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domingo, 30 de dezembro de 2012

Poesia de uma morte anunciada

É difícil escrever em poesia. Hoje tento mas não consigo. Noutros tempos com maior facilidade as rimas saiam-me naturalmente. Já não consigo. Isso entristece-me. As palavras eram usadas como plasticina, moldava-as a meu belo prazer. Perdi vocabulário e imaginação. Tornei-me num ser obtuso e fechado. Quero-me libertar através das palavras e sinto-me incapaz. Chego ao ponto de pensar na ortografia. Não faltará muito para dar erros. Será a escrita uma manifestação da vida. Da minha vida pequenina e sem sentido. Antes sentava-me e conseguia descrever sentimentos, emoções e vivências. Hoje envolto em negrume as palavras, frases e nexo desapareceram. Tento, mas sou incapaz. Quando penso que volto a cantar sentimentos a imaginação esfuma-se. Perdi qualidades, perdi inteligência, perdi sensibilidade. Aos poucos transformo-me numa pedra suja de arestas irregulares. Não sirvo para nada. Talvez pisa-papéis. Quero escrever e não tenho tema, não tenho alma. Fico com falta de ar, a cabeça pesada, o olhar estupidificado em frente ao espelho, transformo-me em areia sem que os outros dêem conta. Quero escrever, mas tudo o que daqui flui é abstruso, sem sentido, de vago significado. Estou em declínio. Perco interesse por tudo. Não tenho objectivos, não tenho agilidade, estou indolente perante tudo e tudo se torna rotina. Quando o dinheiro acabar não sei o que faça. Talvez deambular, ir com o Circo por essa Europa fora. Preciso de estímulos. Aqui fechado em 4 paredes, rodeado de livros que já não sei ler e de músicas que já não sei ouvir, murcho. Alguém que me regue. O amor é o alimento da alma. Preciso de amar. Preciso de dar. Preciso de entrega, da minha e da tua. Ninguém. Tento escrever em poesia mas sai-me prosa de fraca qualidade. Envelheço e perco-me no meu próprio ser. Não encontro a porta da rua. Visto as meias desemparelhadas, as boxers ao contrário, os sapatos trocados, os botões da camisa abotoados de forma errónea. Estou senil. Vejo as fotografias de outrora aqui e ali espalhadas e não reconheço as pessoas, os lugares onde gostaria de estar, porque não me recordo. Esqueço-me de tudo. Coloco post-its pelos locais onde vou percorrendo com setas para encontrar o caminho de volta. Se algum engraçado os rouba desgraça-me que não chego a destino certo. E tudo porque no meu íntimo perdi o amor. E ninguém vive sem amor. Quando este desaparece a vida deixa de ter significado. Desaparecem a família, os amigos, os conhecidos porque a falta de amor cega. Deixamos de ver as pessoas à nossa volta. Tornamos-nos em seres petrificados, de arestas sujas, que de nada servem. Nem para fazer parte de uma calçada portuguesa. Não nos encaixamos.  Quero escrever em poesia e não consigo. Tento recordar a minha idade. Não consigo. Mas sinto-me com 90 anos. Mais. Conheço pessoas com 90 anos com vida mais produtiva que a minha. Mais amada. Chega-se a um ponto em que deixamos de usar relógio e calendário. Ultimamente tenho-me esquecido do relógio de pulso. Será um prenúncio de morte. É difícil escrever em poesia. Não consigo enquanto o amor não voltar verdadeiramente a abraçar-me.

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