irreflectidas de um adolescente acabado de chegar a Coimbra. A praxe é um exercício de imbecilidade e traduz a subserviência das hierarquias. Na altura nem sequer pensei nas coisas dessa forma. Entendia tudo como uma mera brincadeira. Mas de facto não o é. Frequentemente dou comigo a chatear os meus alunos parar se deixarem de merdas e não praxarem caloiros. Felizmente na faculdade onde dou aulas essa actividade não é sobejamente apreciada. 
Cheguei a casa quase à hora do almoço. Deitei-me pegajoso no sofá e no sofá adormeci a ouvir Mumford&Sons. Gosto desta altura, sobretudo porque é o início do ano lectivo, porque são os meses de transição em que começo a rebuscar os meus cachecóis, casacos e botas. Adoro conduzir à chuva. Aprecio as idas ao cinema, ao teatro, a concertos e exposições, mais que no Verão. E depois há o cheiro à terra molhada. O que eu gosto. 

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

o ultimo olhar

O último olhar aconteceu no Campo Grande às quatro da manhã. Cedo para uma noite de fim-de-ano. Fiquei à beira do lancil a fumar um último cigarro enquanto desaparecias na curva da cidade universitária. Um ano antes estivemos lá para comemorar a tua benção das pastas. O risco que corri. Estava-me nas tintas. Nada é mais forte do que o amor verdadeiro e este não escolhe quem quer atingir. Se no início achava que a discrição seria o mais adequado, naquele momento queria gritar aos sete ventos o nosso amor. Sei que fomos falados e tu também. Em registos e patamares diferentes. Curiosamente a minha geração demonstrou ser menos cinzenta e preconceituosa do que a tua. De facto não se espera um comportamento abstruso de pessoas com pouco mais de vinte anos. As últimas recordações guarda-os do Natal de 2012. A partir daí foi sempre a desfocar. Cada vez mais tudo parece uma história de amor antiga em que os actores foram morrendo aqui e ali, uns de tuberculose, outros de sífilis, como era habitual outrora. Não fossem as tuas fotos continuarem espalhadas cá por casa e provavelmente a tua face seria pouco mais de uma recordação ténue. A figura substitui-se pelo intelecto. E o teu continua tão presente. Não há dia em que em ti não pense. Não fosse ter cortado de vez com o nosso contacto e a DSM-IV teria lugar para mim. Assim chama-se simplesmente mal-amado. Na realidade já nem sei o que se chama. Acho que já não passa tudo de uma birra minha. Gosto de sofrer e alimentar paixões platónicas. Tive algumas muito fortes. Uma delas pela minha professora de matemática no 9ºano. Outra, por uma amiga de cachinhos dourados do grupo de Verão. A facada em cheio que senti quando ela revelou a mim estar interessada em cicrano. E a pedir-me ajuda para o conquistar. Ainda hoje não sei se ela alguma vez soube o que eu senti por ela. Se sim, foi de um grande sadismo. Mas que amor mais puro aquele em se promove a felicidade no objecto do seu desejo. E sim ajudei-a. Sofrendo e corroído por dentro. Nunca mais a vi. Uns amigos comuns disseram-me que estava gorda e velha. Só faltava estar desdentada. Verdadeiros amigos para que eu agradecesse a Deus não ter ficado com ela. Tudo mentira, vi-a uma vez ao longe no Colombo e continuava deslumbrante como eu a sempre vi. Recordo a pele dourada e aquele olhar doce. Não há paixões como quando se tem 16 anos. Vou voltar ao meu livro... 

domingo, 22 de setembro de 2013

Bem-vindo Outono.

Primeiro dia de outono. Impossível. O calor que se faz sentir não é prenúncio de que o Verão já lá vai e preparamos-nos para entrar no Inverno. Seria pior se estivéssemos em pleno Game of Thrones. Aí o Inverno seria inevitavelmente dramático. O último tinha durado 9 anos. Habitualmente aprecio as 4 estações, embora essas já só existam nas memórias de infância. Até aí a austeridade se fez sentir. Reduziram-nos as estações em 50%. Tenho excelentes recordações dos Outonos. O início das aulas. O regresso das terras de Vera Cruz. Os namoros escondidos e proibidos - só no nosso espírito. O outono veste as pessoas do deboche do Verão que se esfumou. É um regresso à realidade, uma tábua rasa dos excessos do Verão, das férias. No entanto, o Verão insiste em não nos abandonar. Estou quente, quase febril. Mais uma semana que se passou e que espremida só caiu sumo azedo e bolorento. O outono já foi verão e já se transformou em inverno. No outono a hoegaarden cobiçada pelo Duque de Saldanha alimentou-nos conversas intermináveis. Os encontros furtivos por esses parques de estacionamento fora, as despedidas com beijos roubados pelos cantos da boca. Esse outonos não morrem. Agora este em que mantenho alegremente os polos lacoste nas gavetas diárias não é de confiança. Começa a fazer falta o friozito da manhã, o céu encoberto e os primeiros cheiros a terra molhada. Adoro as primeiras chuvas. Depois, como tudo na vida, tornam-se cansativas pela insistência. Achei apropriado ouvir Sade enquanto escrevo. E como muitas outras músicas, fez-me recuar no tempo. Nessa altura ainda existam lojas Singer que vendiam as coisas a prestações. A net era uma miragem e os telemóveis só nos pulsos do tipos do espaço 1999. Nessa altura, na década de 80, no outono, após o início das aulas pedi ao meu pai uma aparelhagem - como se dizia na altura. Recordo-me do cd de demonstração ter músicas de Sade e Terence Trent D´Arby. O som era uma merda e acabei por não concretizar o meu desejo. Mas o momento ficou e era outono.

