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domingo, 29 de março de 2009

incandescente


incandescente
ad m+f incandescente; em brasa

Quando menos se espera estamos envolvidos pelas labaredas alaranjadas que nos toldam a vista. Num salto fugaz projecto-me para o centro da fogueira sem medo de me queimar. O calor deixa-me a pele em brasa pelos pensamentos que insisto em fechar a sete chaves. Um mão invisível agarra-me e fico a flutuar no ar a centímetros do centro nevrálgico daquele fogo que me atraí como uma borboleta cega em movimentos erróneos. Sinto o teu calor irradiar à distância. Afasto-me impelido pela mão da razão. Num rasgo de loucura liberto-me de quem me tenta manietar e mergulho na profundidade daquele lume incandescente. A dor que sinto é rapidamente aliviada enquanto me expando num fumo cizento e ondulante. Vejo-te ao longe enquanto me afasto de ti. Caio na razão do meu ser enquanto recebo as tuas mensagens, agora telepáticas... E parto para não mais voltar.

domingo, 22 de março de 2009

American Beauty

Passaram-se 10 anos desde que fomos os dois ver o American Beauty ao Cine-Teatro Avenida. Recordo-me como se fosse ontem a perturbação que aquele filme gerou em nós. Algo que sempre nos uniu foi o gosto pelo cinema. Caminhamos ao longo da escuridão que nos envolvia e sentimos cada momento do filme como se fosse só nosso. Ficamos sentados no terreiro em frente ao José Falcão, a meia distância entre a minha e a tua casa e conversámos enquanto fumávamos dois ou três cigarros. Resolvemos ir ao Tropical encontrar os nossos amigos e queimar conversa antes de rumarmos à States. Nos raros fins-de-semana em que não partias para o conforto do lar paternal vivíamos numa comunhão própria das pessoas que se amam muito. E eu amei-te muito. Já não vou a Coimbra há alguns anos mas a última vez que fui parei defronte aquele prédio velho com portões de ferro oxidados e perdi-me em memórias enquanto observava as águas furtadas onde tantas noites ficamos a estudar até que o sol raiasse. Recordo-me das loucuras da tua companheira de casa que também era minha. Nunca me esquecerei daquele domingo soalheiro, o dia de Baleia Branca em que o namorado, eu e tu a tivemos que arrastar do cimo do telhado como veio ao mundo em homenagem à Baleia Branca... a diferença é que não estávamos em Oxford... As memórias vão e vêm como ondas espumadas. 
Estive hoje a rever o American Beauty e todos os sentimentos que vivenciei há dez anos atrás percorreram-me a mente... hoje, na solidão do meu mar, depois de rumos em direcções opostas, mas fez-me recordar de ti e escrever enquanto ouço Heroes do David Bowie uma das tuas músicas preferidas.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sound of Silence

