quarta-feira, 11 de abril de 2012
thank you for your love
As palavras voaram com estes ventos do norte que se fazem sentir. Acordo a meio da noite e tenho frio. Enrolo-me, mumificado, perco-me nos meus pensamentos. Fazem-se apostas perdidas à partida. Tomam-se opções contra todas as correntes porque o amor é maior. Quer-se acreditar na pureza dos sentimentos, mas a essência humana está lá. Ontem, vi o Tejo à noite, com o mesmo luar, a mesma ponte iluminada de há 3 anos atrás, quando em silêncio sofria e tu longe te olhavas ao espelho, atrás de uma máscara que nunca desapareceu. Os sentimentos de perda foram os mesmos, só que na altura eram provisórios. Em Portugal o provisório é definitivo. Foi esse o meu erro. Inocentemente, pasme-se, entendi a pureza dos meus sentimentos como partilhada. Foi redondo o meu engano. Nunca tinha experimentado sentimentos maiores do que por ti senti. E se um dia compreenderes tudo aquilo porque passei poderás ter a compreensão derradeira do mal que conseguiste infligir. Recordo cada minuto longe de ti como um banho de ácido que corroía a pele e ardia no estômago cada vez que respirava. Circulava de nascer do Sol a pôr-do-Sol de uma forma errante, desejando que os dias passassem mais depressa, desejando ardentemente que nos voltássemos a reencontrar. Não conseguia manter uma conversa com os meus amigos até ao fim. Desejava a todo o momento vir para casa para que te pudesse ver e falar contigo, ainda que desfocada e com a tua voz, que me era tão querida, aos soluços, com cortes. Nunca pensei que fosse possível sofrer tanto sem que estivesse doente. Talvez o amor e paixão que senti fosse mesmo uma doença. Foram meses de intensa dor e solidão. Cada dia era passado com a esperança de voltar a ver. Mantinha-me quieto no meu canto, hibernando, pensando em ti. Tu, longe, olhavas-te ao espelho atrás de uma máscara... Como se todas as atitudes que tomamos não tivessem consequências só porque estamos escondidos noutro local, noutro ambiente, com outras pessoas, efémeras que nada te diziam. Entristece-me que por algo circunstancial tivesses posto em causa tudo aquilo em que sempre pensei que sentias. Recordo os nossos reencontros. Os dois. Sobretudo o segundo, onde foram os 5 cinco dias mais felizes que contigo passei, numa cidade que nunca me atraiu verdadeiramente. Passei a vê-la com outros olhos. Desejei lá voltar contigo, abraçar-te, sentir-te como sempre te senti. Tinhas uma máscara... desta vez invisível. Só mais tarde me apercebi o quanto pagliaccio fui nesses dias. Não posso ser feliz. Quando no regresso a Portugal as farpas agudizaram-se e dilaceraram-me por dentro. Foi só o inicio do fim. Só agora me apercebo. A pouco e pouco, cada vez que me reconquistavas, espetavas uma agulhinha no meu corpo de Vodu. Fui perdoando mas as marcas ficam. E como já referi, pior do que uma mentira é não se conseguir voltar a acreditar numa verdade. Nada pode ser descontextualizado na nossa vivência. E só assim se poderá compreender todos os sentimentos envolvidos entre duas pessoas que se amam (ou supostamente) e sofrem porque morreram para a outra. Podemos encontrar mil e uma desculpas para os nossos comportamentos. Atirar ao lado, projectar-mos emoções, desculparmos-nos... mas na realidade o que está em causa é um amor maior que se calhar só existiu na minha imaginação. E isso dilacera-me.
terça-feira, 10 de abril de 2012
mal- (latim male, mal)
mal-
(latim male, mal)
elem. de comp.
Entra na composição de várias palavras e significa mal, de maneira imperfeita (ex.: malsucedido).
Nota: É seguido de hífen quando o segundo elemento começa por vogal ou h (ex.: mal-educado, mal-humorado).
mal
(latim male)
s. m.
1. Tudo o que é oposto ao bem.
2. Infelicidade, desgraça.
3. Calamidade.
4. Dano, prejuízo.
5. Inconveniente.
6. Imperfeição.
7. Ofensa.
8. O que desabona.
9. Aflição.
10. Doença.
11. Lesão.
adv.
12. Não bem.
13. Imperfeitamente.
14. Pouco; dificilmente; escassamente; apenas.
15. Severamente.
16. Com rudeza.
conj.
