terça-feira, 30 de junho de 2009

Berit Mila


O brio é algo de muito positivo em todos nós. Apesar de não me considerar especialmente materialista tenho alguns cuidados com os objectos materiais que colecciono à minha volta. A minha tia Nanda, essa sim materialista, costumava dizer que tinha cuidado com as coisas porque estas lhe tinham custado muito a ganhar. Os objectos adquiriam uma personalidade própria que nada tinha a ver com o dinheiro. O sofá italiano bordeaux teriam sido 2 meses de noites em branco na Clínica de São Lázaro (o nome pode estar enganado), o espelho barroco do corredor foram outros tantos domicílios geriátricos, o rádio am/fm com 60 anos um par de horas extras nos primórdios do Santa Maria... e assim por diante. De nada lhe serviu tanto trabalho em rodear-se de bens materiais recauchutados com primazia... O rádio am/fm com 60 anos jaz agora avariado no meu quarto trazendo-me à memória a minha tia Nanda e as suas filosofias mundanas. Todos os outros objectos foram distribuídos, mais ou menos aleatoriamente, pelos sobrinhos e irmãos. Serve de muito não usarmos as coisas em vida.
A última vez que estive no Algarve com os meus nenucos resolvi, por brio, ir lavar o carro alugado (o meu ainda estava no hospital dos carros após a colisão contra o eléctrico da Carris) a uma lavagem manual e mais barata. Lá encontrava-se o casal da foto, que à medida que o senhor ia chuveirando o carro, a esposa com o filho ao colo ia esfregando as jantes de liga leve munida de uma escova de dentes. Este é um exemplo de como a perfeição é sempre inatingível. A mim, apesar de adorar o meu carro, nunca me passaria pela cabeça andar com o meu filho ao colo esfregando as jantes com uma escova de dentes. Aliás, algo provavelmente premeditado, ninguém anda assim com escovas de dentes para trás e para à frente. Eu por caso tenho uma na minha mala de trabalho, mas não a levo para a estação de serviço, a não ser que premeditadamente eu resolva escovar os dentes à jante. Como sabemos, as jantes são a última das coisas a sujar-se 5 minutos após a lavagem, pelo que a sua lavagem nunca é inglória. Not. Naturalmente, isto não é uma crítica, cada qual esfrega o que bem entender e como bem entender. Mas achei que devia compartilhar convosco.
O título desta entrada não tem que ver com a prosa escrita anteriormente, mas sim com o Berit Mila que celebrei hoje em homenagem ao meu filhote. Lá teve que ser, quem sai aos seus não degenera. De qualquer maneira, ficou fantástica, mais estética e crescida. ;)

sábado, 27 de junho de 2009

inconsequências


É uma falácia a ideia de que os outros estão sempre lá. E eu estou do lado de cá. Alguém me disse que ando muito amargo. Eu diria que ando mais do tipo agridoce. Fartei-me do papelinho de aceitar tudo sem reagir. A condição humana demonstra muito pouca inteligência na maioria das vezes. Confude-se humor com falta de respeito. Não raras vezes as pessoas não se sabem situar. Rapidamente se abusa da confiança que se é dada. O velho provérbio dá-se a mão e querem logo o braço tem razão de existir. Uma frase sábia é: se nós permitirmos sobem por nós acima e fazem por nós abaixo. Isto para reflectir sobre a condição de que se vai suportanto muita coisa, mas há um momento em que um simples pingo faz tranbordar o copo. E aí, no que me diz respeito, não há volta atrás. Sempre achei (e continuo a achar) que as pessoas podem ter tudo de mim. Mas mesmo tudo. Quando gosto de alguém faço tudo por essa pessoa. Quando por alguma razão as pessoas deixam de me merecer confiança e respeito tornam-se indiferentes para mim. Não faço mal a ninguém, mas pura e simplesmente deixam de existir para mim numa certa condição de amizade. Esse sentimento é transversal, desde o amor até à amizade, passando pelos relações interpessoais em todas as suas vertentes. Infelizmente, vou engolindo muita coisa até ao momento do vómito final. Mas este por vezes surge... e aí, mea culpa, não consigo perdoar e voltar atrás. Chamem-lhe rancor chamem-lhe o que quiserem... Mas eu sou assim. Vou avisando, directamente, sob o olhar directo... E de repente passo-me para o outro lado e aí não retorno. Sempre fui assim directo e consequente. Quando assumimos comportamentos devemos assumi-los com as gónadas bem no sítio. Quer estejamos correctos ou errados. Temos que assumir as consequências dos nosso actos. Toda a acção tem uma reacção (in Coristas). Tenho uma personalidade nefasta por vezes, mas considero-me justo nas minhas avaliações e dou mais hipóteses do que a maioria das pessoas que cinicamente vão criticando e queimando os outros quando viram costas. E isso, eu sou incapaz de fazer, tudo o que eu digo digo pela frente. E assim durmo em paz perante as minhas intolerâncias.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Importâncias


Sempre ouvi dizer que a brincar se dizem algumas verdades. É talvez a forma mais cobarde de se revelarem os pensamentos. Fica sempre no ar um escape. É também a forma mais cruel, deixando o interlocutor na dúvida eterna sobre os reais pensamentos do seu censor. Todos nós fazemos isso ocasionalmente... já que todos nósm ocasionalmentem somos cobardes e cruéis. Esta reflexão serve em última instância como o meu mecanismo de auto-censura. É que, na realidade, cada vez menos digo as verdades a brincar... mas digo-as, literalmente, entrando na retina do interlocutor. Os dissabores surgem por vezes e as inimizades também. Mas como cada vez menos tenho paciência para gente pequenina e mesquinha não me importo. Porque essas pessoas rapidamente passam para a minha caixinha de indiferentes. Aqui incluo aquelas que me deixam de merecer respeito intelectual, quer pela falta de camaradagem, educação, intriguisses ou simplesmente estupidez . As pessoas realmente importantes ficam do nosso lado. Mesmo quando delas não precisamos. E essas são as realmente importantes... mesmo sem assinaturas.

