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sábado, 29 de setembro de 2012

Vislumbres

Hoje vi-te. Estavas de costas, com as tuas calças cinzentas largas de aladino e os cabelos soltos baloiçando-se pelo vento. Hoje vi-te, distante, longe, de costas. Estavas a namorar. As mãos masculinas  percorriam-te as costas. Beijava-lo intensamente, de costas, com os teus cabelos soltos baloiçando-se pelo vento. Hoje vi-te beijando um rapaz que não era eu. Beijava-lo com a mesma intensidade com que nós nos beijámos naquele tram em Amsterdão, alheios a tudo, alheios a todos, sozinhos e eu percorrendo-te as mãos pelas costas. Hoje vi-te e respirei de alívio. Libertaste-me. Repousavas nuns braços que não eram os meus. Arranquei-me de dentro do meu corpo sofrido e sublimei-me. Sabia que um dia teria de me confrontar com o facto de não sermos um do outro. Mas eu continuava teu, tua... teu. Não te consegui arrancar do pensamento até este dia, em que de costas beijavas outro. E eu vomitei como sempre soube que iria acontecer. Vomitei e libertei-me de ti. Estavas de costas e eu transparente passei por ti, deixando um rasto de vómito ensanguetado passeio fora. Encostei-me a um árvore e salpiquei-te os pés. Transparente não me viste e continuaste envolvida com aquele ser que agora te possui. Vi-te e libertei-me. Ao longe ouvia-se Temper Trap. Consegui ouvir-te dizer que essa seria a nossa música. Não a mim, que não te beijava, que não te tinha, que não te percorria as costas com as minha mãos sempre quentes. Não a mim transparente, salpicado de vómito ensanguetado. Transferiste a nossa música, o nosso ambiente, a nossa realidade para outro. Reiniciaste outro mundo, igual, mas sem mim. E de costas eu via-te caminhando de mãos dadas pelas ruelas sujas do bairro, do nosso bairro que agora deixara de ser meu. Hoje vi-te e esqueci-te no momento seguinte. Libertaste-me sem sequer saberes que ainda existo. Estavas de costas com as tuas calças cizentas de aladino. Eu, transparente, esvoacei e sublimei-me em mil tons de arco-íris por cima de ti cinzenta beijando alguém que deixou de ser eu.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Se me queres dizer algo porque não me ligas?

Se me queres dizer algo por nunca me ligas? O meu telefone está ligado. O branco, o da paz. O outro deixei-o moribundo dentro de uma gaveta fechada. Esqueci o número. Esqueci as 300 e picos mensagens que imortalizaram o teu amor por mim. Se me queres dizer algo porque não me telefonas? Desces até à rua e ligas-me daquela cabine telefónica antiga, suja, com uma lâmpada fluorescente instável. Podes-me ligar a cobrar no destinatário que não te recusarei a chamada. Mesmo se estiveres em Hong Kong. Faz um reset ao sistema. Deixa o som fluir sem me olhares nos olhos. Se me queres dizer algo liga-me e para de me invadir os sonhos. Quero dormir em paz. Não quero acordar a meio da noite suado como naquela noite de baile de máscaras em que despertei sem saber porquê. Acordei vestido de branco e com uma máscara veneziana com nariz pontiagudo. Daquelas que se usavam por causa da peste. Se me queres dizer algo para de interferires nos meus sonhos. Não te quero ver à minha volta perturbando a minha existência pacífica. Quero nadar sozinho nas águas quentes do mar morto. Quero flutuar sem ti, sem esforço. Agradeço que não invadas o meu espaço sideral. Quero sonhar em paz. Estou cansado de acordar a meio da noite. Chego a casa e tu não estás. Perdeste a chave da nuvenzinha onde vivíamos. Se me queres dizer algo podes sempre escrever. É injusto só leres. É um desequilíbrio. Sinto-me pendurado pelos pés, pelas pontas dos dedos, na corda roupa, naquele 4º andar onde o lixo abundava nas traseiras, no baldio, onde os gatos se divertiam marchando e copulando estridentemente. Recordo essa febre que me prostou e me deixou ligado a ti. Ao menos escreve qualquer coisa. Podem ser frases curtas, em inglês, em espanhol, em italiano. Podes sempre mandar-me aquela parte. Mandar-me foder. Sem me queres dizer algo fá-lo sem me invadires os sonhos. Os sonhos são a minha realidade paralela onde vivo feliz e sonho com a vida que levo deste lado quando estou acordado. Nos meus sonhos namoramos, amamos-nos, viajamos, ouvimos a mesma musica, dançamos, bebemos, cantamos, gritamos, vemos filmes, enrroscamos-nos, fazemos amor, andamos à chuva, desaparecemos para cidades incertas, eclipsamos-nos. Nos meus sonhos ainda existes e não precisas de me ligar, basta falares. Se me queres dizer algo não me ligues, porque nos meus sonhos és feliz.

