terça-feira, 9 de Fevereiro de 2010

breve reflexão sobre o amor


O amor verdadeiro é puro. É cristalino e transparente. Quando se olha o amor de frente as palavras perdem o significado. Basta um olhar, uma lágrima, um esboço de sorriso para sabermos quem amamos e porque amamos. O amor verdadeiro não tem barreiras. As idades não interessam, as raças não têm importância, as diferenças sociais tornam-se ridículas. O amor verdadeiro não têm distâncias porque as almas continuam-se amar, e estas são intemporais. O amor verdadeiro não tem interesses ou esquemas que nada têm que ver com o amor. O amor verdadeiro é inesperado. Podemos gostar de algumas pessoas, sentir um quase-amor mas o amor verdadeiro aparece quando menos se espera. Tudo deixa de fazer sentido quando estamos em comunhão e sintonia com a pessoa que amamos. O amor verdadeiro é sincero e baseado na confiança. Não se ama verdadeiramente muitas vezes ao longo da vida. Pessoas infelizes podem mesmo nunca chegar a amar. Que tem a felicidade de encontrar a outra peça do puzzle é iluminado pela liberdade de se amar. O amor verdadeiro é resistente. Resiste às distâncias, aos mal-entendidos, às discussões, às tristezas, às ausências, às faltas... O amor verdadeiro quando existente é eterno, para a vida, é um fóssil que nos acompanha até partirmos para sempre. O amor verdadeiro é terno e envolvente. O amor verdadeiro é tudo aquilo que todos nós devíamos alguma vez sentir. É a dádiva e a comunhão. É a felicidade a dois. Esse é o amor verdadeiro.

sábado, 30 de Janeiro de 2010

Quarto de Memórias

Deixei o quarto exactamente como estava no dia que te foste embora. Não fui capaz de mudar uma peça que fosse. Cada centímetro de parede é uma recordação tua. Sento-me na tua cadeira e deixo o pensamento flutuar oceano fora até ao teu encontro. Nunca pensei que o tempo fosse tão relativo e uma semana parecessem meses. Até nisso Einstein tinha razão. Fecho os olhos e vejo-te deitada no nosso sofá como se fosse ontem. Ponho o gira-discos a rodar e ouço as nossas músicas de vinil de outros tempos. Os nossos tempos. Ana Carolina e Seu Jorge. Gotham Project. Rita Red Shoes. Embalo os meus ouvidos na recordação da tua voz. Deixei o quarto exactamente como estava no dia em que te foste embora. Naquele dia em que não te consegui dizer adeus. Em que tantas palavras ficaram por dizer. No dia em que os meus olhos fugiam dos teus com receio de não controlar as lágrimas que sulcavam o meu rosto. A almofada continua no chão como nós a deixamos. O teu baptismo "da almofada que cai" faz-me sorrir. Visto o pijama luminoso que me ofereceste e deito-me ao teu lado. Não me sentes mas eu estou por aí. O quarto está exactamente como tu o deixaste no dia em que te foste embora. Os lápis de cor continuam espalhados pelo chão. Os desenhos que fizemos os dois. O céu pintado de azul. O Sol resplandecente que trespassa as árvores centenárias do nosso passeio polvilhado de misticismo. Os encontros não programados. As coincidências. Os pastelinhos de Belém. As fugas para comprar cigarros e beber café. Tudo fotografado a preto e branco porque é assim que se deve fotografar o amor. Deixei o quarto exactamente como estava no dia em que te foste embora. Não consegui mudar uma peça que fosse.

domingo, 24 de Janeiro de 2010

Memórias

sábado, 23 de Janeiro de 2010

leituras cegas




Não sei porque escrevo se sei que não lês. Fico prostrado perante os pensamentos que teimam em não me abandonar. Quero-me levantar mas as pernas dobram-se como galhos secos ressequidos pela tristeza que me assola. Os rios secam perante o teu sorriso que a mim já não se dirige. Sinto a tua voz fugir do outro lado da linha. As tuas palavras esfumam-se nas emoções que se perderam. Rasgo-me perante o teu ser e tu nem sequer sabes quem sou. Não sei se alguma vez saberás. Ou se alguma vez quiseste realmente saber. Lavo a cara com ácido e cego perante as leituras que não quero ver. Flutuo até ao teu ser e vejo-te a preto e branco como o amor deve ser fotografado. As distâncias assolam-me e perseguem-me. Os cadáveres caiem à minha volta e só tu interessas. Pinto o mundo a preto e branco e percebo que estás do outro lado do espelho. Faço-te adeus e ofereço-te um sorriso que me devolves como se emoções em ti só existissem em mundos paralelos onde não me insiro. Insiste em pôr-me numa caixinha da qual me quero libertar. Recordo-me dos inúmeros livros de páginas brancas onde quis recriar a história caustica deste mundo podre que nos envolve. Somos duas peças do mesmo puzzle mas não saímos da prateleira onde teimosamente nos quiseram castigar. Liberto-me e flutuo lado a lado ao pé de ti. As leituras são cegas mas quero me leias como eu desejo interiorizar-te. Não sei porque escrevo se sei que nunca lês. Lavo a cara com ácido e percorro os teus pensamentos sem que dês conta. A clarividência transporta-me para os teus mundos paralelos que quero unificar. Abro os olhos e não vejo e num último esgar de dor canto o meu amor por ti.