(inspirado por contactos circunstanciais... ou não. Estava a brincar.)

domingo, 21 de junho de 2009

Word Press Photo´09: My Selection




Tinha escrito um pequeno texto acerca destas fotografias. Arrependi-me e apaguei-o. De facto, perante a violência e força destas imagens pouco ou nada se poderá acrescentar. Elas falam por si e recordam-nos de quão selvagens ainda somos.

sábado, 20 de junho de 2009

A cegonha

(Lagos, 12 de Junho de 2009, Mao Mao, cegonha no cima da chaminé junto ao novo edifício da CML. Constou-me que durante o seu transporte integral a mesma nunca abandonou o seu ninho. A firmeza, força e protecção do seu espaço são motivantes e adequados para ilustrar o pequeno texto que acabei de expelir)

São 5.13 da madrugada e eu desperto. Sinto um cansaço de morte e no entanto acordo. O calor da noite não me deixa dormir. Não me recordo de deixar o iTunes ligado, mas acordo desconfortável ao som de antony & the jonhsons. A insónia é um acto cruel que cometemos sobre nós mesmos. Um acto de punição ou censura porque tudo nos preocupa. Nas últimas semanas sinto-me cansado de tudo. Cansado de me dar às causas e nos momentos seguintes ser atraiçoado. Cansado das pessoas que não me merecem. Cansado de não merecer as pessoas. Cansado em última instância do egoísmo humano. Desperto de madrugada sem vontade de voltar a falar novamente com os seres vis que por vezes me rodeiam. A Bjork irrompe de rompante no meu iTunes à medida que debito estas palavras no calor da noite urbana, na solidão do meu lar, despido de emoções e indignado com os sentimentos que sinto. O meu ponto de ebulição é fragilmente baixo, especialmente quando deparo com injustiças. Como já aqui referi sou do género de viver intensamente e também reagir intensamente às adversidades. Falta uma semana para as minhas férias e continuo sem destino. Sintomático da minha vida: sem destino. A anarquia emocional que vivo nos últimos tempos é sintomático das minhas intolerâncias perante a mesquinhez e o egoísmo do ser humano. Raras são as vezes que conhecemos pessoas puras na sociedade actual. E quando isso acontece batemos-lhes com toda a força porque temos medo. Medo da pureza. Essa é a história da nossa humanidade. Há 1976 anos foi crucificado, cuspido e apedrejado o último dos puros. E nisso reside a nossa fragilidade humana. O calor que se faz sentir no meu quarto ofusca-me a mente e o olhar. A insónia tolda-me a linearidade do meu pensamento. A Bjork lança-me no abismo emocional com a sonoridade cristalina da sua voz. Quero adormecer e não consigo. O povo chama-lhe esgotamento. Eu chamo-lhe tristeza.

domingo, 14 de junho de 2009

Best Parents you can get



Estas mini-férias em Lagos chegaram ao fim. E com ele a depressão pós-mini-férias. Não obstante estar quase de férias outra vez o dia cinzento foi um exemplo crasso do meu estado de espírito. Tendo há bem pouco tempo destruído o meu carro contra um eléctrico foi de carro de substituição que me rumei ao Algarve. O regresso, numa vã tentativa de fugir ao trânsito cada vez pior da A2, pautou-se pelo interior do sudoeste algarvio e alentejano e com ele as memórias de outros tempos. Recordei as viagens intermináveis entre Lisboa e Lagos pelas curvas de Odemira, Odeceixe e Aljezur. Não havia uma única viagem em que, ou eu ou a minha irmã, não nos vomitássemos todos. A era dos telemóveis era uma miragem do espaço 1999 e se alguma coisa acontecesse por aquelas estradas bem podíamos esperar que alguém com boas intenções aparecesse. Não havia alternativa. Recordo nas minhas memórias mais ancestrais o genérico, a voz doce do João Chaves e as músicas calmas do Oceano Pacífico. Ainda hoje quando viajo à noite é o único programa que me dá um prazer intrínseco ouvir. Eram realmente outros tempos onde viajávamos numa Toyota Sprinter 1300, um dos poucos objectos que o meu pai conseguiu trazer de Luanda, sem cadeirinhas de bebé ou cintos de segurança que fossem. Dormíamos ao Deus dará nos bancos de napa de trás. E estamos vivos. Fruto do acaso ou não... Hoje em dia somos cada vez mais histéricos com as seguranças mas as ______ acontecem na mesma. As viagens entre Lisboa/Lagos, pelas suas 5 ou 6 horas de duração permitiam que os meus pais percorressem todos os estados de espírito - desde a alegria, cantarolices, anedotas até às discussões, mau humor etc etc etc. Pelo menos, a família tradicional mantinha-se... 10 20 30 anos. Neste meu regresso a Lisboa, tendo feito meu itinerário ancestral recordei e projectei algo que os meus filhos nunca irão vivenciar, fruto de um divórcio relativamente precoce. Aliás, algo que é regra entre os meus amigos e conhecidos. Incrível não é, como se mudam os valores e os limites do que é ou não tolerável.
Nunca irão brincar na rua, como eu brinquei, por medo dos raptos, pedófilos e criminosos. Nunca irão sentir o que é jogar ZX Spectrum em grupo porque só os mais ricos tinham hipótese de dar quase 50 contos por uma máquina, hoje das cavernas... Como tudo mudou em 30 anos. Como eu, sem dar conta, vou envelhecendo com a solidão próprias dos velhos... As minhas avós que morreram quase com 100 anos contavam-me as suas solidões... F___-se, mas elas eram centenárias. Não sei se gosto deste mundo em que vivemos, as coisas começam a acontecer depressa demais e a paciência esgota-se.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

