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quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Fantasmas


Toda a nossa realidade é sempre tão relativa. Tudo o que guardamos nas nossas memórias pode ser deformado, manipulado, parcialmente apagado, obscurecido, rasurado, pintado, esculpido... De tal forma que uma realidade se transforma noutra. Vivemos das memórias sem que elas vivam de nós. O meu limite é o cansaço físico e intelectual. A abstinência de horas de sono talvez seja a forma mais fácil de abrir as portas a outras realidades. As inversões súbitas de horários a que sou obrigado deixam-me por vezes a flutuar numa realidade que sinto não ser a minha. Vim para casa dormir as restantes horas que não dormi durante a noite. Acordo a meio da tarde com a nítida sensação do meu eu desfigurado. Envolto numa noite artificial. Sinto-me longe de tudo e de todos. O meu cérebro mergulhado no fundo do oceano é uma figura que permanece. Recordo-me do conforto e plenitude que é ir a banhos em mares tépidos como o das caraíbas. Próximo da temperatura corporal a submersão só com o nariz de fora. O silêncio frustre e o transporte para o conforto do útero materno é algo de transcendente. Faço a mim mesmo como uma regressão hipnótica. Tendo em conta que a minha habitação materna foi em ambiente de guerra e quando nasci a maternidade estava a ser bombardeada, ou próxima dela, compreendo ainda hoje o facto de tremer quando ouço explosões surdas às escuras. Tenho que voltar a mim, respirar fundo e voltar a uma realidade mais luminosa... Mas é tão difícil por vezes. Nem mesmo percorrendo os sulcos das lágrimas face abaixo consigo-me manter acordado. Há fantasmas que nos perseguem para sempre mesmo antes de nascermos. A luta contra eles é inglória porque residem nas nossas memórias distorcidas de neurónios embasbacados porque não os deixam dormir. Acendo a luz e liberto-me para me iniciar às 17. Encolho o dia para 7 horas. Até que o Sol se põe e o cinzento do meu espírito invade-me novamente.

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