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sábado, 4 de maio de 2013

Dull Flame of Desire

Ao longe vejo as luzes cintilantes desta Lisboa que se abate sobre mim no seu descanso irregular. Do alto da minha torre tudo me parece pequeno e distante. As pessoas movem-se como pequenas formigas numa dança aleatória. Os carros de brincar deslocam-se a velocidades estonteantes nesta cidade que amo. Abro a janela e sinto aquele vento que me arrepia. Tenho saudades das noites quentes em que nos debruçavamos sobre esta janela conversando horas a fio. Reclamavas sempre que acendia um cigarro. Hábito nocivo que mantenho e não vejo hora de o largar. Mas não agora, não neste momento, em que a minha única companhia é a incadescência que se apaga entre os meus dedos. A chama do meu desejo , no entanto, mantêm-se viva. Os nossos serões sempre foram acompanhados pela música que nos envolvia. Abria-mos duas ou três coronas e recordávamos os momentos que ainda não tinhamos vivido. Que nunca chegaremos a viver. Hoje penso que esta casa está mais vazia sem ti. Está mais vazia sem mim. Na realidade também já parti. Ao longe imagino o teu quarto de tons esverdados. A Bonsai defunta que te ofereci continua a fitar-te, atrás da tua mesa de trabalho. Provavelmente já te livraste dela. Não passa de um cadáver. Que melhor símbolo para o amor que deixaste morrer. Bastaram sete dias sem alimento, sem a rega adequada. Dentro de menos de vinte quatro horas anseio por um telefonema teu, por uma mensagem. Estou na eterna dúvida se o vais fazer. Na realidade preferia que não o fizesses. Receber uma mensagem impessoal é para mim mais penoso do que não a receber de todo. Desligo as luzes. Só o monitor do meu MacBook velhinho me ilumina a face à medida que o teclo. Esquecemos-nos de tudo até de nós. Hoje alguém me recordou como é triste as pessoas passarem de bestiais a bestas. É estranho como uma união para a vida pode ser votada ao desprezo. As pessoas amam-se até que se banem definitivamente. E aí, é como se nada tivesse acontecido. Até as memórias se esfumam. Alguns, doentes como eu, vão mantendo acesa uma chama artificial. Está condenada à extinção. As pessoas não se amam sozinhas.

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