5º dimensão

Pertencemos a dimensões diferentes. Não vemos os objectos com os mesmo formatos nem com as mesma cores. Talvez por isso nos tenhamos afastado apesar daquilo que nos aproxima ser muito forte. Não nos toleramos mutuamente. Há pequenas coisas que se transformam em grandes coisas e grandes coisas que se transformam em pequenas coisas. Aquilo que para ti é importante para mim não tem o mais pequeno significado e vice-versa. As dimensões em que nos movemos estão nas antípodas. Tu és excêntrica como eu sou excêntrico numa perspectiva completamente diferente. Tu percorres caminhos cinzentos onde o meu cérebro tenta deslindar as cores psicadélicas da tua mente sórdida e complexa. Os teus períodos REM de olhos abertos abanam a minha existência colocando-me num mundo fechado e absorto daquilo que me envolve. Os nossos mundos são diferentes apesar de se interceptarem. As tuas vivências lançam-me em caminhos obscuros que não vivo conscientemente. As horas de sono que me abstenho deixam-me anestesiado perante toda a realidade consciente ou inconsciente que me envolve. Deixo de conseguir equilibrar o tabuleiro deixando todas as peças em auto-gestão. A tua imaginação obsessiva há muito perdeu os limites do razoável. Não és mais do que um fantasma vagueante numa dimensão paralela à minha. Sinto-te a percorrer cada veia, vénula, artéria e arteríola do meu corpo como se cada eritrócito estivesse infectado pela negação da tua existência. Na realidade pertencemos a dimensões diferentes e assim vamos continuar. Há mundos que não se trespassam. Os minutos megalómanos do nosso relógio intemporal assumem-se na sua fragilidade. A relatividade do tempo é tal perante a selectividade da minha memória que os momentos deixam de fazer sentido. Sinto-me como se padecesse do Síndrome de Alice no País das Maravilhas. No entanto são as portas ogres do Inferno que se abrem para a minha negra existência. Desligo a televisão TeleFunken a preto e branco e abandono ao seu destino as personagens paralisadas e intemporais da Twilight Zone. Percorro com o olhar resquícios de oculto nas paredes do meu quarto almofadado e escondo-me debaixo no negro manto que me protege de ti... Embora tenhas sido tu a lança-lo sobre o meu leito de descanso.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Lagos, Allgarve



Lagos ou Zawaia (para os amigos) sempre foi considerada por muitos como uma das mais belas cidades do Algarve. Essa beleza acentuou-se com a crescente destruição que se verificou por esse Algarve fora nos últimos anos. O expoente máximo do vómito urbanístico é na minha opinião a Praia da Rocha, embora Armação de Pêra e Quarteira não lhe fiquem atrás. Durante muitos anos, verificou-se alguma protecção ambiental e organização municipal na arquitectura lacobrigense. De facto, a paz que se sentia na Meia-Praia e Porto-de-Mós comparada com as restantes praias algarvias era a grande mais-valia de Lagos, já que a água e o clima são comparativamente mais inóspitos. Neste sentido guardo com prazer os Verões quentes (mas ventosos e de água gelada) de uma Lagos com um turismo muito peculiar e dos passeios pelo campo junto à Ponta da Piedade e Porto-de-Mós.
A tristeza que senti neste fim-de-semana em que fui a Lagos com as minhas crias não tem precedentes. É impressionante como se consegue destruir uma cidade em meia dúzia de meses. O Porto-de-Mós, especialmente a sua área campestre está completamente urbanizada de uma forma anárquica. As falésias, que pensava eu serem protegidas, estão carregadas de moradias, algumas de estética duvidosa. Os mamarrachos de betão parecem ter sido transplantados directamente da Praia-da-Rocha para a belissíma praia do Porto-de-Mós. A vista ao longo da Meia-Praia é outra desilusão. Conseguiu-se transformar num verdadeiro aborto uma baia que poderia ser, urbanizada sim, mas de uma forma inteligente e apelativa... Para piorar a minha opinião sobre as mentes pensantes e líderes ouvi dizer que foi autorizado uma Hotel na zona da Ponta da Piedade, o último dos redutos do Barvalento Algarvio. Posto isto, agradeço à autarquia de Lagos e seus colaboradores a destruição a que votaram a mais bela cidade do Barlavento Algarvio, senão de toda a região... Conseguiram-na transformar num Aborto Urbanístico.

P.S: Fui informado, não sei se é verdade, que estão a construir um parque subterrâneo na Avenida dos Descobrimentos... Eu pergunto-me se ninguém vos informou que é incomparavelmente mais barato, sobretudo em Lagos, criar parques de estacionamento em altura e não debaixo de terra...

