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quinta-feira, 28 de março de 2013

3,14

Complicamos as nossas vidas. Temos uma esperança média de vida tão curta e tanta necessidade de complicarmos o pouco tempo que por cá andamos. Não somos nada comparado com a imensidão universo. Uma ínfima parte de energia que se esgota a cada dia que passa. O meu discurso junto dos meus filhos sempre tentou desmistificar a morte. E conseguiu-o. De facto, eles, tal como eu, não a receiam. Sabem que é algo tão natural como o nascimento, como a fecundação, como o início da vida. A morte não é mais do que uma sublimação. Neste universo, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma. A nossa energia ficará por cá. Mas creio que quando fecharmos os olhos tudo acabou. Iremos viver alguns anos nas memórias dos nossos amigos e familiares até que eles também sigam o curso inevitável da morte. Nada é tão certo. Podemos ter a sorte de viver longos e bons anos até que as nossas células esgotem a parca energia que aprisionam ou ter o azar de uma morte violenta num acidente. Mas de tudo aquilo que nos podemos mudar ao longo da nossa vida a morte não é certamente. Este conceito faz-me recordar que habitualmente damos tanta importância a coisinhas tão pequeninas quando na realidade devíamos viver cada dia intensamente. Sair, cheirar, respirar, absorver aquilo que o mundo tem de bom para nos dar. Nunca sabemos se voltaremos a ver a luz do dia, o sorriso dos nossos filhos, sentir o abraço dos nossos amigos, o afagar dos nossos pais e irmãos. Existem poucas coisas que me incomodam. Pensar que posso não acordar sem me despedir de algumas pessoas e não ter dito o quanto gostava delas é uma. Tento pensar nisto quando acordo de forma a ir afirmando as saudades que terei quando partir. Existem pessoas que eu amo tanto e que não o sabem, porque na realidade nunca o afirmei. A pouco e pouco vou afirmando os meus sentimentos. Não quero morrer deixando coisas por dizer. A morte é inesperada. Podemos apressá-la fumando, bebendo, tendo uma vida sendentária, conduzindo a 240 km/h, sofrendo de stress e preocupações, mas ainda assim ela pode não chegar quando esperamos. Não quero deixar emoções por explorar. Na realidade a morte não me assusta, só tenho pena de não ter feito tantas coisas quantas gostaria. Sei que mesmo que morra daqui a 100 anos nunca esgotarei tudo o que gostaria de ter feito. Vou ter saudades das cores, do frio, do Sol, dos meus filhos, dos meus pais, dos meus amigos, da minha música, dos meus livros, dos meus quadros. Vou ter saudades de tirar fotografias. Vou ter saudades do meu trabalho. De colocar bebés no mundo quando eles tal como eu começam a morrer no dia em que nasceram. Talvez, por na realidade a morte me ser estranha, tenha optado por ser obstetra. Continuo a emocionar-me com o primeiro esgar de choro. Por muito automático que seja o parto continua a emocionar-me, confesso que não da mesmo forma melodramática do primeiro por mim realizado, mas sim emociona-me. 
O filme a Vida de Pi fez-me pensar sobre a relatividade da sobrevivência e de como o ser humano consegue ser tão eficaz nessa actividade. Marcou-me o argumento, a fotografia, a música e o conceito. Estou a ouvir neste momento a sua banda sonora e deleito-me com a paz de espírito que me traz. Tal como o filme me fez pensar. 
Não serve de nada complicar a nossa vida por pequenos grãos de areia cósmicos. Quero viver feliz a cada dia que passa. Olhando para trás compreendo o quanto me tem custado perder algumas pessoas. O que me custou a negação de um dos grandes amores da minha vida, embora essa percepção seja só minha. Tudo porque se complicam ideias, atitudes e maneiras de estar. Hoje estou aqui e amanhã talvez não e deixei por dizer tantas coisas. Uma delas o enorme amor e carinho que tive por alguém que partiu. 

domingo, 24 de março de 2013

Insatisfação.