quarta-feira, 20 de Janeiro de 2010

Memento

Há momentos que não o são e outros que deviam ser o que não são. Há momentos de tristeza e outros de emoção. Há momentos cizentos que dilaceram o coração. Há momentos de saudade, momentos de ansiedade, momentos onde a mentira é uma verdade. Há momentos de memória... E memórias de momentos. Há momentos de opções, certas e erradas... Há momentos de sofrimentos sofridos e infligidos. Há momentos em que estamos no Céu outros no Inferno. Há momentos em que estamos e outros em que flutuamos. Há momentos de morte iminente em que tudo desaba à nossa frente. Há momentos de alegria e de amor. Outros de ódio e de tremor. Há momentos em fecho os olhos e... respiro lentamente à espera do que não existe.

domingo, 17 de Janeiro de 2010

Para ti...

Escolhas

São 3:31 da madrugada. Os amigos já regressaram aos seus lares. Fico sozinho e penso em ti. É bizarra a forma como de ti me recordo. As nossas vivências ocorrem como se o tempo desse saltos em vez do contínuo que nos habituou. Os amores proibidos só o são na nossa mente. Envio-te sms na vã tentativa da resposta que tarda em regressar. As escolhas têm destas coisas. É curioso como já há muito tempo não sentia saudades de alguém. E tu fizeste-me regressar a esses sentimentos que há muito sentia apagados da minha essência. Tenho saudades tuas e ainda agora voaste. Libertaste-te e eu sem querer também me liberto. Não conseguia adormecer sem te ver uma última vez. Espero o teu regresso como se a certeza fosse inequívoca. Que não é. Nunca é. Ficam as memórias, os sentimentos e as vivências. Ás vezes sinto que nunca vou passar desta adolescência das paixões. O Chivas Regal percorre-me os vasos e entorpece-me a mente. A escrita fica fluida e vejo-te longe, para lá da nossa península. Quero estar a teu lado mas não consigo trespassar as barreiras que nos separam. O encontro de hoje em frente ao balcão vermelho é o paradigma do amor que por ti sinto. Nunca pensei voltar a amar. A mente é assim, prega-nos estas partidas. Deito-me e finto o candeeiro branco que teima em abanar-se. Tudo treme à minha volta e tu não sentes porque caminhas estrada fora no regresso ao teu mundo. Quero entrar nele mas as chaves estão perdidas por estes campos fora. Á medida que escrevo a minha cabeça abana. Quero voltar à cama que espera por ti sem a certeza absoluta de algum dia regressares. Mas a vida é feito de incertezas e eu não sou excepção.

sábado, 9 de Janeiro de 2010

A almofada que cai.



Quinta da Regaleira, Sintra, 2010

O teu olhar terno transporto-o comigo,
Partes sem dizer adeus, porque os adeus só se dizem para sempre,
Não quero despedidas, porque ainda não morri,
A celebração da tristeza nunca me fez sentido.
Ficamos em margens opostas deste rio cinzento que nos separa,
Libertas-te de quem nunca te prendeu,
Quero-te acenar mas não consigo,
Fecho os olhos e navego pelo teu corpo, perco-me na tua mente, respiro o teu ser.
Fotografo-te a preto e branco porque é assim que a beleza deve ser guardada.
As memórias são o nosso elo de ligação,
A "almofada que cai" fica à tua espera,
e eu com ela...