P.SII: A destruição do Jardim da Constituição para dar lugar a lagos artificiais é outra ideia digna de um génio... Então numa cidade à beira-mar gastam-se milhares de euros a construir lagos artificiais... ??? Espero que não se lembrem de construir montanhas de neve artificial na Serra da Estrela ou jardins tropicais na República Dominicana...

Parabéns, Lagos agora faz mesmo parte do Allgarve.

domingo, 24 de maio de 2009

Intolerâncias

A intolerância por si só é de repudiar. Talvez por isso quando sinto intolerância em relação ao que quer que seja fico com um sabor estranho na boca e uma sensação desagradável no estômago. É um sentimento que não gosto de experimentar, embora por vezes ocorra. Mesmo que as minhas intolerâncias sejam por mim largamente justificadas e até hipoteticamente correctas não deixam de ser fruto do meu extremismo intelectual, algo que também me deixa mal-disposto. Na realidade sinto intolerância pelos intolerantes e apesar, de na minha moral ser justificável, não deixa de ser em si também uma atitude intolerante e atentória da liberdade de quem pretende e é intolerante. Todos, mas todos mesmo, temos o direito intelectual à intolerância, ao extremismo, ao radicalismo, mesmo que isso possa contrariar a postura da maioria social e os torne de alguma forma marginais. Apesar de não concordar com a maioria das ideias dos intolerantes e de eu próprio ser intolerante contra eles, tenho que concordar que nutro um sentimento nocivo e criticável... Passo a explicar, há determinado tipo de ideias que me dão vómitos: racismo, xenofobia, homofobia, discriminação sexual, penalização de tudo o que foge ao mediano da curva de Gauss etc etc etc... Apesar de tudo, quando eu me torno intolerante contra estes indivíduos padeço do mesmo mal. Assim, tenho que respeitar que hajam pessoas com estas ideias, apesar de as considerar profundamente anormais. Algo que se calhar também sou considerado nesses meios. Tudo se resume à liberdade intelectual e mesmo que as ideias sejam bizarras, anencéfalas e injustas, deverão ser respeitadas. Embora esta postura seja perigosa e permita que ideias radicais possam se transformar em agressões perante os outros e isso sim é condenável. Apesar de tudo continuo a sentir intolerância pelos comportamentos que põem em causa a integridade emocional dos outros e por vezes de mim próprio. Estranho este texto. E mais estranho ainda o porquê de eu reflectir sobre isto, quando na realidade aparentemente não tem nenhuma relação. Mas tudo se iniciou com um comportamento que acho profundamente injusto de quem eu sempre ajudei e isso causa-me intolerância.

domingo, 17 de maio de 2009

Sebastião Salgado




Não me apetece escrever. Ponto final. Mas deixo aqui algumas fotos fabulosas de Sebastião Salgado. Como eu gostava de conseguir captar a realidade assim nas lentes da minha reflex. Por muito que o Mundo feche os olhos à miséria humana alguém há-de gritar mais alto e agitar 1 mm que seja as nossas mentes comodistas ocidentais.

terça-feira, 12 de maio de 2009

MySpace.Mao


Estou em casa. Hoje, excepcionalmente, não trabalhei à tarde. Almocei num restaurante aqui perto e assim que pude enfiei-me na falsa protecção do meu lar. Nunca estamos protegidos de nós mesmos. Raramente posso envolver-me pelo silêncio negro do alto da minha torre. Ao longe vejo os carros em correrias lentas nas grandes circulares que me envolvem. Sinto-me em paz comigo mesmo, mas vazio... Como este lar que se foi esvaziando ao longo destes últimos anos. As memórias ficam e as os registos fotográficos de outros tempos e vivências transportam-me para as alegrias que aqui já vivi. Queimo óleo de Jasmim. Tudo tem um fim. As pessoas morrem, as famílias desmoronam-se, os amigos partem, os namoros dilaceram-se e tudo aquilo que nós temos desaparece quando finalmente  também nós partirmos. Sempre tive uma má relação com a morte. Na realidade temo-a embora afirme o contrário. Não a minha mas a dos outros. Temo a solidão e no entanto aprecio-a numa atitude masoquista. Quero ser feliz como se esse fosse o objectivo primordial das nossas vidas mesquinhas. Mas não consigo. Não assim, não afastando tudo e todos aqueles que tentam trespassar a barreira do superficial. Adsorvo as essências de Jasmim que me transportam para outros lugares. Em mim tudo corre como se não existisse amanhã. Sou emotivo em tudo o que faço. Vivo intensamente tudo o que se depara à minha volta. E só consigo ser desagradável para as pessoas de quem eu realmente gosto. Não tendo que me esconder atrás da boa-educação factual. Raras são as vezes que nos apercebemos disso. E isso magoa. A tendência é a solidão. O meu espaço é meu. Como já aqui escrevi. Quero continuar a dormir na diagonal e afasto do da minha intimidade quem se quer interpor. Ouço Sigur Ros sem perceber uma palavra que seja, fecho os olhos e vejo quem realmente sou. O meu pesadelo recorrente em que me liberto... fica para a próxima vez.

sábado, 2 de maio de 2009

pequeno ensaio sobre o moralismo


Moral, do latim mores, relativo aos costumes, conjunto de regras de condutas consideradas como válidas, éticas, quer de modo absoluto, para qualquer tempo ou lugar, quer para grupos ou pessoa determinada.