E de um momento para o outro nascemos e morremos,
Chegamos e partimos,
Encontramos e perdemos,
Amamos e choramos,
E num momento conhecemos e esquecemos.
Pintamos o arco-íris num fundo negro,
que não desaparece.
E num momento acabamos o que
nem sequer começou.
Andamos às voltas vezes sem conta,
à espera do que nunca chega.
Insatisfação. Sempre insatisfação.
Não há música, nem livro, nem poema,
nem pintura que descreva o aperto que nos surge.
Não há arte capaz de transmitir este sentimento,
que desprezo.


Sofa Sleeping

Adormeci no sofá com a camisa a condizer. Gosto de dormir no sofá. Desde sempre, desde miúdo. Costuma-me ocorrer por fases a aversão a dormir na cama. Passam-se dias em que invariavelmente não desfaço a cama. Acordo todo dorido. Dormir no sofá corresponde praticamente a um estado de imobilidade. Não temos muito por onde nos virar correndo o risco de nos estatelarmos no chão. É praticamente uma visão da vida actual. O meu sofá é confortável, consigo-me esticar, mas sempre na mesma posição. E depois há facto de ele ser de pele, o que se torna incómodo no início, acabando depois por se tornar mais confortável do que qualquer outro material. Parafraseando Fernando Pessoa, primeiro estranha-se depois entranha-se. Este sofá, em certa medida, é um elemento central da minha casa. As vivências por ele testemunhadas são muitas. Neste sofá já estudei horas a fio, já li inúmeros livros, deleitei-me com centenas de discos, chorei e ri navegando para lá do LCD nas minhas sessões de cinema caseiro, os miúdos brincam no sofá, as pessoas assim que chegam cá a casa arremessam-se para cima dele, já dormi sozinho, acompanhado... etc (não vou entrar em mais pormenores, mas é um sofá voyeur, amiguinho da carpete que o acompanha). Comprei-o numa loja de móveis na Almirante Reis. Os donos, indianos, queixaram-se que aquele sofá de pele genuína e de origem italiana não se adequava ao mercado da zona e não havia meio de o conseguirem vender. Embora tivesse sido caro, fizemos um acordo digno das trocas comerciais dos descobrimentos, eles faziam-me um desconto considerável e eu pagava-lhes de imediato mas entregavam-me num prazo de 24 horas, já que o anterior tinha sido selvaticamente removido aquando do meu divórcio. Assim, a um domingo de manhã ele entrou-me pela porta adentro. Não mais nos separámos. E de facto quem nele se deita deleita-se com o seu conforto. E não há nada como fazer amor num sofá cizento-tabaco.
Acordei às três da manhã, com a camisa Boss da mesma cor e tão amarrotada como o meu trapézio, biceps e grande dentado. Acordei com o telemóvel debitando mensagens de há umas horas atrás. Não sou só eu em fase de in repeat. A música continuava ao mesmo nível de quando me deitei. Fiz uma playlist com as últimas novidades independentes do 2º semestre de 2012 e início de 2013 e adormeci assim embalado por Indie Rock. Curiosamente quando despertei do meu sonho ouvia Indians. Aconteceu-me algo interessante, embora não inédito, inclui o som, que naturalmente já me incomodava, no seio dos meus sonhos. Senti que alguém tentava entrar pela porta da rua, as chaves que deixo normalmente na porta de forma a encravar a fechadura abanavam, as batidas na porta deveriam ser as de algum vizinho raivoso pelos décibeis a horas socialmente impróprias. Estava manietado na parede e por muito que quisesse não me conseguia libertar das correntes que me aprisionavam. Entretanto acordei. Os pormenores do sonho esfumaram-se e não tinha o meu Dream Book a jeito para os assentar. 
 Tentei responder à mensagem com um português incorrecto. Não há nada pior que o corrector automático do meu iPhone quando estamos com um olho aberto e outro fechado. Parecia um monólogo de loucos. A resposta não foi muito mais adequada. Visivelmente acordei a meio da noite a destinatária da mensagem que me deve ter rogado mil pragas. Confesso que estava num estado semi-a-dormir-semi-acordado e nem me ocorreu que não se respondem a mensagens às 3 da madrugada quando as mesmas foram enviadas à hora do jantar. Ainda tenho que descortinar uma desculpa adequada e pensar numa compensação adequada. Talvez a dois no meu sofá. 

sábado, 23 de março de 2013

in repeat.

