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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

apneia

Não consigo respirar. Acordo a meio da noite, molhado, a tremer de frio, depois de um mergulho em águas profundas e gélidas. Acordo sem conseguir respirar. Olho para o tecto, onde a hora projectada me diz que devia continuar a dormir. Não consigo. Levanto-me e acendo um cigarro. Apetece-me ouvir música. Ligo o sistema e ouço Franz Ferdinand. Não é muito adequado para as 4 da manhã. Já por vezes acordei a meia da noite com estes pesadelos, com esta sensação de ansiedade que me consome. De todas as vezes que isto aconteceu constatei mais tarde que eram sensações premonitórias. Existem sempre razões para sairmos da nossa outra dimensão. Umas somos nós os responsáveis, mas nem sempre. De todas as vezes que o meu amor foi adulterado acordei a meio da noite. De manhã sinto-me cansado. Não consigo dormir de uma forma reconfortante. Sinto-me em apneia constante e no entanto consigo respirar. Olho-me ao espelho, tenho os lábios cinzentos, os olhos vermelhos e o aspecto de quem não dormiu. Nem um duche quente me reconfortou. Os pássaros na cozinha abanam as asas ao ritmo do meu desespero. Assustei-me. A última vez que eles fizeram isso passados uns minutos o prédio abanou. Malditos tremores de terra. Tu de carro, de regresso à tua casa, nem deste por nada. Mas o meu mundo tremeu. Estou em apneia e o meu pensamento vagueia à tua volta. Cada dia que passa me vou esquecendo da tua face, do teu cabelo, do teu cheiro, do teu tom de voz, das tuas cores, das tuas botas perdidas na carpete preta quando nos envolvíamos ainda antes do elevador chegar ao seu destino. As peças de roupa iam sendo projectadas. Quando chegávamos à cama desfeita, era-mos um só. A meio da noite acordava molhado, mas desta vez não tremia de frio. A apneia era em uníssono, partilhada à medida que sentia a tua respiração ofegante no pescoço. Ouvíamos Sigur Ros. Mas à medida que os dias passam me vou esquecendo de ti. Não esqueço os momentos e as emoções, só a pessoa. Acordo em apneia. Hoje comentei que achava que tinha apneia de sono. Sinto-me cansado. Não consigo respirar. Na realidade nem quero. De facto, as pessoa quando desaparecem parecem desenhadas a lápis, cinzento, fraquinho, cujo o desenho se vai esbatendo no tempo. Adormeci novamente a pensar num filme que vimos uma vez, 9 Songs. À medida que os episódios se sucediam ao ritmo de cada concerto, a minha mente anteviu o nosso futuro. Que ao contrário de tudo o que vendemos ao outro, o nosso futuro a dois tinha os dias contados. Apesar dos muitos pontos de interesecção os nossos mundos diferentes e opostos colocaram-nos a caminhar nas antípodas um do outro. Sem esforço para invertermos a trajectória ela invariavelmente afastou-nos para sempre. Somos a viva prova que afinal a terra não é redonda e não nos voltamos a encontrar. (Ouço Fallen Empires, Snow Patrol) Acordo e deito-me em apneia. Preciso de oxigénio.



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