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domingo, 6 de julho de 2008

Saudades de mim.


Já não escrevia há imenso tempo neste blogue. Não tenho tido vontade. Cedi à rotina mundana do circuito casa/trabalho. Tenho saudades de mim noutros tempos. Faz-me falta voltar atrás no tempo e resolver pequenas coisinhas que nunca ficaram resolvidas. Imensas coisas mudaria nas minhas opções. Outras nem por isso. Confesso que nem sei muito bem porque estou a escrever, ou mesmo o que escrever. Há momentos na minha existência em que a reflexão e o saudosismo de mim mesmo, de outras épocas, de outras vivências, de outros cheiros, de outras pessoas, de outros caminhos, de outras músicas, de outros livros, de outra pessoa que não eu vestido com esta pele, me trazem à memória as diferentes fases em que passamos como se de embriões se tratasse. Fora do ambiente uterino, para onde eu queria regressar. Deixem-me voltar ao útero. Fartei-me desta vida mesquinha e pequenina onde se dão importância a coisinhas que na realidade não têm importância nenhuma.
Quero renascer sem guerra à minha volta. Quero renascer numa noite diferente daquela em que bombardeavam a maternidade onde nasci. Quero viver a minha infância sem as inseguranças que julguei nunca sentir. Quero passar a minha adolescência sem o estigma do melhor aluno da turma. Quero optar por tudo aquilo que não optei. Gostava de ser fotógrafo. Virar costas às elevadas responsabilidades e limitar-me a fotografar as vivências dos outros. Quero reencarnar o meu avo Rui e morrer aos 42 anos com cancro de lábio. Quero sentir que sou um pai sem cometer os erros de outros pais. Quero me apaixonar loucamente como no dia em que te conheci à porta do cinema. Quero partir sem destino por essa Espanha que sempre amámos. Quero apaixonar-me por aquela minha projecção idealizada, que na realidade não eras tu. Quero poder viver sem dinheiro. Quero me despojar de todos os bens materiais e falsas necessidades que artificialmente nos tentam impingir. Gostava de ser artista no verdadeiro sentido da palavra. Gostava de morrer subitamente, não sem antes deixar um legado qualquer. Tenho saudades de mim noutros tempos. Das longas conversas no jardim em frente à minha casa naquelas noites quentes de Verão que parecem ter morrido. Gostava de andar novamente com os joelhos esfolados das vezes em que caia de bicicleta. Gostava de puder dizer não a todas as opções que fizeram por mim. Tenho saudades de tudo aquilo que não fui.

1 comentário:

  1. Excelente texto..também tenho saudades, das mesmas saudades que tu tens.

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