in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat the same. in repeat. in repeat. in repeat the models. in repeat. in repeat. in repeat the same mistakes. in repeat. in repeat. in repeat the same comfort zone. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat little life. in repeat personalties. in repeat the same routines. repeating and repeating. routines. persons. lifes. people. little people. lies. in repeat. in repeat. tired of. repeat. repeat. repeat. repeat. repeat. head shot. repeating. repeating dreams. in repeat. in repeat bad dreams. in repeat fears. in repeat. repeating mouth shout. in repeat. in repeat. darkness. in repeat. in repeat. in repeat. fuck off. in repeat. in repeat. in repeat. in repeat.

terça-feira, 19 de março de 2013

Acordei.

Acordei. Demorou algum tempo mas finalmente acordei. Tudo não passou de um sonho. Momentos e momentos guardados nas velhas gavetas forradas a papel pardo. Memórias sépia enraizadas. E inesperadamente acordei. Guardei as palavras sentidas que tantas horas e dias me fizeram chorar. Despertei novamente. Arrastei-me do marasmo que se tinha instalado. Há pequenas frases, pequenos momentos, grandes coincidências que me evocam... Mas acordei. Não é possível lutar até à exaustão. Há erros que não voltarei a cometer. E o passado é isso mesmo. 

sábado, 16 de março de 2013

A Retrete

Hoje, sentado pensativo na casa de banho tive uma epifania. Analisando o meu pensamento cheguei à conclusão de que a avaliação sociológica do nosso país se resume a retretes. O nosso país na realidade transforma-se numa imensa retrete da Troika, deste governo autista e dos países credores.

A do povo e dos trabalhadores
A dos políticos

A dos banqueiros

quarta-feira, 13 de março de 2013

Hoje fui feliz (parte III)

O inesperado é a especiaria da vida. As situações inesperadas são aquelas que nos marcam. Algumas só são inesperadas porque temos uma visão selectiva. Quando não queremos ver o inevitável a acontecer sentimo-lo como inesperado. E, sejam ou não, a forma como sentimos as coisas é que tem verdadeira importância. O inesperado pode-nos tornar mais alegres, ou por outro lado deprimidos. O que é a paixão se não uma situação inesperada. Quando alguém de repente entra nas nossas vidas e não conseguimos mais desviar o olhar, nem o pensamento, que sabor tão bom. A sensação de paixão é viciante, prende-nos como se de uma droga se tratasse. Não pensamos, não comemos, queremos despachar tudo a correr para estar com a pessoa que limbicamente nos enclausurou. E quando, por circunstâncias da vida, a pessoa por quem nos apaixonamos se ausenta para o estrangeiro, é de uma pessoa ficar doida. Já vivi essa experiência e de facto a cabeça persegue-a até ao outro lado do mundo. Sensações semelhantes só sem têm quando as paixões de Verão, nas cidades sazonais do Algarve - por exemplo, terminam abruptamente porque as pessoas vão cada uma para a sua cidade de origem. Semelhante também quando se vai estudar para outra cidade. Não há nada de mais sádico de que uma separação no auge da paixão. É uma prova, um exercício de resistência. A paixão é de facto uma doença. Nas antípodas estão as separações, as rupturas, as mortes físicas ou não. São sempre inesperadas. Há separações pacíficas, isto é, pelo menos para uma das pessoas. De facto, alguém pôr termo a uma relação deixa invariavelmente o outro na merda. Isto é, ou as pessoas chegam por comum acordo que a relação se esgotou ou então alguém fica na merda. E na maioria das vezes nem nos ocorre ou por egoísmo ou por pura ignorância. Sei que já fiz sofrer e também já sofri. Na realidade ainda sofro. Mas não será isso um condimento importante da vida. Os sentimentos radicais é que nos dão alento para a criatividade. O que seria da escrita, da música, da pintura, da fotografia se as pessoas estivessem todas adormecidas num estado semi-zen. E de facto todos somos assim, todos nós temos as nossas histórias com mais ou menos alegria, com mais ou menos tristeza. Mas só conseguimos ser felizes se tivermos o termo de comparação contrário. E eu hoje fui feliz novamente, só que não soube. Aliás, actualmente nunca sei.

terça-feira, 12 de março de 2013

Hoje fui feliz (parte II)