segunda-feira, 28 de Dezembro de 2009

Inseguranças



Esta será certamente a minha última entrada do ano. Como humano e ser simples que sou olho para trás e faço um balanço destes últimos 362 dias. Foi um ano intenso, emocional, de vitórias e fracassos. Fiz opções das quais me arrependo e outras das quais me orgulho. Sofri com algumas e fiz sofrer com outras. A velocidade que me imponho a mim mesmo não me deixa respirar. Não há nada nesta existência que não tenha consequências. Já aqui escrevi sobre a teoria do Chaos, que de resto se aplica a tudo na vida. As inseguranças que me atormentam dão me alento para continuar e lutar pelo mais básico dos direitos humanos: a felicidade. Sou uma pessoa mais simples do que há um ano atrás. Não obstante, sou mais intolerante e intransigente contra a mesquinhez e sentimentos negativos como inveja, ciúme e hipocrisia. Mas as inseguranças inundam o meu espírito de algum sofrimento que tento combater. Por vezes sinto que me estou a enganar a mim mesmo. Por vezes mergulho a cabeça na areia e quando olho de frente não vejo a realidade que se me apresenta. O meu grande medo: a desilusão. Já fui demasiadas vezes enganado para não temer o desamor. As inseguranças são transversais a tudo: vida profissional, pessoal e sentimental... Quem se afirmar completamente seguro de tudo só poderá ser um Deus ou o seu egocentrismo tornou-se patológico. Olho para trás e vejo o iceberg onde naveguei no último ano. Alguns fragmentos desprenderam-se de mim para sempre, deixando no entanto a sua imagem negativa de puzzle imperfeito. Como nos "coristas" não há acção sem reaccção e tudo o que nos fazemos e infligimos aos outros acaba sempre por se reflectir em nós. Desejo uma excelente passagem de ano a todos. A minha será a trabalhar. Mas não me importo... Ou então sim.

quinta-feira, 24 de Dezembro de 2009

Feliz Natal



Aproveito estes momentos em que a familia ainda não está toda reunida para escrever estas breves palavras. Desejo um feliz Natal a todos os que por aqui se passeiam. E fiquem com este pensamento, enquanto estiverem no quentinho da vossa sala, a trocar presentes, a encher o estômago até à exaustão de comidas e bebidas, alguém no mundo está debaixo de uma caixa de cartão ao relento e à fome... Por isso, parem para reflectir sobre aquilo que todos nós fazemos desta sociedade miserável e egoísta. Bom Natal.

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

Fragmentos


Os momentos vão-se sucedendo sem fio condutor. Os erros cometidos não podem ser apagados. Precisava de uma ligação-terra que descarregasse o excesso de energia que me tolda a vista e me prende a voz. Não consigo falar perante as evidências. Não sei o que procuro e insisto em afastar tudo o que se possa assemelhar ao amor. Tudo é facilmente confundível quando se ama. A amizade torna-se obrigação, a presença metamorfoseia-se em estagnação e a liberdade esfuma-se entre os dedos. Quando nos desprendemos de alguém isso nunca acontece na totalidade. Por muito que não se queira o sofrimento que se inflige acaba sempre por se virar contra nós mais cedo ou mais tarde. Todas as energias negativas têm o oposto positivo por aí algures. Podemos passar uma vida inteira sem as encontrarmos enquanto outros as açambarcam. As relações sucedem-se como se de camisas se tratassem numa busca desesperada pela felicidade. E eu já a tive... duas ou três mas já a tive. E foram essas as duas ou três frustrações que minaram cirurgicamente os pilares da estabilidade, como bombas terroristas que quando menos se espera dilaceram tudo e todos. A última relação parece ser sempre para vida mas isso nunca acontece. Quando olho para os meus pais, tios e avós vejo uma realidade que desapareceu da nossa existência. As relações eram para a vida, não sei com que custos ou ganhos secundários - ou melhor até sei, mas não quero disso falar. Agora tudo é volátil e de curta duração. O romantismo da viuvez desapareceu pela imponência do divórcio e da separação. Sempre que de amor falámos nenhum de nós se compreendeu na realidade. Se ele existisse terias sabido esperar e compreendido que mesmo quando não se está a mente acompanha-nos, envolve-nos e surge a saudade. A crueldade dos teus actos fragmentou tudo aquilo que poderia ter existido. A saudade deu lugar ao ressentimento e implorei a partida. Apesar de ti nada saber as tuas marcas continuam por aqui espalhadas. Embora não saiba já quem tu sejas ou se alguma vez soube. Tudo são fragmentos da minha existência onde as várias peças do puzzle deixaram de se encaixar. E tudo se repete mais uma vez. Mudam as personagem, mudam os cenários mas os sentimentos são os mesmos e dor salpica tudo com a mesma roquidão que o choro nos habituou.

domingo, 29 de Novembro de 2009

memórias passadas e presentes

domingo, 15 de Novembro de 2009

I choose to forget.