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

A1

As quinta-feiras passo-as a trabalhar fora de Lisboa. Conheço o início da A1 de olhos fechados. Sei exactamente os locais onde não me posso esticar. Um deles é aquela descida onde, inexplicavelmente, muda para os 100 km/h. Houve um dia que vi um taxi encostado à berma, com uns pinos cor-de-rosa antes. Á frente, do capot aberto, um radar. Não me chateei, sempre imaginei aquele como o local previlegiado para a caça à multa. Recordo tantas viagens nesse pequeno troço de 40 km até desviar para dentro em direcção à Serra do Montejunto. Conheço as curvas, a paisagem, as pedreiras, os semáforos no meio das terreolas. É um dos meus momentos Zen essa pequena viagem semanal de 40-50 minutos. Ouço normalmente a Antena 3. E penso, penso, penso. O regresso, também habitualmente à mesma hora, fica frequentemente marcado por um desvio para o KFC da 2ª circular onde compro lixo para destruir as coronárias. A questão é que não me apetece cozinhar às horas que chego a casa. O curioso é que tenho as melhores e as piores recordações destes momentos de introspecção. Podem achar bizarro, mas faço verdadeira meditação enquanto conduzo. Para mim, o ouro sobre azul reside numa boa intempérie. Quando a protecção anuncia alerta amarelo, ou mesmo vermelho, é quando eu gosto de conduzir. Gosto da chuva cerrada, do nevoeiro impenetrável, dos lençois de água, adoro sentir o ESP do carro a equilibra-lo no meio de um aqua-planning. De facto, sou tudo menos normal. E gosto de ser assim. Um dia destes alguém irá identificar o meu cadáver estropiado debaixo de um dos enormes camiões TIR que circulam naquela estrada merdosa. 
Há 3 anos atrás as quintas-feiras e a suas viagens estavam marcadas pelas saudades. Telefonava para a Itália sem me preocupar com nada. A sensação de que podia estar a ser excessivo maçava-me, mas era irresistível. Passei três meses com a cabeça no ar. Foi a primeira vez que consegui que uma dieta fosse tão eficaz. Perdi 12 kilos. Comecei a gostar mais de mim. Foi uma dieta forçada. Pura e simplesmente não tinha vontade de comer. Sabem, borboletas no estômago e a cabeça vazia. Questiono-me como não fiz nenhuma merda durante esse trimestre. A distracção envolvia-me e a minha mente voava a 3000 kilometros de Lisboa. Queria telefonar para Roma a toda a hora. De facto há emoções que nunca se esquecem. Agora que penso nisso consigo vivenciar parte daquilo que sentia a cada minuto, cada segundo que passava. Queria-me despachar a todo o custo. Corria para casa à procura do Skype. Passávamos horas a falar aos soluços pela noite dentro. Chegava ao trabalhava como se estivesse a borgar a noite toda. Ou pior, a fazer múltiplas urgências. Recordo o frigorífico branco decorado com rótulos de cerveja atrás de ti. Uma paixão interrompida pela distância só pode trazer mau resultado. Andava doente e a minha doença era o amor e paixão loucos que me assolaram assim que te vi entrar. Cheguei a abandonar o cinema, com a desculpa que o filme era uma merda só para te ver à distância. E as conversas com os amigos no à margem em que eu desligava de tudo e de todos. As vezes que fotografei a nossa ponte, o nosso Tejo iluminado pela nossa Lua e te enviei fotos só para que matasses saudades. Só se ama assim uma vez na Vida. Só se perde um amor assim uma vez na Vida. O teu regresso foi o princípio do fim. 

sábado, 14 de setembro de 2013

Characulu

Essa palavra vem do Latim CHARACULU, um diminutivo do Grego CHARAX (o CH soa como em alemão), “estaca, pedaço de pau”.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sons de Violino no Telhado

Cheguei a casa e cansado deitei-me no sofá de pele. Está calor e este cola-se ao corpo. É uma sensação desagradável no inicio mas depois de o aquecermos ficamos envolvidos no sofá ternurento. Adoro o meu sofá. Não sou grande adepto de devoções a objectos, mas este é aquele que me atura nos dias de cansaço extremo. As minhas lamúrias são ouvidas por ele sem estrebuchar. O meu sofá é meu amigo. E frequentemente cá em casa a minha única companhia. Ele e o meu sistema de hifi bose. O Olive 3 HD apesar de ter uma boa memória e ter guardadas quase 4000 músicas anda-me a pregar partidas. De um momento para o outro decidiu que não engolia mais CDs e deixou-me pendurado. Voltei às pilhas de CDs como se de torres instáveis gémeas se tratassem. Cheguei a casa, acendi um cigarro e bebi uma weissbier. Afinal é sexta-feira. E, enquanto espero por um casal amigo para irmos atacar umas sapateiras para os lados de Algés resolvi novamente nadar no meu sofá, italiano, cinzento-tabaco e ouvir música. De repente ouço sons de violino no telhado. Alguém arranha nas cordas sem dó nem piedade, dos meus ouvidos. É uma das desvantagens de se viver no último andar. Os vizinhos que estendem roupa passam pela minha porta aos Sábados de manhã, as infiltrações fruto das construções de merda que se fazem em Portugal e os sons de violino no telhado. Não os pedi, mas eles lá estão. Raios partam a miúda que não toca um caralho. E eu que só sentia borboletas no estômago, agora tenho que comer com sons de violino no telhado.