Acorda-se de manhã com a sensação de que não se descansou. No Hospital, nas poucas horas em que nos conseguimos recostar, isso é uma constante. Os colchões velhos e esburacados moldados por milhentos corpos que por ali passaram e as almofadas plastificadas não nos dão descanso. Mesmo que se consiga fechar os olhos o estado de alerta subjacente à necessidade de ter que saltar a mil a hora numa situação emergente impede-nos de descansar. Assim, mesmo que numa das raras calmas noites no meu Hospital, no outro dia de manhã necessito obrigatoriamente de me deitar na minha cama. É estranho inverter os horários tão frequentemente. Só quem nunca os fez poderá achar que isso não nos tira anos de vida e não nos coloca mais umas rugas à volta dos olhos. Deito-me de manhã com a persiana entreaberta. Tenho por hábito adormecer a ouvir música. O sono durante a manhã é estranhamente gélido. Quando acordamos de manhã depois de uma noite bem dormida normalmente estamos quentinhos. O contrário se passa quando nos deitamos às 9:30 da manhã. Acordo normalmente às 13-14h cheio de frio, com o mesmo pijama e edredon que nos manteve ao rubro na noite anterior. Habituei-me ultimamente a dormir de polar. Depois há os sonhos que são sempre relembrados quando dormimos de manhã. E acreditem, acho que a razão de nos esquecermos frequentemente dos sonhos se deve ao facto de serem normalmente coisas muito bizarras e estranhas. Mas se há coisas muito aborrecidas é sermos acordados a meio da manhã por um carteiro, homem da luz ou água ou simplesmente pelos tipos da mediamarkt que vêm elegantemente depositar panfletos promocionais nas caixas do correio e tocam ininterruptamente em todas as campainhas. Claro que habitualmente desligo o intercomunicador, mas há sempre uns palhaços da Meo ou Zon que se dão ao luxo de vir bater à porta. Um dia destes sou mal-criado. Não há pior do que o meu acordar mal-humorado. Desapareçam-me da frente antes de fumar um cigarro e beber o meu ristretto. Na realidade habitualmente acordo bem-disposto, excepto quando sou violentado nos meus direitos básicos. Dormir é um deles.
 Durante a manhã sonhei com mil e uma coisas, lamentavelmente não me recordo, mas devem ter sido boas dado o estado de vasodilatação em que acordei. Pela primeira vez não tive o habitual frio. Assim, provavelmente hoje fui feliz mas não dei conta.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Hoje fui feliz

Hoje fui feliz. Acordei de manhã cedo, uma hora antes do despertador, fixei a hora projectada no tecto e decidi levantar-me. Os números vermelho-escarlate 26.02 não podiam ser reais... não existem essas horas. Estava a sonhar, na realidade não tinha acordado ainda. Fixei novamente o tecto e o arco-íris estava projectado. Olhei de lado, vi-me a flutuar no espelho do roupeiro. Não estava na diagonal como habitualmente. A almofada que cai tinha sido apanhada não por mim. Fui feliz até acordar. Tudo não passou de um sonho, de um sinal incompleto, de significado indeterminado. Seria uma versículo. O meu conhecimento da bíblia é parco e na realidade não creio que exista alguma cá por casa.  Finalmente acordei dentro do meu sonho embora ainda a dormir. Um sonho dentro de um sonho. Fiquei sem saber o significado do 26.02. Quiça uma data. Tudo se mistura no meu espírito. Acordei finalmente e enrolei uma mortalha. De manhã cedo, só podia estar doente. Não se enrolam mortalhas de manhã, toma-se o pequeno-almoço. Apetecia-me relaxar. Inspirei profundamente até que o vermelho-escarlate se estendeu desde os números imutáveis no tecto às minhas conjuntivas. Inspirei suavemente e sorri. Acordei novamente dentro do meu sonho. Continuava um sonho dentro de um sonho dentro de um sonho. Não fumava, não existiam números escarlates, não se ouvia ao fundo Velvet Underground - "Sunday Morning". Sobretudo porque é segunda-feira e tenho que ir levar os miúdos à escola antes de ir trabalhar. Acordei cansado após 5 horas de sono agitadas dentro dos meus sonhos. Não existia um fio condutor. Pareciam matrioskas, cada uma mais colorida e complexa que a anterior. Finalmente acordei, bebi um ristretto e fumei um cigarro. Hoje fui feliz, mas não soube.