Desde tenra idade sempre tive alguma relutância em aceitar as dicotomias certo/errado, branco/preto, verdade/mentira, sagrado/profano etc/etc. De facto existe um meio termo... aliás, é somente o que existe na maioria das vezes.
 Para desconforto da família não cheguei a completar a catequese nem a realizar a primeira comunhão. Em certo medida desiludi-os um pouco, embora nem eles saibam bem o porquê, já que nunca fomos realmente praticantes de qualquer tipo de religião no seio familiar. Católicos sim mas não praticantes... Definição estranha esta - como é que se pode ser algo que não se pratica. A afirmação de que sou atleta de decatlo mas não praticante é uma verdade semelhante. Seja como fôr, a verdadeira razão de ter abandonado a catequese prendeu-se com o facto de, já nessa altura, me tentarem enfiar à força na cabeça os conceitos dicotómicos atrás referidos. Algo que sempre me fez pouco ou nenhum sentido. Nem sempre as pessoas são genuinamente más ou boas. Ninguém é assim...ok, excepto os psicopatas. Mas na maioria das vezes há sempre algum grau de virtude e defeito. Naturalmente, há quem tenda mais para um lado do que para o outro.
O conceito de moral surge assim como forma de simplificar e bipartir a nossa complexidade humana. Na realidade, a moral e ética são essenciais para a nossa existência enquanto sociedade. Não obstante, não há conceitos mais plásticos e moldáveis, variando ao longo do tempo e do espaço como um cubo mágico com os seus cubículozinhos coloridos. Em última instância a moral é a tentativa  de um grupo ou  indivíduo levarem os outros a actuarem pelos seus princípios arrogantemente tidos como correctos. O objectivo maior na maioria das vezes, ainda que inconsciente, é tornar os outros infelizes e com sentimentos de culpa quando as regras não são cumpridas. Tendo em conta que as mesmas mudam ao longo do tempo e do espaço, não há nada mais cruel do que permitir que uma moral se possa atravessar na felicidade individual de cada um. Claro que a moral até pode ser superficialmente ignorada... mas sem que nos apercebamos é frequentemente um elemento gerador de mau estar. Nesse sentido é uma arma cruel que tem sido usada ao longo dos séculos pelos defensores das doutrinas morais. Na realidade, a influência que o catolicismo tem na nossa formação, com ideias enraizadas desde tenra idade, mesmo que não nos façam sentido hoje em dia, deixam sempre alguma sensação de mal-estar quando algum dos princípios morais é violado... muitas vezes sem gravidade nenhuma, excepto aos olhos daqueles que os produzem.

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Quarentena

Estou de quarentena em casa desde 3ª feira. Febre, Mialgias, Artralgias, Odinofagia, Amigdalite eritemato-pultácea, Conjuntivite e uma estranha metaformose nas cordas vocais que me puseram a roncar e o nariz a ficar circular e com dois buracos tipo tomada de electricidade. Não me recordo de ter tido contacto directo com mexicanos... mas com estas incursões pelos aeroportos nunca se sabe... Em Madrid-Barajas viajam centenas de latino-americanos e dei de caras com alguns deles. Seja como fôr o diagnóstico está feito (por mim of course) já que não fui empatar os SU com casos não urgentes (algo que a população deveria aprender!): Amigdalite eritemato-pultácea! Bacteriana ou viral... who cares mas acho que contraí um EBV ou CMV... pelo menos tive reacção exantemática à amoxicilina, coisa que nunca me tinha acontecido antes... Pelo sim pelo não resolvi tomar Azitromicina... E apesar de estar um bocadinho melhor continuo muito asténico, o que me coloca na pista de Mononucleose... Ahmmm, aos 34 anos... Essa é que é essa. Nunca vi tanta televisão como nos últimos 5 dias. Aliás eu não vejo televisão.

domingo, 19 de abril de 2009

domingo, 12 de abril de 2009

L´amour

(Lepidoptera, vulgo Borboleta; captada nas lezírias de Santarém a 12/04/2009)

A saudade é uma palavra portuguesa. Talvez nós, pela carga genética enclausurada ao longo de gerações de descobrimentos e descobridores conseguimos ter saudades daqueles de quem amamos. Os outros chamam-lhe nostalgia... Para nós é saudade. E cantamo-la como ninguém. Eu tenho saudades de pessoas que já partiram e de pessoas que ainda não partiram mas é como se já tivessem partido. Tenho saudades das emoções que já senti e daquelas que precocemente morreram sem que tivesse tido tempo para as sentir de verdade. Mas a saudade existe. Penso em ti como penso em mim e deixo-me flutuar ao longo daquilo que não vivemos. Se calhar porque não poderíamos ter vivido. Mas fica a saudade de um morte anunciada. Entristeço-me quando penso em ti, pela forma como conduziste as nossas curtas intersecções de vidas cruzadas num ponto num lugar. Acendo um cigarro, que é coisa que já não fazia há uns meses e deleito-me perante a minha cobardia e quebra na força de vontade. Mas às vezes é tão difícil resistir às coisas boas da vida... Mesmo que contra tudo e contra todos. Mesmo que contra a nossa saúde. Nunca te cheguei a ler como gostaria e quando te leio as tuas palavras a mim já não se dirigem. Se é que alguma vez se dirigiram. Fazem-se opções, outras vezes são nos impostas. Sempre gostei de sentir nostalgia, de escrever com os olhos inchados, de sentir as agruras dos amores não correspondidos escorrerem pela face abaixo, deixando as almofadas de veludo castanhas marcadas pelo sofrimento do amor que é maior do que nós. Amamos sem nunca sabermos realmente amar. Chorarmos sem nunca realmente sabermos chorar. Usamos as palavras e a música como uma chave para a porta da eternidade. E num ápice tudo desaparece e ficamos no escuro, envolvidos pelo bréu... Como pelo bréu ficamos envolvidos. Quero voltar atrás mas não consigo. Quero apreender o amor, mas este não se ensina nos livros. Quero voltar aquele cinema e não olhar para ti. Quero voltar aquele café e não te fintar os olhos. Quero voltar aquela casa decorada nos anos 70 com alcatifas sujas e os candeeiros de luzes cintilantes e não te recordar... Quero tudo no mundo menos aquilo que alguma vez já tive.