Life Goes On

Ligo o computador e admiro-te. Continuas com o teu ambiente de trabalho como se ainda vivesses cá, como se existisses, como se nunca tivesses partido, como se nunca tivesses morrido. A morte é uma inexistência na vida de outro. É um atentado à esperança. E essa matei-a quando assumi que tinhas partido para sempre. Disseste-me através de terceiros para continuar a minha vida. Também o disseste directamente. Não quis ouvir. Eu tento, mas está a ser difícil. No auge da paixão fugiste para Roma. Sofri, emagreci, não dormia, distraia-me, olhava para as pessoas sem as ouvir, mas sabia que te iria reeencontrar. Em Amsterdão, em Roma, em Lisboa. Agora sei que não te vou reencontrar. Sei que não te encontrarei por mais que me esforce. Ando perdido pelos sítios que gostávamos na esperança de te ver. É estúpido eu sei. Continuo obcecado, apaixonado, mal-amado, desprezado e no entanto não te consigo tirar da minha cabeça. Não o mereces eu sei, ninguém merece, mas é a realidade por mim vivida. De ti nada sei e continuas no meu computador e eu admiro-te cada vez que o ligo. E o que me custa desliga-lo. Vejo as nossas fotografias vezes sem fim e recordo as nossas canções. Como é possível que o livro italiano daquele escritor que eu não sei o nome seja tão parecido com a nossa história. E como muitas vezes pensei à medida que o lia, ao teu lado, deitado na areia quente do nosso secret spot, que isto ia acabar mal. E acabou não acabando. Despedimos-nos com um beijo nos lábios, com promessas de amor eterno, impossível e nunca mais te telefonei. Nem tu. Desististe de mim quando no momento em que eu quis desistir não me permitiste. Dizes-me por terceiros para continuar a minha vida. Não precisavas, eu sei que continuaste a tua. Embora nada mais saiba, porque morreste no meu espaço vital. Harakiri na realidade. Uso este blog como escape. Apercebo-me que a pessoa que mais vezes cá vem sou eu. A nossa história tornou-se desinteressante de tão repetitiva que é. Mas é o meu sofrimento isolado que a mantêm viva no meu espírito. Life Still Goes On.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Lisbon Alien