17. Logo que; assim que.
a mal: à força.
do mal, o menos: expressão que indica que, apesar de se estar numa situação problemática, o facto de haver algo mais positivo ou favorável torna a situação mais suportável ou animadora.
fazer mal a: danificar; prejudicar.
mal francês: veneno.
[Brasil, Informal] trocar de mal: zangar-se.
Confrontar: mau.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
domingo, 8 de abril de 2012
lonely easter lonely easter lonely easter lonely
Rodo a chave e entro. As paredes velhas, vazias de sentimentos esperam-me. Olho em redor, não reconheço o local onde me encontro. Abeiro-me de um espelho cinzento, salpicado de manchas violáceas, rachado nos cantos, adulterado, e não me reconheço. Não reconheço no que se transformou esta vida vazia de amor. Sinto frio à minha volta. Adormeço mas não durmo. Entro nesta casa que é minha sem que me sinta confortável. Para onde quer que olhe encontro-te a sorrir. Em slideshow encontras-te dispersa por este local. Vejo-te. Vejo-nos. Quanto tempo vai durar até ganhar coragem e apagar-te de vez das minhas recordações. É precisamente o contrário do que dizias sentir. Tu estás presente para onde quer que me volte. A sorrir ao meu lado navegando no beagel channel. Sentada no chão acariciada pelas cobras que lentamente se enrolavam no teus braços, no teu pescoço, com o café Argana por detrás, ainda inteiro, ainda vivo. No mar cristalino do meu, nosso secret spot. E no entanto nada te fazia sentido. Queixavas-te que a moldura da Patagónia se encontrava por preencher. Como se isso tivesse importância. Como se isso fosse sagrado quando milhares de outras recordações, dinâmicas, nos entravam pelos olhos dentro. Como se as pequenas coisas tivessem realmente importância. E têm. A vida é feita de pormenores. Quando vividos a dois transformam-se em toda uma vivência. Coloco a minha playlist "listen, feel and cry" e deixo-me me envolver mais uma vez pelas nossas cantigas. Pareço um disco riscado, ao pensar e escrever o mesmo. Mas as ideias estão lá. Penso em ligar-te mas não consigo. Por respeito. Por censura. Nada nem ninguém nos pode obrigar a gostarmos de alguém. As chamas morrem quando o combustível se extingue. É tão fácil olharmos em nosso redor e vermos tudo cizento. Atirarmos ao lado, transferirmos emoções, porque não nos encontramos. Mesmo inconscientemente dizemos e actuamos com dolo não assumido. É uma cobardia jogarmos à roleta russa com todas as balas no carregador. Não deixamos hipóteses de sobrevivência. Actuamos com dolo quando sabemos que aquilo que fazemos irá seguramente despertar dor no outro. Nessa atitude sádica despejamos cano abaixo tudo aquilo que não queremos assumir. Passamos a bola para o outro lado e o outro que decida a rotura que não admitimos dentro de nós próprios. É um jogo ganho à partida. Vamos preenchendo a nossa vida com cartões amarelos à espera do apito final. E ele surge quando menos se espera. Rodo a chave e entro. Sento-me na bola negra e sinto a cabeça a andar à roda. Sinto a cabeça pesada. Trabalhei a noite toda e não consigo dormir. Fecho os olhos e não adormeço. No caminho para casa observo os carros cheios de famílias felizes e desespero. Desespero porque cada vez mais se vislumbra no meu espírito que não existem segundas oportunidades. Porque não nos é permitido. Pagamos até à morte por um erro da nossa vida. Quando conseguimos perdoar rapidamente se tomam as diligências necessárias para que se perceba qual é o nosso verdadeiro papel. O quão relativos, voláteis e descartáveis somos. Pior do que uma mentira é nunca mais se conseguir voltar a acreditar numa verdade. Quando a ferida está prestes a sarar os dedos finos desbridam, aprofundam, perfuram até ao limite das emoções. Sem pudor, sem analgesia, sem compaixão, sem empatia, sem amor, sem amor-próprio. Entro a custo nesta casa que é minha e não é. Não reconheço nada nem ninguém. Não me preencho. Não te preencho. Não te consigo encontrar porque queimaste o teu mapa. De um lado grafittis do outro paredes cinzentas nos separam. Tudo é tão relativo. Amamos-nos de cada lado da barricado. Paramos defronte a Checkpoint Charlie e cada um escolheu a sua vida. A vida é feita de escolhas. Nalguns casos implicam somente dor e sofrimento. Olho a volta e vejo-te, sinto-te, recordo-te, emociono-me com o que já tivemos. E perdemos. Não há culpas. Só sentimentos contraditórios. Nunca a bateria do meu Nokia durou tanto tempo. Fecho os olhos e tento dormir, sonhar com a vida e o amor que já tivemos e viver assim uma vida alternativa em sonhos, com o desejo que a realidade não passe de um sonho mau, de um pesadelo prestes a terminar.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