domingo, 5 de abril de 2009

escova de dentes

Quis-te emprestar a minha escova de dentes e tu recusaste. Há coisas que não se emprestam, dão-se. É curioso como se fabricam preconceitos que demonstram o quão estranhos e distantes estamos uns dos outros, mesmo que habitando os mesmos lençóis. Beijamos-nos na boca, trocamos saliva, envolvemos as nossas línguas uma na outra. Fazemos amor. Beijamos todos os centímetros corporais... e no fim não trocamos as nossas escovas de dentes porque é falta de higiene. E na realidade é... Tudo depende do contexto. Nos momentos de calor onde os corpos escorregadios deslizam em uníssono pensamos em tudo menos nas bactérias do outro lado da pele. Claro que é tudo pictórico. Na realidade não te quero emprestar a minha escova de dentes como não quero compartilhar mais do que estritamente necessário os lençóis que habitam debaixo do negro manto de veludo que cobre a minha cama. Habituei-me a gostar de dormir na diagonal. Neste momento a postura que mais se adapta a um sono relaxante e descansado. Durmo no meu leito como se estivesse ao longo de uma vista aérea de Barcelona - a minha cidade fetiche... Vou lavar os dentes e colocar-me na diagonal. 

sexta-feira, 3 de abril de 2009

riders on the storm


Riders on the storm
Riders on the storm
Into this house were born
Into this world were thrown
Like a dog without a bone
An actor out on a loan
Riders on the storm
(The Doors)

Há momentos que se vivem uma ou duas vezes na vida e recordar-se-ão cinquenta. As primeiras paixões, pela sua própria definição, são imortais. Se forem platónicas expandem-se a velocidade da luz. Quando olho para Vénus vejo as imagens do passado que se torna presente. Vejo imagens do passado, com segundos de intervalo, mas do passado... Quando há 17 anos  me disseste que tinhas algo para me dizer, os meus olhos brilharam, o coração palpitou, a tensão baixou repentinamente e o ego envolveu-me com uma aura brilhante que só mais tarde viria a conhecer ser capaz de existir em mim. Disseste-me realmente que estavas apaixonada por alguém sem conseguires demonstrar como e eu ajudei-te, mesmo amando-te profundamente... 

Passados 17 anos reencontrei-te inesperadamente. A nossa relação sempre se baseou em encontros ocasionais... Na realidade nunca fomos amigos nem nunca chegaremos a ser. Mas ajudei-te sempre que necessitaste. A última dessas ajudas será mais importante do que alguma vez pensarás ser. Desta vez não te amei profundamente e não consigo definir o sentimento que por ti alguma vez nutri. Na realidade senti-me envolvido por todo o caos que preenchia a tua mente. Ouvi-te nas tuas lamentações e deixei que me levasses pelos caminhos tortuosos do teu pensamento. Cruzámos várias vezes o olhar e a distância de segurança dos 50 cm foi algumas vezes ultrapassada. Enquanto subíamos em direcção ao céu naquelas escadas-rolantes cinzentas várias vezes tiveste vontade de me morder os lábios e eu senti-o... As emoções são aquilo que nos queremos sentir e não aquilo que sentimos verdadeiramente. Desta vez não foi a mim que disseste estar apaixonada e permitiste com isso transformar a tempestade numa manhã amena e soalheira como nos contos de fada. Continuei a minha caminhada por entre nuvens tempestuosas a procura da saída para o labirinto para onde me lançaste. Recordo a lenda oriental onde o escorpião pica a tartaruga que o ajuda atravessar o rio, mesmo sabendo que morreriam os dois, quando questionado respondeu ser essa a minha natureza. O meu iPod grita Stairway to Heaven de Led Zeppelin e afundo-me no puff cor-de-laranja a pensar na injustiça dos nossos sentimentos e na ingratidão das nossas atitudes, com a certeza de que nada acontece por acaso.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Teoria do Chaos

Def. A teoria do Caos é um modelo matemático que permite explicar certos sistemas dinâmicos, isto é, sistemas cujo estado evolui com o tempo. Há sistemas que são hipersensíveis a condições iniciais. O exemplo mais popular corresponde à determinação de como o bater de asas de uma borboleta pode desencadear um terramoto no outro lado do mundo. São sistemas randomizados e determinísticos.