Dou um mergulho na escuridão que me agarra com mil braços. Sinto-me envolvido pelas mãos que me asfixiam. Tento-me libertar de todos os pensamentos negativos que flutuam à minha volta. Acendo a luz de pedras de sal dos Himalaias numa vã tentativa de purificar a minha alma. As velas de essências de Jasmim queimam o ar que me circunda. Não me consigo libertar desta carga que me verga a coluna. Ouço o Sound of Silence de Simon & Garfunkel enquanto me deito no chão da sala. Penso em todos os erros que cometi quando interajo com as pessoas que realmente amo. O amor é assim um arma que se utiliza contra os que não têm culpa. Não pedi para amar ninguém nem ser amado. Na realidade queria ser uma árvore imóvel no topo de uma falésia virada para o mar. Queria estar estático e imóvel sentido o vento frio do norte nas noites de Inverno solitárias. Queria estar de fronte para o mar para todo o sempre, perdendo de vista o horizonte de almas que partem sem que tivéssemos tempo para nos despedir. Odeio o amor assim como amo o ódio. São sentimentos tão próximos que dificilmente se conseguem dissociar. Questiono-me se saberei realmente amar. Questiono-me se alguém hoje em dia saberá realmente amar. Dizem-se e fazem-se coisas que não se deveriam dizer nem fazer aos que se amam. E isso inclui filhos, pais, irmãos, namorados, esposas, amigos, colegas... Perde-se o controlo sobre aquilo que pode realmente magoar os outros como se os sentimentos dos outros fossem inatingíveis pelos torpedos das palavras. Mesmo depois de muita psicanálise continuam-se a cometer os mesmo erros e a magoar aqueles que não se podem defender. A isto chama-se cobardia. O ser humano é talvez o animal mais cobarde que conheço. Em última instância o que é realmente importante é o nosso umbigo. O egoísmo é cada vez mais imperial. Vendem-se a mãe e os filhos com a mesma facilidade com que se defeca. A quantidade de episódios e histórias que tenho ouvido de amigos e conhecidos que me vêem como confidente deixam-me abalado perante a falta de respeito que todos temos por todos. As únicas pessoas que conseguem realmente manter o controlo sobre os outros são os surdos, cegos e mudos... Tudo o resto é capaz das maiores atrocidades que começam no silêncio dos lares e se estendem ocasionalmente por essas estradas fora. No que me diz respeito, tento fazer tábua rasa dos erros que cometi e olhar de novo para o horizonte das almas que deixei partir sem um Adeus. Algumas arrependo-me outras nem por isso. Mas numa coisa quero acreditar... Tentarei que nunca volte a acontecer. 

quinta-feira, 19 de março de 2009

The End

Há 7 anos atrás em Barcelona comprei em El Born uma camisola de lã azul turquesa com gola alta de uma marca catalã chamada Divinas Palabras. Pertencia à colecção Cinema e tinha na sua base a inscrição em letras Bold Negras "The End". Recordo-me do prazer que tive em comprar com a ajuda dela esta camisola, que na realidade foi um prenúncio do fim. Nunca eu imaginaria que passados 7 anos teríamos dois filhos e viveríamos em casas separadas e tão distantes um do outro como americanos e russos no tempo da Guerra Fria. Une-nos um elo que nos ligará de alguma forma até à nossa morte e esses não têm culpa de nada. Isto para recordar que tudo é finito na nossa vida. E ficam as memórias, boas e más, que para o bem e para o mal moldam a nossa personalidade adulta e futura. 
De ti também guardo boas recordações. Talvez nos tenhamos conhecido num tempo e num local errados. Não obstante, recordo o fascínio que o teu corpo esguio e sinuoso exerceu na minha retina. Aquilo que me chamou a atenção imediata foram os teus lábios grossos que desejei beijar assim que os nossos olhos se cruzaram. A seguir ao efeito visual vem o intelectual... e também esse de início me preencheu. Achei-te piada. Quando por imperativos profissionais nos separámos nunca pensei que me voltasses a procurar na minha base de origem. Foi uma agradável surpresa. Sentia-me muito bem na tua presença. Gostava dos teus mimos. Adorei deixar-te entrar devagarinho no meu Mundo, embora confesse que sempre senti que o teu era ligeiramente mais intransponível. Fomos-nos conhecendo melhor e com isso algumas farpas... Faz parte... Apesar de tudo adorei viajar contigo, mostrar-te como se viaja bem por esse mundo fora sem o comodismo comercial das excursões vomitivas. Há pormenores em ti que guardarei para sempre no meu íntimo. Ficam os registos fotográficos a preto e branco. As memórias não se apagam, como já disse para o bem e para o mal... I will not expose here the non-turning way spot... Mas por vezes eles existem. Há coisas que se fazem e dizem, atitudes mais ou menos cruéis que até podemos acreditar que conseguimos passar por cima... Mas no fundo tal não é possível. E dessa forma the only way is THE END. Ficam as memórias gravadas até que a memória seja corroída pelas larvas e vermes quando deste mundo me fôr. E todas elas foram sobejamente importantes para mim. Sinto saudade e tristeza mas sei que após certas fronteiras não há regresso, embora por vezes os caminhos sejam dolorosos, são os mais adequados. 