saudosismos
De facto sou um saudosista. E isso é mau? As saudades significam tão somente que as memórias passadas nos são queridas. Os momentos inesquecíveis vividos ficam marcados e trazem saudades. O saudosismo por si só significa tão somente que a História não se apaga. Há que saber gerir o futuro em função das virtudes e dos erros do passado. Eu sou o conjunto de pessoas que conheci até hoje. Sou saudosista porque as minhas memórias são um cinema vivo de tudo o que contigo vivi. E se não compreendes isso é triste porque só demonstra insensibilidade. A maioria dos filmes terminam com um brilhante e majestoso "The End". Filmes que emocionaram, comoveram, acabaram e ponto final. Não obstante, alguns acabam em "To be continued"... E aí entra a esperança das relações mal acabadas ou das quais se precisa um tempo. Apesar de eu achar que "quando se dá um tempo" ou "quando se pede um tempo" se está somente a adiar o inevitável. Ou então eu estou profundamente enganado e as pessoas precisam, as vezes, de um tempo para se encontrarem, para se reencontrarem. Sou de facto um saudosista, um emocional, vivo os momentos intensamente, os bons e os maus. Mas recordo cada momento como se fosse hoje. Quando te pedi para me acompanhares para comprar tabaco, as fugas à máquina de café, os raptos, os primeiros passeios, a emoção das primeiras despedidas, dos primeiros semi-beijos, dos almoços cobertos de Roquefort, dos passeios por Sintra, do dormires em casa das tuas amigas... Recordo com intensidade a amargura e a dor da distância imposta, de te ver e ouvir através de um computador durante semanas, das saudades e do meu pensamento sempre em ti enquanto de carro deambulava por essa Lisboa fora. Recordo a emoção do reencontro em Amsterdão, em Roma... O cine azzuro onde revi Fellini na tua companhia. Recordo as nossas sessões de cinema em casa embrulhados no colo um do outro. Recordo as conversas intermináveis. As saudades que eu tenho de falar contigo ao telefone. A estratégia de termos uma assinatura de minutos ilimitada entre nós. Que irei deixar caducar. Deixou de fazer sentido. Só usava esse telefone para ti. De facto as saudades ficam, das viagens... De Marrocos, da Argentina, de Inglaterra, da Alemanha, da Polónia, da Hungria, de Sevilla... De todos os locais maravilhosos onde não chegamos a viajar. "To be continued."
terça-feira, 3 de abril de 2012
segunda-feira, 2 de abril de 2012
1/2 orange
Nada a acrescentar. Fico só neste quarto escuro e penso. Flutuo mas as paredes impedem-me. Não me liberto. Fico preso a este amor errante. Respiro fundo e oculto-me nos negros lençóis que me asfixiam. Perco-me e não me encontro nestas quatro paredes. Ligo o alarme que me fixa deste lado do mundo. O meu mundo. Que está mais triste a partir de hoje. Mais um bocadinho morreu. Incompreendido. Inesperado. Esse túmulo que guarda as tuas, nossas memórias. Esse túnel, esse tubo onde só duas ou três memórias perduram. Tudo é negro quando queremos fechar os olhos. Tudo é ruído quando não queremos ouvir. Tudo é profundamente cinzento quando não nos encontramos. Quanto mais encontrar os outros. Desperdiçamos mais uma vida. E no entanto nascemos inteiros e inteiros ficamos. Custe o que custar. Chore-se o que se chorar. Nada e ninguém é eterno. Mas as memórias são. Enquanto eu viver viverás dentro de mim. E isso nunca me poderás roubar. Nada a acrescentar. Até ao meu regresso. Noutro mundo, noutro local, noutro tempo. Inspiro profundamente pela última vez o cheiro que a tua pele emana. Guardo-a em mim para todo o sempre.