Fui ao Chiado. A minha zona favorita de Lisboa. O tempo estava cinzento e a rua repleta de pessoas deambulando. Comprei a Photo e mais um livro sobre o holocausto. Dirige-me ao Fábulas na esperança de te encontrar. Chovia. As mesas ocupadas não davam sinais de libertação. Ao fundo dois rapazes sentados. Aproximei-me e perguntei s podia compartilhar a mesa. Algo habitual em todo o mundo. Nunca fiquei à espera que vagasse um lugar em nenhum lado do globo se duas pessoas ocupam uma mesa de quatro. Parece lógico, mas não em Portugal. Disseram-me sim com desdém. Um deles com um sorrisinho estúpido nos lábios denotava admiração e reprova. Ignorei a sua ignóbil presença. Pedi um café, acompanhado por um pequeno cubo de bolo de chocolate, acendi um cigarro e desfolhei a minha Photo. Sempre na esperança de te encontrar. Sempre na esperança de levantar o pescoço e ver-te a caminhar entre as cadeiras amarelas. Desfolhei a Photo e paguei. 1€ e 20 cêntimos. Foi concerteza o cubinho de bolo de chocolate o inflaccionador. Paguei com 2€ e deixei lá o troco. Às vezes é preciso demonstrar aos outros que também é possível dar. Um lugar desocupado não é assim algo de tão especial. Fiquei a pensar se aqueles rapazes mentecaptos não se teriam abotoado com a gorja. Fumei outro cigarro pelo caminho. As mulheres hoje estavam especialmente bonitas. E no entanto eu procurava-te. Sem sucesso como habitualmente. Passei pela gelataria e deu-me vontade de comer o clássico morango e côco. O teu clássico. Procurei-te em todos os bancos e sofás vermelhos na esperança de te ver deliciada escorrendo pingos escarlates desenhando os teus lábios carnudos. Procurei-te sabendo que não te iria encontrar. Nunca te encontro. Vim-me embora. Chovia. O trânsito caótico deixou-me aprisionado quase  uma hora para fazer a rua da escola politécnica. Ouvi Keane. Eu que nem gostava muito. Encontrei o casal sussurando palavras amorosas encostados à ombreira de uma porta apodrecida. Li-lhes os lábios. Amavam-se. Procurei-te, podias ser tu. No meu íntimo desejo-te ver-te finalmente nos braços de outro homem. Para me libertar de ti. Vomitar-me-ei. Mas libertar-me-ei de ti para todo o sempre. Não eras. Em sentido contrário vinha uma miúda numa vespa preta com bancos castanhos claros de camurça. Chorava. Pude perceber que para além da chuva chorava. Procurei-te mas não eras tu. Tu nunca chorarias por mim. Não se chora alguém que se esqueceu. É como se nunca tivesse existido na tua vida. E no entanto eu procuro-te. E não te encontro. Fui ao Chiado. A minha zona favorita de Lisboa. Como se não pertencesse ali flutuo e desapareço. 

Jazigo


No dia em que te conheci não te liguei. Ignorei-te forçadamente. Não te quis dar confiança. Mas fixei-te. Retive o teu olhar doce. Guardei o teu cheiro açucarado perto de mim. Imaginei o sabor dos teus lábios tal como os senti mais tarde. No dia em que te conheci comecei a morrer. A pouco e pouco despedacei-me até ao dia em que nos separámos. No dia em que te conheci nasci. Renasci. Para imediamente comecar a morrer. Desapareceste da minha vida e no entanto estás tão presente. E fazes por isso. Mesmo sem sentido. No dia em que te conheci quis-te possuir, fazer amor contigo, encostar-te á parede, penetrar-te, sentir-te escorrer, morder os teus lábios. Mas ignorei-te e comecei a morrer. Matas-me com cada pensamento teu. Cada memória tua é uma farpa no meu espírito. Atraiçoas-me mesmo sem estares presente, sem estares na minha vida. Quero-te longe de mim e no entanto não te consigo esquecer. Mataste-me e eu permiti. Por ti magoei, por ti magoei-me. Apaixonei-me, e isso é incontrolável. Não quis deixar de viver algo que sabia que poderia ser a minha relação mais intensa. E de facto foi-o. No dia em que conheci comecei a morrer. Habito um jazigo sem a tua presença. Também tu morreste para mim. Resta-me amar as nossas memórias.