domingo, 15 de março de 2009

Watchmen

Apesar de fã de super-heróis |há tipos que se recusam em crescer| quando vi o trailer do filme "Watchmen" não me atraiu minimamente, sendo um trailer incompetente... Na maioria das vezes os trailers são falsos positivos, isto é, parecem demonstrar um filme de excepcional qualidade mas a frustração à posteriori é grande.  Mas é essa a função dos trailers, uma forma de publicidade enganosa mas legal. O irónico é quando temos trailers nas nossas vidas reais do lado de cá do écran. Quando certas situações e vivências sejam profissionais, sociais, emocionais ou de relacionamento nos parecem apelativas revelando-se à posteriori uma enorme frustração. Mas na realidade a vida real e a dos grandes écrans não diferem assim tanto. Uma realidade influencia a outra. Daí o facto de alguns de nós sermos cinéfilos, de nos projectarmos para dentro das películas, de sentirmos-nos as emoções que são simuladas do outro lado. É tudo uma questão de simulação. O interessante é quando perdemos as fronteiras entre o real e a ficção. Chama-se a isso delírio... psicose... whatever... A quantidade de vezes em que somos psicóticos é mais elevada do que parece.
 |Enquanto escrevo ouço a banda sonoro do Slumdog Milionaire. Brilhante... Aliás como o filme foi. Sempre vibrei com a cultura hindu. Apesar de tão distante da nossa realidade. Em tom de auto-crítica sempre gostei de excentricidades. A mim própria já me chamaram várias vezes excêntrico. O que se calhar até é verdade.|
Mais uma vez de saída de banco (SU) resolvi enfiar-me numa sala de cinema. Por falta de companhia lá fui em tom solitário para as salas do Alegro. Esta "##$""#$$#"" de construirem um centro comercial do meu flat é realmente um drama. O único filme, que me tinha recusado inicialmente a ver, que tinha um horário compatível era o Watchmen. Foi uma agradável surpresa. Adorei o argumento e o ambiente darkness do filme. Este foi mais um exemplo de um trailer falso-negativo, ou seja o filme é realmente bom. |Estou cansado de escrever, vou acender uma vela e relaxar nos ensinamentos Zen ainda não leccionados por quem de direito|. 

sexta-feira, 13 de março de 2009

HeartBreaker

Alguém um dia me chamou heartbreaker. Inexplicavelmente apareceu um autocolante na porta do meu quarto de um coração com a palavra "heartbreaker" no seu interior. Na realidade, ao longa da minha vida tenho destroçado alguns corações, mas não raramente o meu tem sido destroçado. Aliás, fui a primeira vítima das vicissitudes da paixão precocemente arremessada. Como já aqui disse, tive duas ou três paixões intensas na minha vida. Duas delas esfumaram-se no horizonte. Uma nunca foi revelada. Talvez a mais intensa, por não ter passado da adolescência. Tudo o resto tem sido uma busca mal sucedida de um amor que sei que existirá algures por aí. Espero não morrer antes de o atingir. Não obstante, cheguei a um estado de desenvolvimento em que para a entrega total preciso de ter garantias que não vou ser novamente destroçado. Isso às vezes pode ser interpretado como uma barreira espiritual se quiserem. No entanto, é preciso que alguém tenha vontade de a trespassar e não forçar o tempo. É assim que estas coisas do amor funcionam. Apesar de tudo prefiro ser heartbreaker do que heartsuffer porque já passei o que tinha a passar... Se calhar gelei a alma, mas na realidade  já não fico perturbado com uma tampa. Pura e simplesmente não tento mais do que duas ou três vezes. E também não me deixa nenhuma dor na alma dar uma tampa em alguém. Pode ser que tenha um ego tamanho do mundo (e ainda bem), mas na realidade não sou eu que fico a perder. Nunca sou eu que fico a perder. Mas já fiquei. Já perdi pessoas das quais me arrependo fortemente por ter sido tão cego e imaturo noutros tempos, noutras vivências, noutras cidades... Não obstante, o que me entristece nas pessoas é a falta de sinceridade e a incapacidade que se tem de dizer nos olhos aquilo que realmente amadurece na alma... E isso eu não perdoo. O autocolante continua na porta do meu quarto por baixo de uma sinaléptica que enaltece as relações superficiais da nossa sociedade actual: a queca. Tudo começa ao contrário hoje em dia... e frequentemente começa por uma queca que acaba num café, num cinema, num jantar romântico, numa troca de olhares, num beijo na face, num aperto de mão, numa apresentação e que acaba mesmo antes de começar.

