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quarta-feira, 28 de março de 2012

pedras de sal

A lâmpada fundiu-se e a escuridão invadiu o pequeno quarto. As pedras de sal libertavam uma luz doce e alaranjada que se esfumou lentamente. Levantei-me e procurei imediatamente uma que a substituisse. Um processo difícil, encontrar uma lâmpada com o casquilho e a voltagem adequados para manter vivas as imagens que guardo a minha volta. Ás escuras e às apalpadelas lá encontrei. Esgueirei-me até à base das pedras de sal, e uma a uma amontei-as no chão com a gratidão merecida. Encontrei um cabelo teu no meio das pequenas pedras e recordei-te... e recordo-te noutros tempos em te passeavas por este pequeno quarto. Tenho marcado o teu semblante, perfil iluminado em recortes suaves na parede branca por baixo dos budas. Começou a tocar Joga da Bjork. Todos os meus textos têm banda sonora. Ajudam-me a escrever e explorar sentimentos, porque as músicas estão frequentemente associadas aos momentos da minha vida. Recordo Bjork com melancolia, por essa estrada fora, contigo a dormir a meu lado e a chuva abrindo-se a nossa frente. Vejo o teu semblante recortado pelos pingos de chuva que te escorrem pela face projectando-se no chão brilhante. Como o teu olhar. Apanho o teu cabelo guardado entre as pedras e recordo-te no tecto, queixando-te do poliéster que te marcava as rótulas. Sorri perante essa imagem. Abro a janela e fumo um cigarro enquanto me agarras pela cintura. O céu estrelado e iluminado pelas pedras de sal chora por solidariedade. Eu sou o conjunto de pessoas que já conheci. Embora não me consiga encontrar. Perdido vejo marcas por esta casa que já foi nossa, embora nunca a quisesses sentir como tal. Nunca te encontraste. Magoas-me quando queres partir afirmando que nada te prende aqui. E talvez por isso a nossa linha condutora tenha sido como foi. Provei uma pedra de sal e não a acho salgada. Talvez nos Himalaias donde elas viajaram até mim. A sua base encontra-se corroída pela sal oculto. Vejo nisso uma previdência para a minha alma.

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