domingo, 1 de abril de 2012
sábado, 31 de março de 2012
weird dreams
O tipo do Jeep riscou-me novamente o carro na garagem. Nas minhas barbas. Fui atrás dele e disse-lhe que aquela falta de cuidado era inadmissível. Ia acompanhado pela mãe. Disse-me que não que não tinha riscado coisa nenhuma. Quando eu próprio o acabara de ver. Estava ao pé do carro. Disse-me que o sistema de videovigilância que tinha instalado na garagem o ia provar e começou-me a mostrar uma série de filmes que incidiam somente sobre o lugar de garagem dele. Respondi-lhe que nem sequer se via o meu carro daquele ângulo. Começou a ripostar que deveria ter comprado um carro novo e não um usado. Que se queria ter um porsche que o comprasse novo. Mas que disparate. Eu nem sequer tenho um porsche. E o carro que ele tinha riscado era azul. Olhámos os dois para o meu lugar de garagem e de repente estava lá um porsche 1967, branco, sem rodas, sobre quatro tijolos, sem portas e todo desmantelado. A parede suja de manchas de óleo. Perguntei-lhe o que tinha feito ao meu carro. Tendo-me respondido que isso não era nada com ele. Entretanto chegou a minha vizinha num híbrido metade carro, metade barco, também branco, tendo-me que me desviar quase sendo atropelado. Recordo-me de um carro igual na minha infância, este vermelho, que chegava à praia e entrava mar adentro para o deleite de todas as crianças que se encontravam na praia. Carro bizarro aquele. Quem é que compra uma coisa metade carro metade barco. Há ideias inatingíveis. De repente encontro-me a conduzir montanha acima e fico sem os travões, atrás um tipo gordo conduzia acompanhado pelo filho. Sinto o meu carro a descair e acabo por lhe acertar. Os travões do meu carro não funcionavam de todo.Inverti a marcha ao mesmo tempo que os outro senhores e vejo-as a irem rua abaixo, sairem da estrada e cairem com o carro ao lago gelado, onde boaiavam vários carros. Fiquei aflitissimo e fui atrás. A família gritava de horror e eu sem conseguir ajudá-los. Entretanto aparecem, molhados, que nem um pinto e eu pedis-lhe imensas desculpas! e perguntei-lhes pelo carro - Que se foda o carro responderam-me. Num ápice estou a fazer amor com a filha do casal. Nao lhe vejo a face. Mas eras tu. Há sonhos muito bizarros... Christ.
quinta-feira, 29 de março de 2012
anã branca
Tudo tem um fim. Por muito que queiramos ele surge às vezes inesperadamente outras vezes expectável. Os prenúncios do fim são intensos e ferem-nas a vista. Tento olhar para o Sol e as lágrimas escorrem-me pela face. As estrelas, no seu final de vida expandem-se e no final contraiem-se dando origem às anãs brancas. Pequenas mas brilhantes, concentrando toda a energia das imensas estrelas que alguma vez foram. Olho para o céu e vejo imagens do passado. Recordo o céu estrelado no Sahara e o silêncio só interrompido pela nossa respiração. Cada estrela cadente é um desejo que não se realizou. E que ansiei. Os projectos ficam pelo caminho. Ficam sempre pelo caminho. Há passagens que não podem ser transpostas. Caminhos que não podem ser trilhados. Tudo tem realmente um fim. Mesmo que seja o início de um novo ciclo. E que se repita quânticamente até à perfeição inatingível. Descobri a Birdy por acaso mas deliciado com doçura da sua voz e que me têm acompanhado nas minhas viagens. Há bandas sonoras para tudo na minha vida. Para o início - Temper Trap. Para o meio - Florence & The Machine. Termino com Birdy porque sim. Porque me faz lembrar Bird Girhl de Antony & The Johnsons com que te brindei nas nossas conversas intermináveis até o Sol raiar e arrastar-me de manhã para o trabalho. Mas preenchido por dentro. Amado. Vivo. Era um Sol radiante no auge da sua vida. Da esperança. Dos projectos que queria alimentar com todos os raios quentes que pudesse emanar. Fui crescendo até ser uma Gigante Vermelha e de repente o Universo fechou-se sobre mim. Uma epifania da realidade espelhada. E encolhi. Minimizei-me. Reduzi-me à minha insignificância de anã branca que sou. Mais brilhante que todas as estrelas juntas à espera de um novo ciclo. Tudo tem um fim. Ou é só o início.
