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domingo, 3 de março de 2013

Leucotomia pré-frontal


A leucotomia pré-frontal, segundo Lobo Antunes (2001), «continua ainda hoje a ser motivo de controvérsias, muitas vezes alimentadas mais pelos preconceitos e pela ignorância de quem a ataca do que por uma interpretação explicativa rigorosa, que coloque a descoberta de Moniz na correcta perspectiva histórica».
De facto, a leucotomia pré-frontal não foi propriamente uma novidade histórica. A ideia de operar cérebros sempre fez parte da intuição médica de curar desde há milhares de anos. Trepanações cirúrgicas eram já praticadas há mais de quatro milénios, quer na Europa quer no Norte de África, para tratamento de várias afecções. Na Idade Média, por exemplo, os curandeiros fizeram diversas tentativas de operar o cérebro na ânsia de procurar a mítica «pedra da loucura». Já no princípio do século XX, o neurologista Vladimir Bechterew (1857-1927) defendeu a ideia de que a cirurgia podia desempenhar um papel de relevo no tratamento de certas doenças.
Depois das suas tentativas cirúrgicas no tratamento dos estados parkinsónicos, e a partir de 1933, Egas Moniz dedica-se à reflexão sobre uma técnica cirúrgica capaz de curar certas psicoses. Rompendo com as tradições psiquiátricas, e em contradição com as concepções psicológicas dominantes no seu tempo, Egas Moniz fundamenta a sua ideia essencialmente em duas teorias – a teoria do neurónio do histologista espanhol Santiago Ramón y Cajal (1852-1934) e a teoria dos circuitos sinápticos preferenciais, paralela à reflexologia do médico e fisiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). Despende também muitas horas no estudo dos doentes com lesões dos lobos frontais destruídos por tumores ou traumatismos, uns da sua observação directa, outros relatados por vários autores. Debruça-se especialmente sobre a história clínica de um doente, ao qual o famoso neurocirurgião norte-americano Dandy tinha amputado grandes porções de ambos os lobos frontais para ter acesso a um meningioma (tumor benigno) que eles encobriam. Por conseguinte, todas as concepções teóricas, mais ou menos documentadas em fundamentos anatómicos, fisiológicos e clínicos, procuravam examinar o problema com imparcialidade e sob diversos aspectos. Por outro lado, esta tentativa de tratamento cirúrgico surge num panorama em que a terapêutica psiquiátrica se revelava pobre e infrutífera, pois a era psicofarmacológica só viria a entrar em cena nos anos 50, do século passado. A ideia de Egas Moniz em desenvolver uma técnica cirúrgica aplicada ao tratamento de certas doenças psiquiátricas certamente não encontrou nesta terapêutica uma fonte de inspiração nem tão pouco de comparação. Será que com a leucotomia pré-frontal te consigo tirar da minha cabeça. É que está a ser difícil. Quando penso que te coloquei definitivamente numa memória recôndita do meu cérebro, tu surges-me ao pensamento sem avisar.
Quando Moniz se refere à leucotomia como uma tentativa «ousada» e «temerária», ele fá-lo consciente que a sua ideia iria ser recebida com as máximas reservas no mundo psiquiátrico, principalmente porque a psiquiatria vivia nessa época um hiato psicanalítico em que as ideias neuro-organicistas eram fortemente contestadas. O médico Luís Cebola, ex-director da Casa de Saúde do Telhal, refere no seu livro Psiquiatria Social, publicado em 1931, que «em Portugal, todos o sabem, porque todos podem constatá-lo, não há nada, absolutamente nada que possa classificar-se de realização séria, de prática proveitosa em benefício dos pobres doidos que por aí abundam». Todo o movimento humanitário despoletado por Phillipe Pinel durante a Revolução Francesa era muito preciso. Mas igualmente se torna inconstestável que o avanço da psiquiatria portuguesa, em particular, era de uma lentidão assustadora. Testemunhos como os apontados revelam bem quanto, na época de Egas Moniz, pouco mais se podia fazer do que aguardar. Júlio de Matos, um dos grandes alienistas portugueses do início do século XX, destaca-se com outro testemunho. No seu livro Elementos de Psychiatria queixa-se que «em Portugal, a falta de manicómios em número suficiente é ainda uma das causas das admissões inoportunas ou tardias. Sempre cheios, os manicómios de Lisboa e Porto não podem abrir as suas portas a quantos lhes pedem tratamento; e assim, os doentes esperam semanas, meses e às vezes anos um lugar, que só vêm a conseguir nas... secções de incuráveis». Quando, no seu livro, tenta abordar os aspectos da terapêutica, ficamos nitidamente desanimados com a pobreza dos recursos. Nessa época os mais variados artifícios da imaginação tentavam suprir as dificuldades sentidas na forma de tratamento dos doentes mentais.

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