sábado, 9 de março de 2013

confort zone

 Há um conceito que me tem intrigado mas com o qual eu concordo - o da zona de conforto. De facto, se dedicarem alguns segundos e fizerem uma pequena pesquisa na web vão encontrar dados muito interessantes acerca do mesmo. A zona de conforto é de facto contraproducente e sobretudo é preciso dar um passo em frente, rumo ao investimento, rumo ao desconhecido. É preciso cortar com os passados. Eles foram interessantes, mesmo que tivessem incluído o local onde a magia acontece. Não obstante, se nos dedicarmos exclusivamente à revisão de memórias fotográficas e afins o melhor que pode acontecer é percebermos que paramos no tempo enquanto os outros continuam a sua busca. A minha zona de conforto é igual à vossa. Casa, sofá, televisão, carro, trabalho... Tenho a perfeita noção da dificuldade que é sair da zona de conforto. Aqui, apesar da rotina, sentimos-nos mais ou menos protegidos, mas perdemos anos de vida. Não podemos ficar agarrados ao passado por muito que nos custe. O FB é por isso um dos elementos mais deletérios na vida de uma pessoa. É uma tortura ter tido uma relação que nos marcou e andarmos constantemente a ver as fotografias da nossa felicidade. A tortura prolonga-nos o sofrimento. O querer saber do outro e perceber que este já saltou da sua zona de conforto e escapa-nos entre os dedos. É preciso de facto andar em frente, cortar com as memórias... Elas são isso mesmo, memórias, umas boas outras más... mas não passam de memórias de uma realidade que vai ficando distorcida à medida que o tempo passa. Hoje andei feito estúpido a rever fotografias nossas, umas em que estávamos os dois e outras onde nem sequer ainda te conhecia. Foi estúpido porque não tem sentido e se não fosse a merda do FB eu não teria lá ido. Primeiro porque não tinha acesso às tuas fotos e segundo porque não tinha especial interesse. A desculpa que é para matar saudades é uma falácia. É tão somente um prolongamento do sofrimento de não se ter alguém com quem já se passeou na zona onde a magia acontece. Há que dar um passo em frente em direcção ao abismo, em direcção à zona de conhecimento terminando na zona de pânico. Sem medos, sem receios. Dou comigo a anular-me numa zona de conforto que não quero e da qual teimo em não sair. É difícil e é cómodo, mas é imperioso convencer-me que tudo o que existiu faz parte do passado. Moldou-me, marcou-me, foram momentos que guardarei para sempre no meu espírito. Mas terminou. Zona de conforto vou-te abandonar...