quarta-feira, 28 de março de 2012
pedras de sal
A lâmpada fundiu-se e a escuridão invadiu o pequeno quarto. As pedras de sal libertavam uma luz doce e alaranjada que se esfumou lentamente. Levantei-me e procurei imediatamente uma que a substituisse. Um processo difícil, encontrar uma lâmpada com o casquilho e a voltagem adequados para manter vivas as imagens que guardo a minha volta. Ás escuras e às apalpadelas lá encontrei. Esgueirei-me até à base das pedras de sal, e uma a uma amontei-as no chão com a gratidão merecida. Encontrei um cabelo teu no meio das pequenas pedras e recordei-te... e recordo-te noutros tempos em te passeavas por este pequeno quarto. Tenho marcado o teu semblante, perfil iluminado em recortes suaves na parede branca por baixo dos budas. Começou a tocar Joga da Bjork. Todos os meus textos têm banda sonora. Ajudam-me a escrever e explorar sentimentos, porque as músicas estão frequentemente associadas aos momentos da minha vida. Recordo Bjork com melancolia, por essa estrada fora, contigo a dormir a meu lado e a chuva abrindo-se a nossa frente. Vejo o teu semblante recortado pelos pingos de chuva que te escorrem pela face projectando-se no chão brilhante. Como o teu olhar. Apanho o teu cabelo guardado entre as pedras e recordo-te no tecto, queixando-te do poliéster que te marcava as rótulas. Sorri perante essa imagem. Abro a janela e fumo um cigarro enquanto me agarras pela cintura. O céu estrelado e iluminado pelas pedras de sal chora por solidariedade. Eu sou o conjunto de pessoas que já conheci. Embora não me consiga encontrar. Perdido vejo marcas por esta casa que já foi nossa, embora nunca a quisesses sentir como tal. Nunca te encontraste. Magoas-me quando queres partir afirmando que nada te prende aqui. E talvez por isso a nossa linha condutora tenha sido como foi. Provei uma pedra de sal e não a acho salgada. Talvez nos Himalaias donde elas viajaram até mim. A sua base encontra-se corroída pela sal oculto. Vejo nisso uma previdência para a minha alma.
sábado, 24 de março de 2012
Deep Inside.
O dia está cinzento e chuvoso. Gosto. Vejo o mar ao fundo pela minha janela enquanto escrevo estas palavras. Adoro a vista deste sitio só meu. Ouço Snow Patrol e revejo-me. Há poucas pessoas a marcarem-me, mas essas quando existem têm-me para a vida. Detesto injustiças, falsidades, falsos moralismos, favoritismos, petulâncias, arrogâncias, sentimentos de superioridade, sentimentos de inferioridade, artimanhas e o diabo a quatro. Cada vez mais esses sentimentos negativos rodeiam-me trazendo-me a náusea. Olho para as pessoas e vejo-as transparentes sem sequer conseguirem disfarçar tudo aquilo que as faz cheirar mal. E cheiram muito mal. Este ambiente derrotista que se instalou no país parece trazer ao de cima tudo aquilo que as pessoas têm de mau. Cada vez menos se faz algo sem objectivos calculistas pré-definidos, somente para proveitos próprios. O médico em cima do burro a caminhar por esses montes fora não existe. Morreu... A sua alma corroída se olhasse de frente para aquilo que parte da classe médica se transformou. É triste. No outro dia, uma aluna minha disse-me que iria para fora realizar o seu internato complementar. A principal razão é que a classe médica a desiludiu em Portugal. De facto, é triste, mas em parte é verdade. As inúmeras vezes que ouvimos colegas a denegrirem a imagem dos seus pares só porque sim, é de facto impressionante... Raras vezes a crítica se prende a vida profissional. O mais frequente é a dissecação da vida pessoal dos outros, quando na maioria das vezes o rol de atrocidades que se diz são de tal forma falsos que só com metoclopramida se consegue ouvir essas conversas. Mas de facto, e sem querer generalizar, a classe médica está pejada de pessoas, que embora tecnicamente competentes - nem todas - aliás a impunidade que existe no nosso país é outra coisa linda de se ver - , são mal formadas de raiz. Não têm nem cultura nem educação mas julgam-se. E acreditem que se julgam mesmo. O desprestigio que desde ha uns anos para ca tem vindo a poluir a minha classe profissional, em parte é culpa nossa. Porque, eu também - incógnito - já fui tratado por colegas como se de lixo se tratasse. E de facto, isso acontece mais vezes do que seria admissível. Não conseguimos ter empatia por todas as pessoas, antes de sermos médicos, somos pessoas, mas nunca na minha vida profissional, por mais desagradável que eu achasse alguém, a tratei de forma menos polida. Temos muito a aprender.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012
apocalipse now.