Perco-me na linha do horizonte. Várias vezes me confrontei com esta defesa mágica que é o esquecimento. Consigo com destreza libertar-me de todas as memórias más. Deixam de existir. Mudo assim as vivências ao sabor da minha vontade. Na realidade a nossa memória é algo de muito pouco fiável. As nossas lembranças têm sempre, antes e depois, várias camadas arenosas que só as carregam de subjectividade. Cada vez que evocamos uma memória esta poderá ter diversas cores dependendo do nosso estado de espírito actual. Escolhi apagar-te da minha memória como se nunca tivesses existido. Cada vez que olho para as velhas fotos onde tu apareces não te reconheço. Relembro as minhas viagens pelo mundo islâmico e sei que me acompanhaste, embora a tua presença esteja desfocada e não passes de uma imagem abstracta na minha mente. Contigo as memórias boas e más misturaram-se de tal forma que foi de todo impossível filtrar o que deveria guardar. Os momentos negros de algumas intersecções nos nossos caminhos foram demasiado corrosivos para a nossa própria existência. Naquele dois de Março a tua existência para mim deixou de fazer sentido. Abandonaste tudo aquilo em que eu acreditava. E eu decidi esquecer-te. Por momentos pensei que tudo poderia ter sido diferente. Mas nesse par de anos que resisti as peças foram-se desmoronando e o puzzle perdendo a sua essência. Agora é que como se nunca nos tivéssemos conhecido. Vejo-te nas minhas fotos e não te reconheço não sei quem és e surpreendo-me por ter a tua presença constante ao meu lado.

sexta-feira, 23 de Outubro de 2009

Disney Store


Entrei a semana passada na Disney Store do Colombo com o intuito de comprar uns pijamas engraçados aos meus rebentos. Saí de lá com cuecas, meias, uma almofada do Jack e não mais porque consegui resistir à colaboradora disney que literalmente não me largava a roupa interior. A simpatia pré-fabricada que os colaboradores de certas superfícies exercem sobre os clientes são uma náusea. A maioria das empresas, sobretudo americanas, dão formação e instruções claras aos seus colaboradores como leva-los a consumir mais e mais e mais. Às vezes os colaboradores lêem demasiado à letra as suas guidelines e tornam-se insuportáveis. Por razões óbvias não vou sequer descrever a pessoa em questão... Mas se forem à Disney Store do Colombo e derem de caras com a colaboradora em questão depressa se irão recordar deste texto. Confesso que acabei por consumir e consumir só para a mulher me desamparar a loja e me deixar a ver as coisas em liberdade... Não há coisa mais irritante do que estar a ver coisas com calma e ter sempre alguém ao meu lado a perguntar se preciso de ajuda, de conselhos, a aconselhar outros produtos que não me dizem absolutamente nada... etc etc etc. A minha vontade foi não voltar a entrar naquela loja... Mas a porra é que é a única que conheço em Lisboa com os produtos encomendados pelos rebentos. Foi só um desabafo. Mas há pessoas que não se aguentam. A conta dela deixei 98€ em meia-dúzia de porcarias. Até na caixa quando fui pagar por azar ela trocou com a coleguita e foi-me atender... Queria-me impingir uma bola de neve dos 7 anões... Chiça.

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

(Sem título)

Há textos que padecem de títulos. Os rótulos, essa tendência universal da actualidade, só servem para guardar em caixinhas as nossas próprias frustrações. Continuo sem perceber essa necessidade humana de arquivar e rotular emoções, comportamentos, vivências, opiniões e atitudes, como se fossem estanques e não se interceptassem. Na maioria das vezes o que se passa mesmo é uma amálgama de intersecções. Não há branco ou preto, certo ou errado, feio ou bonito etc ou etc. As coisas misturam-se e dependem da luz e hora com que as confrontamos. Cada vez mais combato-me a mim mesmo essa necessidade de rotular e organizar no meu pensamento aquilo que se me depara. É a minha luta contra a mesquinhez. Tudo é um grande tutti-frutti. Que se fodam os rótulos e os títulos, que só servem para, numa atitude adolescente, continuarmos-nos a comportar em grupinhos e a discriminar tudo aquilo que não se encaixa nos valores preconceituosos pré-concebidos... E uso este pleonasmo só para dar força às misturas. A vida é uma orgia.
PS: Continuo a ficar impressionado pelo facto da maioria das pessoas que aqui caiem venham à procura das mamocas da Diana Chaves que são as palavras-chaves mais prevalentes na estatística deste blog. É a prova viva que o engodo sexual continua a atrair pessoas para esta teia. O que também comprova que a maioria das pessoas que navega serão homens à procura das mamas da Diana Chaves. É universal, por alguma razão a viúva negra tem tanto sucesso em atrair vítimas...

sábado, 5 de Setembro de 2009

A memória comediante.