sábado, 7 de março de 2009

Quanto é infinito vezes 0?


Não há nada mais bizarro do que as relações entre as pessoas. E no entanto, todos nós somos relações entre pessoas, o que torna este nosso mundo cada vez mais repleto de bizarrias. Todos sabemos como elas começam sendo uma verdadeira incógnita como acabam. Tudo é efémero. Temos sempre tendência a repetir os filmes já passados e corroídos pelo tempo. Mas a tendência é mesmo essa, a repetir registos. As defesas vão-se endurecendo proporcionalmente à sucessão de relações. Ficamos cada vez menos permeáveis a desculpas. Há depois aqueles crimes capitais indesculpáveis que se nas primeiras verdes relações eram relevados, a meio caminho de uma vida são motivo para arremessar para o lixo uma relação sem sequer se olhar para trás. Há vivências que já não interessam a ninguém - mentiras e omissões são coisas que numa relação de casamento ainda se podem desculpar (uma vez!) mas num namoro embrionário é mais que motivo para um aborto precoce. E assim as relações se vão se sucedendo sem dó nem piedade. Como um serial killer, só custa a primeira vez depois matam-se as relações de um só golpe à menor marca de imperfeição. A intolerância vai tomando conta de nós. Existem dois caminhos possíveis: ou se encontr realmente a relação da nossa vida, a maior das vezes imaginária... ou a solidão é o destino que nos marca até que a morte nos leve de encontro a vermes mais terrenos. É triste no que nos transformarmos... |aceitam-se convites para beber café!|

segunda-feira, 2 de março de 2009

Memorias


No fim-de-semana fui a casa da tia Nanda esvaziar-lhe a alma. Nada mais deprimente do que dividir entre os vivos os pertences daqueles que já partiram. Sem testamento oficial, tão somente um folha branca com uns dizeres que até na hora da sua morte me fizeram esboçar um sorriso. O senso de humor da minha tia era interessante. Aliás, é uma característica que acho transversal à minha família. Temos todos a mania que somos engraçadinhos. Mas de facto, alguns de nós até somos e senso de humor não nos falta. Tentei resistir a entrar naquela casa... Mas não foi mais possível. Foi o desejo da minha tia que não houvessem brigas, algo que acontece com grande frequência entre os vivos quando os mortos já estão a curtir o prato à distância por uma simples divisão de tarecos. Trouxe duas ou três coisas: Um radio antigo com cerca de 60 anos que me despertava frequentemente ao som da RR e do António Sala nas minhas temporadas em Benfica na casa da minha Tia e Madrinha... o que eu ouvi ralhar quando mexia na "#"$$%#$$#$ dos botões e a desviava do António Sala e o "programa Despertar". Trouxe uma máscara de Lourenço Marques que o Tio Fernando tinha trazido também para aí há 50 anos - sempre tive medo daquela coisa e agora tenho-a pregada na parede da minha casa. Trouxe uma louça das caldas Rafael Bordalo Pinheiro "um bracinho do menino". Trouxe a colecção de carros antigos do Filipe, namorado da minha tia, 30 anos mais novo, que fez a proeza de partir primeiro com um adenocarcinoma... É fodido não é? A caricatura que aqui ponho é minha, foi no meu 5º ano de Medicina e descobria-a entre as coisas da Tia Nanda. Ficam as memórias.