de facto tens razão, só escrevo quando estou mal. só escrevo a solidão. de resto não sou muito diferente da maioria dos demais. é um escape uma fuga um espanta-espíritos. já devia estar a dormir mas espero ansiosamente pelo teu telefonema de boas noites que não se concretizará. tenho o dom da previsibilidade. da claravidência dos sentimentos. mantenho as minhas posições. ouço as tuas músicas. vislumbro os 3 cavaleiros que se aproximam. tens razão escrevo a indiferença. a falta de amor próprio. escrevo a falta de tudo. deslizo em espiral em direcção ao Tejo. de facto everything got an end. mesmo que ele nunca chegue a surgir. andamos demasiado ocupados para nos enteirarmos do nosso próprio espírito da nossa essência. perdemos tudo aquilo que nunca chegamos a ter. ou tivemos mas não nos apercebemos. de facto o cinzento domina as nossas vidas. domina-nos e invade-nos. recordo aquele livro italiano que li no verão passado e revejo-me. a piada dos livros é essa mesma. cada um lê da forma que quer mas na realidade acabamos por nos ler a nós próprios. de facto tens razão e não tens. também escrevo quando estou feliz. embora raramente esteja feliz. e escreva nessas circunstâncias. dizias-me que um dia também eu ia escrever sobre ti. enganas-te redondamente. eu escrevo sobre mim. o meu egocentrismo não me permite outra coisa. embora estejas presente em cada uma das minhas palavras, vírgulas e inesperadamente pontos finais.
sábado, 1 de outubro de 2011
In repeat...
There are some songs that we can't stop listening... Because they exist in some hard moments in our lifes. And we associate them to everything happened. Anyway this one its an example of somethings can change. Or not. But we always are going to stay together.
sábado, 24 de setembro de 2011
terça-feira, 20 de setembro de 2011
terça-feira, 6 de setembro de 2011
Regresso
Sou uma criança num corpo de homem. Sou um ser perdido que teima em não se encontrar. Olho à minha volta e nada disto é meu. Não sei quem sou. O que sou. Sinto-me uma pequena criança num corpo de um homem. Há hiatos no meu crescimento. Há memórias que é como se não existissem. Largo a mão do meu pai e perco-me num areal infinito. Num momento tenho os meus bonecos, carrinhos e bolas coloridas... De repente sou um homem, um pai, responsável por pessoas, por filhos... E não sei como aqui vim parar, quem me trouxe, quem me fez crescer sem que eu desse por isso. De facto sou uma criança em corpo de homem. Olho-me ao espelho e não me vejo adulto. Insisto em não largar os meus rasgos de infantilidade. Gosto de bonecos, de brinquedos, de meias coloridas, de banda desenhada, de música, desenhos animados, gosto que me alimentem, que me penteiem, que me mimem como só a uma criança se mima. Sou uma criança em corpo de homem que teima em não sair deste invólucro onde me colocaram sem que eu pedisse. De repente sou pai quando ainda precisava que me guiassem pela mão. Fecho os olhos e recordo todos os momentos que perdi. Tenho saudades dos meus passeios com a minha mãe por essa Lisboa fora. Tenho saudades de alimentar os pombos na Praça da Figueira. Tenho saudades do Pai Natal e do trenó em frente à pastelaria Suiça. E de repente sou pai. Sou adulto. E não quero. Quero continuar na inocência da infância perdida. O único momento das nossas Vidas em que não há maldade. Em que não encontramos maldade. Onde tudo é puro e cristalino. Onde as pessoas não se magoam nem se atropelam para serem os machos alfa. Ouço uma música em repeat porque gosto da sonoridade, porque traduzem os sentimentos que me invandem. "I feel alone". E não quero.