Há situações inesperadas em que nos vemos colocados e que parecem ocorrer de uma forma randomizada. Há situações que não controlamos e que, como o bater de asas de uma borboleta, sem querer provocamos um tremor de terra, maremoto, furacão e provocamos caos e destruição para logo de seguida reinar a reconstrução. Este é um dos princípios fundamentais do hinduísmo. Há sentimentos e emoções reais ou fantasiosas que podem abanar todo um sistema dinâmico que evolui com o tempo. É curioso como a teoria do chaos se pode aplicar a tudo, especialmente às relações interpessoais. Há situações incompreensíveis tal como há pessoas incompreensíveis. A minha mente tenta processar determinadas ocorrências e só me ocorre que sem querer e de uma forma aleatória, de alguma forma, contribuí para o reencontro e reequilibrio emocional de outros mundos, de outras pessoas... Mesmo, crendo não ter sido intencional, não consigo deixar de pensar que mais uma vez a manipulação se tornou uma arma vil contra a minha existência, que usado como um instrumento cirúrgico de encontro ao coração que não o meu... Se em tempos a perturbação me atingiria em cheio, hoje fruto de muitas defesas adquiridas de processo auto-analíticos, considero que simplesmente contribuí para a paz alheia e mais uma vez comprovo que a melhor forma de defesa é encerrar-me num casulo autista e flutuar à espera que um raio de luz perdido me atinja e me oriente para longe daqueles que não nos merecerem... :( 

domingo, 29 de março de 2009

incandescente


incandescente
ad m+f incandescente; em brasa

Quando menos se espera estamos envolvidos pelas labaredas alaranjadas que nos toldam a vista. Num salto fugaz projecto-me para o centro da fogueira sem medo de me queimar. O calor deixa-me a pele em brasa pelos pensamentos que insisto em fechar a sete chaves. Um mão invisível agarra-me e fico a flutuar no ar a centímetros do centro nevrálgico daquele fogo que me atraí como uma borboleta cega em movimentos erróneos. Sinto o teu calor irradiar à distância. Afasto-me impelido pela mão da razão. Num rasgo de loucura liberto-me de quem me tenta manietar e mergulho na profundidade daquele lume incandescente. A dor que sinto é rapidamente aliviada enquanto me expando num fumo cizento e ondulante. Vejo-te ao longe enquanto me afasto de ti. Caio na razão do meu ser enquanto recebo as tuas mensagens, agora telepáticas... E parto para não mais voltar.

domingo, 22 de março de 2009

American Beauty

Passaram-se 10 anos desde que fomos os dois ver o American Beauty ao Cine-Teatro Avenida. Recordo-me como se fosse ontem a perturbação que aquele filme gerou em nós. Algo que sempre nos uniu foi o gosto pelo cinema. Caminhamos ao longo da escuridão que nos envolvia e sentimos cada momento do filme como se fosse só nosso. Ficamos sentados no terreiro em frente ao José Falcão, a meia distância entre a minha e a tua casa e conversámos enquanto fumávamos dois ou três cigarros. Resolvemos ir ao Tropical encontrar os nossos amigos e queimar conversa antes de rumarmos à States. Nos raros fins-de-semana em que não partias para o conforto do lar paternal vivíamos numa comunhão própria das pessoas que se amam muito. E eu amei-te muito. Já não vou a Coimbra há alguns anos mas a última vez que fui parei defronte aquele prédio velho com portões de ferro oxidados e perdi-me em memórias enquanto observava as águas furtadas onde tantas noites ficamos a estudar até que o sol raiasse. Recordo-me das loucuras da tua companheira de casa que também era minha. Nunca me esquecerei daquele domingo soalheiro, o dia de Baleia Branca em que o namorado, eu e tu a tivemos que arrastar do cimo do telhado como veio ao mundo em homenagem à Baleia Branca... a diferença é que não estávamos em Oxford... As memórias vão e vêm como ondas espumadas. 
Estive hoje a rever o American Beauty e todos os sentimentos que vivenciei há dez anos atrás percorreram-me a mente... hoje, na solidão do meu mar, depois de rumos em direcções opostas, mas fez-me recordar de ti e escrever enquanto ouço Heroes do David Bowie uma das tuas músicas preferidas.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Sound of Silence

Dou um mergulho na escuridão que me agarra com mil braços. Sinto-me envolvido pelas mãos que me asfixiam. Tento-me libertar de todos os pensamentos negativos que flutuam à minha volta. Acendo a luz de pedras de sal dos Himalaias numa vã tentativa de purificar a minha alma. As velas de essências de Jasmim queimam o ar que me circunda. Não me consigo libertar desta carga que me verga a coluna. Ouço o Sound of Silence de Simon & Garfunkel enquanto me deito no chão da sala. Penso em todos os erros que cometi quando interajo com as pessoas que realmente amo. O amor é assim um arma que se utiliza contra os que não têm culpa. Não pedi para amar ninguém nem ser amado. Na realidade queria ser uma árvore imóvel no topo de uma falésia virada para o mar. Queria estar estático e imóvel sentido o vento frio do norte nas noites de Inverno solitárias. Queria estar de fronte para o mar para todo o sempre, perdendo de vista o horizonte de almas que partem sem que tivéssemos tempo para nos despedir. Odeio o amor assim como amo o ódio. São sentimentos tão próximos que dificilmente se conseguem dissociar. Questiono-me se saberei realmente amar. Questiono-me se alguém hoje em dia saberá realmente amar. Dizem-se e fazem-se coisas que não se deveriam dizer nem fazer aos que se amam. E isso inclui filhos, pais, irmãos, namorados, esposas, amigos, colegas... Perde-se o controlo sobre aquilo que pode realmente magoar os outros como se os sentimentos dos outros fossem inatingíveis pelos torpedos das palavras. Mesmo depois de muita psicanálise continuam-se a cometer os mesmo erros e a magoar aqueles que não se podem defender. A isto chama-se cobardia. O ser humano é talvez o animal mais cobarde que conheço. Em última instância o que é realmente importante é o nosso umbigo. O egoísmo é cada vez mais imperial. Vendem-se a mãe e os filhos com a mesma facilidade com que se defeca. A quantidade de episódios e histórias que tenho ouvido de amigos e conhecidos que me vêem como confidente deixam-me abalado perante a falta de respeito que todos temos por todos. As únicas pessoas que conseguem realmente manter o controlo sobre os outros são os surdos, cegos e mudos... Tudo o resto é capaz das maiores atrocidades que começam no silêncio dos lares e se estendem ocasionalmente por essas estradas fora. No que me diz respeito, tento fazer tábua rasa dos erros que cometi e olhar de novo para o horizonte das almas que deixei partir sem um Adeus. Algumas arrependo-me outras nem por isso. Mas numa coisa quero acreditar... Tentarei que nunca volte a acontecer. 