quinta-feira, 7 de março de 2013

regredido a um estado primário do ser

Regredido a um estado primário do ser. E se de repente despisse a minha pele, abandonasse o conforto do lar, me despojasse de todos os meus bens materiais, me libertasse de todas as imposições sociais ao longo de uma vida. E se de repente acordasse num mundo sem regras impostas, sem moralismos, sem meias-verdades, sem meias-mentiras, onde pudesse ser eu mesmo. E se de repente tudo aquilo que é adulterado pelo politicamente correcto desaparecesse do meu ser. E se de repente a profissão, as contas bancárias, as dívidas, os cartões de crédito, os telemóveis, os computadores se eclipsassem. O que seria eu em estado natural, em estado bruto, não moldado por nada nem ninguém. O que seria eu? Como me olharias sem poder, sem dinheiro, sem estatuto, sem nada. Mesmo os homens-santos na longínqua Índia , alheios a tudo o que é material, não conseguem verdadeiramente regredir ao seu estado primário do ser. Desde o momento em que nascemos as influências, por mais frustres que sejam, esculpem-nos, nem que seja uma ínfima partícula. Mas, e se hipoteticamente, eu fosse um ser com uma alma virgem, impoluta, sem o mínimo de maldade, crueldade, egoísmo, onde só sentimentos benéficos eclodiriam, um santo, um jesus-cristo hippie de sandálias agastadas, seria possível sobreviver? Não há pessoas boas ou más. Todos nós temos as nossas fraquezas e os nossos sentimentos negativos. Esta dicotomia entre bem e mal é uma enorme falácia. O cizento é aquilo que nos domina a maior parte do tempo. Alguns no entanto desequilibram a sua balança no sentido das trevas. São os sociopatas deste mundo. A relatividade das características da personalidade de cada um é o que nos mantêm vivos e resistentes às investidas dos outros. Mas, voltando à hipótese da tábua rasa, como será que me olharias? Amar-me-ias como eu te amei. Será possível gostar tanto de alguém só pelo que ela representa sem mais nada a não ser o seu corpo e alma. Será possível? Será possível amar mais do que uma pessoa ou mesmo tempo? Será possível amar alguém que se perdeu e que se manteve guardada durante anos? Será possível reencontrar o amor. Será que as feridas no ego têm alguma recuperação? Não gosto do mundo em que vivo. Não gosto das imposições e das aparências que são promovidas hoje em dia. Não gosto. As pessoas cada vez mais cultivam a falsidade. Um provérbio árabe ensina-nos a afastar daqueles que se referem aos outros negativamente, já que as vítimas somos nós assim que virarmos as costas. E o mais grave é que este tipo de comportamentos é contagioso. Queria regredir ao meu estado primário do ser. Queria amar e ser amado sem que nada mais fosse importante. E é tão difícil ser selvagem.


segunda-feira, 4 de março de 2013

que se lixe a troika


























Desta vez consegui estar presente na manifestação. Na última vez viajava pelas terras da senhora Merkel. Fiquei emocionado e mesmo à distância estive de alma feita com os meus compatriotas. Mas desta vez não podia falhar e mesmo após 24h a trabalhar lá me dirigi ao Marquês de Pombal. Desci a avenida da liberdade ao encontro de uma amiga do coração e em uníssono gritamos de revolta contra o estado do país. Na realidade, grito, não contra o estado do país mas contra quem conduziu o país a este estado e esses não têm cor partidária. É transversal a todos os quadrantes políticos que vão alternadamente governando. É contra os poderes instituídos que não são sujeitos a sufrágio universal. De facto, a realidade é que vivemos uma falsa democracia. Porque quem realmente manda no país não é eleito. E são os mesmo que por vias "legais" sugam o dinheiro do contribuintes que é injectado directamente na banca e afins. E todos somos marionetas. Aquilo que me marca mais é que por muitos milhares de pessoas que se manifestem estes poderes não tremem e arrogantemente se mantêm no poder. Mesmo que a seguir venha o maior partido da oposição o estado do país ficará igual, porque os patrões são os mesmos. E esses, como já reflecti, não são eleitos. Na realidade penso que não grande diferença entre o estado social actual e os regimes feudais da época medieval. Em relação à manifestação, deparei-me com uma classe média revoltada e empobrecida que pacificamente gritou contra aqueles que enriquecem ilicitamente sem trabalhar. E para isso basta ter um cartão de algum partido do governo. Isso de facto é triste, as pessoas não ocupam os lugares de gestão e liderança com base nas suas capacidades técnicas e intelectuais, ocupam-nos com base no compadrio e amizade política. Tenho sérias dúvidas que estas manifestações sirvam para alguma coisa. Temos políticos autistas e que já perceberam que as suas atitudes, por mais maquiavélicas que sejam, são impunes em Portugal. E esse é o grande drama do nosso país. Temos um país de impunidade. Só isso explica que indivíduos com lugares de destaque no actual governo tenham sido desmascarados em tantos fraudes e se mantenha firmes nas suas pastas. É vergonhoso. Ficam aqui alguns dos meus registos fotográficos. Até à próxima...