domingo, 24 de outubro de 2010
ortodoxias
Vivemos num mundo ortodoxo. Uns mais do que outros. Em certos meios a diferença é fomentada. Noutros é abolida. Sobretudo em Portugal, mas provavelmente em todos os países latinos com forte influência católico-coisa. É difícil assumir para alguns que possam existir gostos diferentes e pensamentos mais coloridos. Na maioria das vezes tudo não passa de uma falácia e de falsa postura. Nos meios artísticos tudo é permitido e vive-se em liberdade... ou não. Noutros, as pessoas são olhadas com algum despeito por terem o cabelo cabelo mais comprido, a tatuagem visível, o piercing, as calças rotas, usarem t-shirt em vez da gravata... e tudo isso é mesquinho. Na maioria das vezes quem olha com um sentido crítico negativo inveja a liberdade de quem se consegue assumir. E isso traz liberdade. E a liberdade traz felicidade. Os exemplos atrás são infantis... mas retratam tão bem as mentes pequeninas que os não aceitam. Aquilo que realmente me incomoda é a pressão social castradora (felizmente cada vez menos) da orientação sexual dos seres humanos. E o facto dela existir só demonstra o quão atrasados ainda estamos. Uma das palestras mais interessantes a que assisti durante uma pós-graduação foi acerca da homossexualidade. E o facto de ainda termos que estudar algo só demonstra a incapacidade que ainda existe em aceitar a "diferença". Porque não uma palestra sobre heterossexualidade. Mas aquilo que está em causa, pelo qual todos devemos lutar, é uma sociedade que aceite naturalmente a orientação sexual de cada um. De forma a que as pessoas naturalmente, sem receios da discriminação ou do hipotético gozo a que possam ser sujeitas, assumam algo que lhe é intrínseco e sejam felizes. Uma sociedade que nega a felicidade dos seus elementos só pode estar doente. Tenho a minha sexualidade bem definida, mas sou completamente pela causa dos direitos dos gays, lésbicas e transgenders... e desejo que um dia essas associações deixem de fazer sentido, quando as pessoas forem realmente tratadas de igual modo... Infelizmente apesar da evolução positiva da sociedade tal ainda não se passa abertamente em todos os meios.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Madame Tussauds
Por momentos parei para pensar. Parei para pensar em todas as circunstâncias que me colocaram em frente a este espelho. Rachado, corroído pela humidade cizenta que teima em invadi-lo. Abri a porta amarelecida do armário ancestral e ocorreu-me engolir todo aquele frasco cuja a data há muito nos tinha abandonado. Demasiado lugar-comum. Demasiado série B. O suor frio escorria-me pela face enquanto pensava. Enquanto pensava em todas as circunstâncias que me colocaram em frente a este espelho. Não me reconheço. Não vos reconheço. Os dias passam e os minutos ficam. Aqueles minutos em que os pensamentos petrificam e são aprisionados para a eternidade. Á espera que alguém os liberte. As memórias são de evocação. Não há uma única que traduza a realidade. Tudo é uma falácia. Os medicamentos não funcionam e as palavras rodopiam pelo cano abaixo. Paro para pensar em tudo aquilo que me transportou até este momento. As fotografias sépia apodrecem na caixa de plástico manchada pelo Sol. Vejo-me há 40, 50 anos atrás e não me reconheço. Nunca fui aquele ser que ali se encontra pictorizado. Os sorrisos, as emoções, os esgares... Tudo é um produto artificial como se tivesse no Madame Tussauds inerte a ser abraçado por estranhos enquanto os flashes me cegavam ciclicamente. Quero partir como se os parcos anos que vivi bastassem para a plenitude. Nunca bastam. Ficam os nossos objectos, os nossos livros, discos, esculturas, pinturas, hi-fi, televisões, computadores... para rapidamente serem divididos por aqueles que nunca ou quase nunca tiveram presentes. Os medicamentos não funcionam e não te reconheço enquanto me olhas. A tua cara não me é estranha, mas a bata branca parece-me desadequada. Sempre pensei que trabalhasses em esculturas de ferro forjado e agora apareces-me de bata branca como se soubesses quem sou. Falas-me ao longe em surdina. Não entendo o que dizes. Parei para pensar e não me reconheço neste espelho cinzento. O perfume Channel e o pó-de-arroz do meu tempo deram lugar a minha imagem desfigurada desdentada, com a cabeça semi-rapada onde os tubinhos drenam os coágulos que me aprisionaram o raciocinio. Por momentos parei para pensar em tudo o que aqui me trouxe e não consigo. Escrevi umas parcas palavras a ti dirigidas. Mas nem eu sei o que escrevi. Parto como se nunca tivesse existido.
(para a Nanda com saudades)
(para a Nanda com saudades)
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