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quarta-feira, 25 de setembro de 2013

cheiro a terra molhada

Sinto o corpo pegajoso. Trabalhei mais de 24 horas e não tomei duche a seguir. Naturalmente, não por vontade própria. Prefiro sem sombras de dúvida tomar o meu banho em casa. Como tal, não trouxe nem shampoo, nem gel, nem escova, nem creme de rosto, nem perfume e muito menos roupa lavada e passada a ferro. Mas hoje fui apanhado à traição - tens que ir vigiar exames. E lá fui, pegajoso, remelento, despenteado e a cheirar a cavalo. Evitei cumprimentar as pessoas que fui encontrando. Detesto gente mal-cheirosa. Assim que pus o pé fora do hospital senti os chuviscos refrescarem-me e o cheiro a terra molhada. Uhhhmmmm... Adoro o cheiro das primeiras chuvas de Outono. Fui caminhando cautelosamente na calçada escorregadia e ouvindo os gritos selváticos dos putos a serem praxados. Irrita-me profundamente a praxe académica. Não passa de um exercício de humilhação por parte de imbecis. Se quiserem chamar as coisas pelo nome e à séria então façam-no como em Coimbra onde os caloiros são rapados se apanhados na rua depois da meia-noite. Eu fui, apanhado por uma trupe chefiada por um atrasado mental que depois chegou a ser meu colega de ano. O que ele era gozado. Posteriormente, já como doutor participei em trupes e também eu rapei caloiros. Algo do qual me envergonho profundamente hoje em dia. Atitudes impensadas e irreflectidas de um adolescente acabado de chegar a Coimbra. A praxe é um exercício de imbecilidade e traduz a subserviência das hierarquias. Na altura nem sequer pensei nas coisas dessa forma. Entendia tudo como uma mera brincadeira. Mas de facto não o é. Frequentemente dou comigo a chatear os meus alunos parar se deixarem de merdas e não praxarem caloiros. Felizmente na faculdade onde dou aulas essa actividade não é sobejamente apreciada. 
Cheguei a casa quase à hora do almoço. Deitei-me pegajoso no sofá e no sofá adormeci a ouvir Mumford&Sons. Gosto desta altura, sobretudo porque é o início do ano lectivo, porque são os meses de transição em que começo a rebuscar os meus cachecóis, casacos e botas. Adoro conduzir à chuva. Aprecio as idas ao cinema, ao teatro, a concertos e exposições, mais que no Verão. E depois há o cheiro à terra molhada. O que eu gosto. 

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