domingo, 3 de março de 2013

Leucotomia pré-frontal


A leucotomia pré-frontal, segundo Lobo Antunes (2001), «continua ainda hoje a ser motivo de controvérsias, muitas vezes alimentadas mais pelos preconceitos e pela ignorância de quem a ataca do que por uma interpretação explicativa rigorosa, que coloque a descoberta de Moniz na correcta perspectiva histórica».
De facto, a leucotomia pré-frontal não foi propriamente uma novidade histórica. A ideia de operar cérebros sempre fez parte da intuição médica de curar desde há milhares de anos. Trepanações cirúrgicas eram já praticadas há mais de quatro milénios, quer na Europa quer no Norte de África, para tratamento de várias afecções. Na Idade Média, por exemplo, os curandeiros fizeram diversas tentativas de operar o cérebro na ânsia de procurar a mítica «pedra da loucura». Já no princípio do século XX, o neurologista Vladimir Bechterew (1857-1927) defendeu a ideia de que a cirurgia podia desempenhar um papel de relevo no tratamento de certas doenças.
Depois das suas tentativas cirúrgicas no tratamento dos estados parkinsónicos, e a partir de 1933, Egas Moniz dedica-se à reflexão sobre uma técnica cirúrgica capaz de curar certas psicoses. Rompendo com as tradições psiquiátricas, e em contradição com as concepções psicológicas dominantes no seu tempo, Egas Moniz fundamenta a sua ideia essencialmente em duas teorias – a teoria do neurónio do histologista espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) e a teoria dos circuitos sinápticos preferenciais, paralela à reflexologia do médico e fisiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). Despende também muitas horas no estudo dos doentes com lesões dos lobos frontais destruídos por tumores ou traumatismos, uns da sua observação directa, outros relatados por vários autores. Debruça-se especialmente sobre a história clínica de um doente, ao qual o famoso neurocirurgião norte-americano Dandy tinha amputado grandes porções de ambos os lobos frontais para ter acesso a um meningioma (tumor benigno) que eles encobriam. Por conseguinte, todas as concepções teóricas, mais ou menos documentadas em fundamentos anatómicos, fisiológicos e clínicos, procuravam examinar o problema com imparcialidade e sob diversos aspectos. Por outro lado, esta tentativa de tratamento cirúrgico surge num panorama em que a terapêutica psiquiátrica se revelava pobre e infrutífera, pois a era psicofarmacológica só viria a entrar em cena nos anos 50, do século passado. A ideia de Egas Moniz em desenvolver uma técnica cirúrgica aplicada ao tratamento de certas doenças psiquiátricas certamente não encontrou nesta terapêutica uma fonte de inspiração nem tão pouco de comparação. Será que com a leucotomia pré-frontal te consigo tirar da minha cabeça. É que está a ser difícil. Quando penso que te coloquei definitivamente numa memória recôndita do meu cérebro, tu surges-me ao pensamento sem avisar.
Quando Moniz se refere à leucotomia como uma tentativa «ousada» e «temerária», ele fá-lo consciente que a sua ideia iria ser recebida com as máximas reservas no mundo psiquiátrico, principalmente porque a psiquiatria vivia nessa época um hiato psicanalítico em que as ideias neuro-organicistas eram fortemente contestadas. O médico Luís Cebola, ex-director da Casa de Saúde do Telhal, refere no seu livro Psiquiatria Social, publicado em 1931, que «em Portugal, todos o sabem, porque todos podem constatá-lo, não há nada, absolutamente nada que possa classificar-se de realização séria, de prática proveitosa em benefício dos pobres doidos que por aí abundam». Todo o movimento humanitário despoletado por Phillipe Pinel durante a Revolução Francesa era muito preciso. Mas igualmente se torna inconstestável que o avanço da psiquiatria portuguesa, em particular, era de uma lentidão assustadora. Testemunhos como os apontados revelam bem quanto, na época de Egas Moniz, pouco mais se podia fazer do que aguardar. Júlio de Matos, um dos grandes alienistas portugueses do início do século XX, destaca-se com outro testemunho. No seu livro Elementos de Psychiatria queixa-se que «em Portugal, a falta de manicómios em número suficiente é ainda uma das causas das admissões inoportunas ou tardias. Sempre cheios, os manicómios de Lisboa e Porto não podem abrir as suas portas a quantos lhes pedem tratamento; e assim, os doentes esperam semanas, meses e às vezes anos um lugar, que só vêm a conseguir nas... secções de incuráveis». Quando, no seu livro, tenta abordar os aspectos da terapêutica, ficamos nitidamente desanimados com a pobreza dos recursos. Nessa época os mais variados artifícios da imaginação tentavam suprir as dificuldades sentidas na forma de tratamento dos doentes mentais.