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domingo, 24 de março de 2013

Sofa Sleeping

Adormeci no sofá com a camisa a condizer. Gosto de dormir no sofá. Desde sempre, desde miúdo. Costuma-me ocorrer por fases a aversão a dormir na cama. Passam-se dias em que invariavelmente não desfaço a cama. Acordo todo dorido. Dormir no sofá corresponde praticamente a um estado de imobilidade. Não temos muito por onde nos virar correndo o risco de nos estatelarmos no chão. É praticamente uma visão da vida actual. O meu sofá é confortável, consigo-me esticar, mas sempre na mesma posição. E depois há facto de ele ser de pele, o que se torna incómodo no início, acabando depois por se tornar mais confortável do que qualquer outro material. Parafraseando Fernando Pessoa, primeiro estranha-se depois entranha-se. Este sofá, em certa medida, é um elemento central da minha casa. As vivências por ele testemunhadas são muitas. Neste sofá já estudei horas a fio, já li inúmeros livros, deleitei-me com centenas de discos, chorei e ri navegando para lá do LCD nas minhas sessões de cinema caseiro, os miúdos brincam no sofá, as pessoas assim que chegam cá a casa arremessam-se para cima dele, já dormi sozinho, acompanhado... etc (não vou entrar em mais pormenores, mas é um sofá voyeur, amiguinho da carpete que o acompanha). Comprei-o numa loja de móveis na Almirante Reis. Os donos, indianos, queixaram-se que aquele sofá de pele genuína e de origem italiana não se adequava ao mercado da zona e não havia meio de o conseguirem vender. Embora tivesse sido caro, fizemos um acordo digno das trocas comerciais dos descobrimentos, eles faziam-me um desconto considerável e eu pagava-lhes de imediato mas entregavam-me num prazo de 24 horas, já que o anterior tinha sido selvaticamente removido aquando do meu divórcio. Assim, a um domingo de manhã ele entrou-me pela porta adentro. Não mais nos separámos. E de facto quem nele se deita deleita-se com o seu conforto. E não há nada como fazer amor num sofá cizento-tabaco.
Acordei às três da manhã, com a camisa Boss da mesma cor e tão amarrotada como o meu trapézio, biceps e grande dentado. Acordei com o telemóvel debitando mensagens de há umas horas atrás. Não sou só eu em fase de in repeat. A música continuava ao mesmo nível de quando me deitei. Fiz uma playlist com as últimas novidades independentes do 2º semestre de 2012 e início de 2013 e adormeci assim embalado por Indie Rock. Curiosamente quando despertei do meu sonho ouvia Indians. Aconteceu-me algo interessante, embora não inédito, inclui o som, que naturalmente já me incomodava, no seio dos meus sonhos. Senti que alguém tentava entrar pela porta da rua, as chaves que deixo normalmente na porta de forma a encravar a fechadura abanavam, as batidas na porta deveriam ser as de algum vizinho raivoso pelos décibeis a horas socialmente impróprias. Estava manietado na parede e por muito que quisesse não me conseguia libertar das correntes que me aprisionavam. Entretanto acordei. Os pormenores do sonho esfumaram-se e não tinha o meu Dream Book a jeito para os assentar. 
 Tentei responder à mensagem com um português incorrecto. Não há nada pior que o corrector automático do meu iPhone quando estamos com um olho aberto e outro fechado. Parecia um monólogo de loucos. A resposta não foi muito mais adequada. Visivelmente acordei a meio da noite a destinatária da mensagem que me deve ter rogado mil pragas. Confesso que estava num estado semi-a-dormir-semi-acordado e nem me ocorreu que não se respondem a mensagens às 3 da madrugada quando as mesmas foram enviadas à hora do jantar. Ainda tenho que descortinar uma desculpa adequada e pensar numa compensação adequada. Talvez a dois no meu sofá. 

3 comentários:

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