Tenho um relógio de parede na minha sala com a inscrição "do not forget". E eu não me esqueço, mas gostava. Apesar de ter uma memória selectiva e conseguir eliminar completamente episódios que pouco ou nada me dizem, há muitos outros que se mantêm e me condicionam nas minhas acções. Claro que a memória é talvez o elemento humano que mais partidas nos prega. Não há uma única que tenha sido exactamente como nós a recordamos. Elas mudam-se e adaptam-se como plasticina nos cantos mais recônditos da nossa mente. As memórias vestem diferentes cores de acordo com os nossos estados de espírito. Se umas vezes nos parecem dramáticos os momentos vividos outras vezes são nos quase indiferentes. A memória é assim uma comediante. Há pessoas que distorcem completamente as memórias, ou pela imaginação fértil ou por uso intempestivo de prozac. Esse grande atentado contra a criatividade. As memórias assim pura e simplesmente não existem. Os registos fotográficos ajudam-nos a situar-nos em momentos envelhecidos mas aquilo que dali advém pouco ou nada teve a ver com a realidade passada. Isto leva-me a concluir que não existe uma verdadeira realidade. Esta é tão distorcida como o som do meu velho walkman em que revivo em cassete o mítico Leonard Cohen. Doesn´t matter who broke my heart. But it hurts.

ironias

Fui à tarde a um dos parques infantis aqui da zona. Os meus filhos ansiavam pelos escorregas e baloiços prometidos desde que acordaram às 7.00 da manhã a um sábado. Quando chegámos estavam 6 ou 7 miúdos, negros, alguns de cuecas a divirtirem-se com guerra de balões de água. Os meus filhos continuaram a brincar sem dramas ou medos infundados, ou não, já que aquelas crianças eram todas oriundas do famigerado bairro da Cova da Moura que de vez em quando migram até estas redondezas. Rapidamente me lembrei da "cidade de Deus". Podiam ser perfeitamente intérpretes dessa realidade crua e dura. Os miúdos continuavam a divertir-se com os balões de água. Entretanto vejo um senhor de telemóvel em punho sem criança por perto. Achei estranho mas continuei a minha leitura do "expresso" enquanto vigiava os meus rebentos. Um dos miúdos tinham um ar perfeitamente "mafioso", mas em ponto pequeno, crista na carapinha e as sobrancelhas com vários cortes. Outro apresentavam um polegar completamente destruído com várias cicatrizes de corte. Confesso que aquele grupo me causou algum desconforto e um pequeno medo interior infundado, ou não, já que os miúdos são da Cova da Moura e não raramente responsáveis em grupo por assaltos, vandalismo e mesmo agressões a adultos e recordei a "cidade de Deus". Os meus filhos continuaram alegremente a brincar. Entretanto ouço um dos miúdos a gritar para os outros - "Vem aí a polícia." Olhei para o pequeno "mafioso" e disse-lhe: "Não tens nada a temer" "Se não estão a fazer asneiras a polícia não vos importunará". Perguntou-me se era proibido atirar balões. Respondi-lhe que logo que fosse entre eles que não. Não podiam era atirar a outras pessoas. De repente no meio do parque infantil sobem dois polícias, um pai de telemóvel em punho, uma mãe de sotaque brasileiro e 4 ou 5 miúdos brancos que eu chamaria há 20 atrás - que grupo de betinhos. Os polícias perguntaram aos miúdos se eles ontem tinham roubado um fio de ouro! Ao que responderam que não. A brasileira pergunta a um dos miúdos betinhos se era algum daqueles - ao qual o miúdo de 8 ou 9 anos responde em alto e bom som que eram muito parecidos, não eram estes, mas que também eles eram todos iguais! Os polícias continuaram por ali e o meu sentimento de medo e insegurança só aumentou! A brasileira gritava com sotaque brasileiro que deviam era ser todos expatriados! - pasme-se. Que se fosse nos Estates eram todos repatriados. - pasme-se a Brasileira e os polícias e o pai de telemóvel em punho e os betinhos que andam de fios de ouro no meio dos parques infantis... Perante tudo isto eu agarrei nos meus filhos e vim-me embora antes que vomitasse para cima de alguém.
É triste verificar que os racismos, estigmas e discriminações se iniciam nas mentes bem imaturas. Ó mãe: o que é expatriados?