domingo, 23 de setembro de 2012

Closed heart

Há pessoas que nos marcam, mesmo que não o admitamos. Há pessoas, que mesmo sem saberem, mudam o curso das nossas vidas. Umas vezes bem outras mal. Há pessoas que entram e desaparecem das nossas vidas mas ficam tatuadas para sempre no nosso espírito. Há pessoas que fogem mas levam com elas a chave do nosso coração. Estou fechado para o mundo. A minha mente, o meu espírito, o meu coração ficou parado no tempo. No tempo em que tu existias. Não é justo, quero amar e ser amado. Não te persigo, porque não se perseguem os pássaros selvagens. E tu seguiste o teu caminho migratório. Deus sabe como eu tento esquecer-te, olhar para outras mulheres, dar-me uma hipótese a mim mesmo de continuar a viver. Não consigo, emolduraste o meu amor por ti e agora não consigo amar mais ninguém. Deus sabe como eu tentei e tento, mas a minha mente corre sempre para o lado errado. Não é justo, não te consigo amputar da minha memória e tu não o mereces, porque me esqueceste, porque não me amas, porque continuaste a tua vida, deixando-me num pausa permanente.  Tento imaginar-te com outros homens, namorando, passeando-te com um qualquer pelas ruas de Veneza, sem surtir efeito. Continuo a amar-te como ontem e tu já nem sequer existes. Queria ir ver o último filme do Woody Allen que se passa na nossa Roma. De Roma com Amor. Recordo de imediato a carta escrita que me enviaste Roma-Amor. Até nisso estás sempre presente. Quero amar e ser amado, mas enquanto viveres em mim estou fechado para o mundo. Odeio-te como te Amo. Liberta-me. Deixa-me viver. Aparece-me inesperadamente com o teu novo namorado. Faz-me vomitar os sentimentos que guardo dentro da minha caixinha e talvez possa continuar a viver.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

vacuum cleaner

Hoje estive a limpar a casa. Na realidade a aspira-la. É impressionante como as pessoas deixam sempre algumas marcas. Naturalmente, desde que abandonaste esta casa ela já tinha sido limpa várias vezes. Não obstante, algures num canto escondido encontro um cabelo teu sedoso, comprido, liso, que guardei dentro uma caixinha de recordações com um cadeado prateado. Arremessei a chave janela fora. Há medida que limpava ouvia XX. O último. Muito bom. E, mesmo contra a minha vontade, a minha mente flutuava até ti. Não consigo deixar de pensar em ti. Onde estás, como estás, se estás feliz, se estás triste, com quem estás, se o teu coração já se abriu para alguém, não consigo deixar de pensar em ti. É um inferno. Já disse tantas vezes que não voltava a escrever sobre ti e tantas vezes me menti a mim mesmo. Odeio-me por isso. Quero-te esquecer. Quero esquecer os bons e os maus momentos que contigo passei. Não que eu queira na realidade esquecer-te mas deixa-me doido. Estou fechado para o mundo. Enquanto te amar como te amo não vivo. E a minha vida continua. Não posso ficar agarrado a uma ideia, a um ser que se tornou abstrato, inexistente. Tudo na vida tem um momento. Uns perduram como tantas vezes quisemos acreditar. Outros não. O nosso passou do arco-íris ao obscurantismo. E no entanto amamos-nos. Ou melhor, pelo menos eu amo-te. E continuas presente nesta casa. Nas fotografias. Na fotografia, naquela do Cine Azurro que tanto gostamos. Uma vez disse-te que tinha que esconder as tuas marcas nesta casa. Não é possível. Não consigo. E ainda que consiga estás presente na minha memória. Passei as nossas últimas férias sozinho. Não sozinho, estive com amigos, uns velhos e outros recém-adquiridos, mas viajei muito sozinho. Nesses instantes olhando pelas janelas do autocarro, do comboio, no metro, o meu olhar via-te do outro lado da linha, sorridente e com o teu olhar terno de que tenho tantas saudades. Hoje estive a limpar casa. Na realidade a aspira-la e no entanto não consigo que as tuas memórias me abandonem. E sofro por isso.