sexta-feira, 4 de Setembro de 2009

Sempre pensei que não gostasses de praia

Sempre pensei que não gostasses de praia. Desde que te conheci, ou não, desdenhaste os pés na areia, a água fria da nossa costa atlântica, os gritos das crianças correndo, os pregões das bolas sem creme, que a ASAE anda à coca e os mirones nos altos das falésias, sentados nas suas famel à espera do desmoronamento fatal. Sempre te ouvi tecer mil argumentos a favor das piscinas num resort qualquer por aí perdido. Eu a olhar para ti e para o teu cabelo eriçado pela humidade da maresia que tu também desprezavas. Eras capaz de estar duas horas em minimalismo repetitivo a queixares-te que pela minha manipulação metereológica estavas com um cabelo num estado miserável. E eu gostava do teu cabelo num estado puro e miserável. Sempre pensei que não gostasses de apanhar boleias. Sempre demonstraste a tua independência (e muito bem) e o gosto mais que justificado para teres o teu carro sempre a teu lado para abandonares os sítios sempre que te apetecesse. E eu gostava dessa tua faceta auto-suficiente, mesmo quando te queixavas dos 200 km que fazias diariamente. Sempre pensei que não apreciasses turismo independente, perdida por ruas e vielas num qualquer país distante, sujo, imundo, habitado por pessoas com hábitos e visões diferentes dos nossos. Mas surpreendeste-me no meio daquele caos que nós vivemos.... e reclamavas reclamavas até à exaustão e eu achava-te graça, mesmo quando deixava de te achar graça. Sempre pensei muitas coisas... algumas acertei outras nem por isso. Afinal aprecias boleias e espantosamente gostas de praia. E sempre acabaste por fazer turismo independente. Nunca se conhece ninguém na realidade. :)

terça-feira, 1 de Setembro de 2009

o meu baú de velhas memórias

É sempre presunçoso escrever sobre memórias quando só conto com pouco mais de 3 décadas de vida. No entanto as memórias dependem da intensidade de quem as viveu. E apesar de tudo já guardo em mim muitas alegrias, tristezas, viagens, asneiras, maldades, bondades... Sempre tive dificuldade em entender o tempo como uma realidade contínua. Tenho imensa dificuldade em conseguir situar-me perante a relatividade do tempo. Talvez por isso sempre tenha tido as teorias einsteinianas como favoritas. Há um canal novo na minha grelha de canais novos que aprecio muito: Nat Geo Music. Ainda hoje mesmo, depois de uma tarde devotada à adolescência, onde passei metade da tarde a dormir e a outra metade a jogar Batman: Arkham Asylum resolvi ligar a TV, coisa que raramente faço, e deparei-me com música dominicana e depressa me transportei para as memórias da minha viagem solitária e independente por toda a costa norte da ilha. Recordei todas as introspecções feitas até então. Tinha-me acabado de divorciar há pouco tempo e a ferida ainda estava aberta e purgativa. Na realidade ainda está. E se querem mesmo saber a verdade, penso que irá estar até ao dia em que fechar os olhos e partir definitivamente para o desconhecido. Essas minhas férias foram as mais introspectivas que fiz até ao momento. Tive momentos de verdadeira reflexão auto-psicanalítica que se vai prolongando até aos dias de hoje. Ás vezes conhecemos pessoas nos momentos e lugares errados... Pessoas que gostamos e que deixamos partir porque temos que deixar partir. Porque há feridas que precisam de ser curadas primeiro. A minha grande dúvida é o que acontece se a ferida se mantiver sempre aberta... E isso é assustador.

sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

à flor do mar





sexta-feira, 14 de Agosto de 2009

On Strike

Faz exactamente 1 mês desde as minhas últimas palavras escritas aqui. Na realidade não se tratou de nenhuma operação intelectualmente concertada. O único argumento que se me apraz é o de ter estado de greve intelectual. Os neurónios estiveram num estado quiescente e as sinapses não comunicantes. Tudo isto se resume às minhas férias, este ano totalmente dedicadas ao Algarve e dois dias um bocadinho mais para esquerda. Esta minha primeira semana de trabalho tem sido dolorosa, quer pela inércia a que nos habituamos quer pela falta de vontade em reiniciar neurotransmissões. Sinto-me como um sapo a quem alguém coloca um cigarro na boca à espera que expluda. Continuo com o estúpido ritmo de não dormir de noite e acordar cedo, algo a que os meus rebentos me habituaram nas duas últimas semanas. Agora compreendo a tortura do Sono. Na realidade já a tinha compreendido há 7 anos atrás quando o mais "velho" nasceu... Na altura, encontrei um livro de BD muito interessante intitulado o regresso dos mortos de sono que exemplificava brilhantemente o nascimento do segundo bebé de um casal. Deveria ter continuado de greve intelectual já que este texto é tudo menos interessante. A culpa foi dos Eristoff Black Label, Quintas da Pesseguina, Coronas, Grand Cafe, Sacha... etc etc etc. O meu lobo frontal ainda deve continuar a banhos lá por baixo.

terça-feira, 14 de Julho de 2009

O viking, o velho e o casal

A praia é dele. Todos os anos refaz a escadaria de terra e tábuas envelhecidas pelo desfiladeiro abaixo. K.F.F Strand é a sua marca. Dos cinco pinheiros guardiões só restam três. Recordo as suas sombras de outros tempos marcados pela pronúncia doce do norte. O viking da praia dos pinheiros. A ele podemos agradecer o acesso a um dos últimos redutos escondidos neste cantinho algarvio. O silêncio é de ouro, só interrompido pelas gaivotas nos seus cânticos anunciando o suicídio das ondas nas rochas recortadas. Todos se parecem conhecer desde sempre. Os rochedos, as gaivotas, a areia grossa e todos os seus comensais. Deito-me estrategicamente no ponto mais afastado das falésias que me rodeiam. O meu medo ancestral materializa-se nos sinais aqui e ali avisando-nos para o perigo de derrocada. A tenda de verde camuflado esconde os segredos do amor vividos pela lua-de-mel do jovem casal. Beijam-se e tocam-se como se não existisse ninguém à sua volta. A sensualidade e feminilidade das duas contrasta com estereótipo habitual. O velho, co-proprietário, coxeando com dificuldade pelo areal, aproxima-se com o seu castelhano macarrónico e pergunta "Eh Chicas, manana estao por aqui...?". Abanando o seu hidrocelo como se de um relógio antigo de parede se tratasse ouviu como resposta "Donde se puede tomar un duche". O Sol esconde-se recortando o chão. Foi a primeira vez que o velho se manteve até tão tarde na sua praia. Talvez entusiasmado pelo amor demonstrado entre as duas chicas.
Hoje a praia voltou à sua normalidade. Sem tenda, mas com os comensais do costume.

quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Secret Spot


Há locais secretos que guardamos só para nós. Na maioria das vezes imaginários, embora por vezes a realidade se misture com a ficção. Chama-se a isso delírio. Eu tenho um local secreto de meditação. A única companhia são as gaivotas, o vento salgado na face e as ondas do mar no seu ritmo constante. Sento-me num círculo e deixo o meu pensamento flutuar até ao branco, ao vazio... A areia é grossa e magoa-me. Acordo sem nunca ter fechado os olhos. Leio os pensamentos daquela pessoa que se encontra a olhar para mim movendo os lábios numa língua imperceptível. Não estava ali quando tudo começou. Observo-a com atenção por detrás das minhas lentes cinzento-escuras. Parece reparar que estou a olhar para ela e continua naquela mímica labial. Tento-me abstrair daquela triste figura de costelas salientes e mamilos imponentes pelo Sol, que se esconde atrás das rochas. Reinicio "a minha andorinha" do MEC que me acompanhou até à minha praia. Donde raio apareceram estas pessoas no meu spot secreto. Um Argentino obeso, licenciado em Geografia, pede-me para fotografa-lo. Acedi, embora a sua presença estivesse a interromper o meu descanso. Queria-me fotografar com a desculpa de ver a sua imagem espelhada nos meus Prada cinzento-escuros. Naturalmente, recusei. Felizmente o tipo já estava em Portugal há cerca de 10 dias, ultrapassando o período de incubação do H1N1. Afastou-se do meu círculo tentando fotografar a italiana que se banhava nas águas gélidas e cristalinas. Bizarros hábitos estes. É assim que quando menos se espera aparecem fotografias por essa net fora sem que os seus protagonistas sonhem sequer.
De repente o meu secret spot parecia uma reunião da ONU. Felizmente, com o esconder do Sol, rapidamente se puseram a milhas ficando eu novamente com a sua hegemonia.

quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Black Vodka

O Vodka preto da nossa relação. A primeira vez que o bebi foi num terraço decorado com motivos cubanos num Agosto quente de 2000 e picos. Recordo esse momento longínquo em que fomos apresentados. Anos mais tarde projecto-te nesses momentos com as tuas tranças adolescentes. Foi a última vez que bebi Vodka preto. O sabor blueberry não ultrapassa a desvantagem da língua petrolífera. Nunca pensei voltar a beber Vodka preto excepto quando te reencontrei. O café do desabafo que se tornou numa troca de olhares, nuns breves momentos em que as peles se tocaram e os calores se fundiram. Prolongamos a nossa conversa entre alcatifas, bolas espelhadas no tecto e Vodka preto. Nunca daí passou, nem poderia ter passado. Há relações que são sem nunca o terem sido. E a nossa foi assim. Uma amizade onde as retinas se cruzaram e os espíritos se envolveram. Sabíamos à partida que o futuro era tão negro como o Vodka que me atordoava o espírito. Encontramos-nos mais duas ou três vezes sem que o platonismo se transformasse no que quer que fosse. E ainda bem. Bebo mais um golo do Vodka Preto que enche metade do meu copo dos Simpsons. Ouço Rui Veloso e penso nas verdadeiras razões, nas tuas verdadeiras razões. Não consigo entender, ou entendo agora, a inteligência das nossas atitudes. De facto há relações que não passam de trocas de olhares. E a nossa foi assim. Porventura mais forte e intensa do que... Levantei-me e fui encher mais um copo de Vodka preto que começa agora a surtir os seus efeitos. Apetece-me telefonar-te mas resisto. Sempre resisti aos meus impulsos mais instintivos. Na realidade, a forma como tudo aconteceu dilacerou-me por dentro sem que tu ou eu tivéssemos sequer tido tempo para notar. São 3:50 e apetece-me sair de casa para me refrescar. Quero um cigarro...

terça-feira, 30 de Junho de 2009

Berit Mila


O brio é algo de muito positivo em todos nós. Apesar de não me considerar especialmente materialista tenho alguns cuidados com os objectos materiais que colecciono à minha volta. A minha tia Nanda, essa sim materialista, costumava dizer que tinha cuidado com as coisas porque estas lhe tinham custado muito a ganhar. Os objectos adquiriam uma personalidade própria que nada tinha a ver com o dinheiro. O sofá italiano bordeaux teriam sido 2 meses de noites em branco na Clínica de São Lázaro (o nome pode estar enganado), o espelho barroco do corredor foram outros tantos domicílios geriátricos, o rádio am/fm com 60 anos um par de horas extras nos primórdios do Santa Maria... e assim por diante. De nada lhe serviu tanto trabalho em rodear-se de bens materiais recauchutados com primazia... O rádio am/fm com 60 anos jaz agora avariado no meu quarto trazendo-me à memória a minha tia Nanda e as suas filosofias mundanas. Todos os outros objectos foram distribuídos, mais ou menos aleatoriamente, pelos sobrinhos e irmãos. Serve de muito não usarmos as coisas em vida.
A última vez que estive no Algarve com os meus nenucos resolvi, por brio, ir lavar o carro alugado (o meu ainda estava no hospital dos carros após a colisão contra o eléctrico da Carris) a uma lavagem manual e mais barata. Lá encontrava-se o casal da foto, que à medida que o senhor ia chuveirando o carro, a esposa com o filho ao colo ia esfregando as jantes de liga leve munida de uma escova de dentes. Este é um exemplo de como a perfeição é sempre inatingível. A mim, apesar de adorar o meu carro, nunca me passaria pela cabeça andar com o meu filho ao colo esfregando as jantes com uma escova de dentes. Aliás, algo provavelmente premeditado, ninguém anda assim com escovas de dentes para trás e para à frente. Eu por caso tenho uma na minha mala de trabalho, mas não a levo para a estação de serviço, a não ser que premeditadamente eu resolva escovar os dentes à jante. Como sabemos, as jantes são a última das coisas a sujar-se 5 minutos após a lavagem, pelo que a sua lavagem nunca é inglória. Not. Naturalmente, isto não é uma crítica, cada qual esfrega o que bem entender e como bem entender. Mas achei que devia compartilhar convosco.
O título desta entrada não tem que ver com a prosa escrita anteriormente, mas sim com o Berit Mila que celebrei hoje em homenagem ao meu filhote. Lá teve que ser, quem sai aos seus não degenera. De qualquer maneira, ficou fantástica, mais estética e crescida. ;)