quinta-feira, 19 de março de 2009

The End

Há 7 anos atrás em Barcelona comprei em El Born uma camisola de lã azul turquesa com gola alta de uma marca catalã chamada Divinas Palabras. Pertencia à colecção Cinema e tinha na sua base a inscrição em letras Bold Negras "The End". Recordo-me do prazer que tive em comprar com a ajuda dela esta camisola, que na realidade foi um prenúncio do fim. Nunca eu imaginaria que passados 7 anos teríamos dois filhos e viveríamos em casas separadas e tão distantes um do outro como americanos e russos no tempo da Guerra Fria. Une-nos um elo que nos ligará de alguma forma até à nossa morte e esses não têm culpa de nada. Isto para recordar que tudo é finito na nossa vida. E ficam as memórias, boas e más, que para o bem e para o mal moldam a nossa personalidade adulta e futura. 
De ti também guardo boas recordações. Talvez nos tenhamos conhecido num tempo e num local errados. Não obstante, recordo o fascínio que o teu corpo esguio e sinuoso exerceu na minha retina. Aquilo que me chamou a atenção imediata foram os teus lábios grossos que desejei beijar assim que os nossos olhos se cruzaram. A seguir ao efeito visual vem o intelectual... e também esse de início me preencheu. Achei-te piada. Quando por imperativos profissionais nos separámos nunca pensei que me voltasses a procurar na minha base de origem. Foi uma agradável surpresa. Sentia-me muito bem na tua presença. Gostava dos teus mimos. Adorei deixar-te entrar devagarinho no meu Mundo, embora confesse que sempre senti que o teu era ligeiramente mais intransponível. Fomos-nos conhecendo melhor e com isso algumas farpas... Faz parte... Apesar de tudo adorei viajar contigo, mostrar-te como se viaja bem por esse mundo fora sem o comodismo comercial das excursões vomitivas. Há pormenores em ti que guardarei para sempre no meu íntimo. Ficam os registos fotográficos a preto e branco. As memórias não se apagam, como já disse para o bem e para o mal... I will not expose here the non-turning way spot... Mas por vezes eles existem. Há coisas que se fazem e dizem, atitudes mais ou menos cruéis que até podemos acreditar que conseguimos passar por cima... Mas no fundo tal não é possível. E dessa forma the only way is THE END. Ficam as memórias gravadas até que a memória seja corroída pelas larvas e vermes quando deste mundo me fôr. E todas elas foram sobejamente importantes para mim. Sinto saudade e tristeza mas sei que após certas fronteiras não há regresso, embora por vezes os caminhos sejam dolorosos, são os mais adequados. 

domingo, 15 de março de 2009

Watchmen

Apesar de fã de super-heróis |há tipos que se recusam em crescer| quando vi o trailer do filme "Watchmen" não me atraiu minimamente, sendo um trailer incompetente... Na maioria das vezes os trailers são falsos positivos, isto é, parecem demonstrar um filme de excepcional qualidade mas a frustração à posteriori é grande.  Mas é essa a função dos trailers, uma forma de publicidade enganosa mas legal. O irónico é quando temos trailers nas nossas vidas reais do lado de cá do écran. Quando certas situações e vivências sejam profissionais, sociais, emocionais ou de relacionamento nos parecem apelativas revelando-se à posteriori uma enorme frustração. Mas na realidade a vida real e a dos grandes écrans não diferem assim tanto. Uma realidade influencia a outra. Daí o facto de alguns de nós sermos cinéfilos, de nos projectarmos para dentro das películas, de sentirmos-nos as emoções que são simuladas do outro lado. É tudo uma questão de simulação. O interessante é quando perdemos as fronteiras entre o real e a ficção. Chama-se a isso delírio... psicose... whatever... A quantidade de vezes em que somos psicóticos é mais elevada do que parece.
 |Enquanto escrevo ouço a banda sonoro do Slumdog Milionaire. Brilhante... Aliás como o filme foi. Sempre vibrei com a cultura hindu. Apesar de tão distante da nossa realidade. Em tom de auto-crítica sempre gostei de excentricidades. A mim própria já me chamaram várias vezes excêntrico. O que se calhar até é verdade.|
Mais uma vez de saída de banco (SU) resolvi enfiar-me numa sala de cinema. Por falta de companhia lá fui em tom solitário para as salas do Alegro. Esta "##$""#$$#"" de construirem um centro comercial do meu flat é realmente um drama. O único filme, que me tinha recusado inicialmente a ver, que tinha um horário compatível era o Watchmen. Foi uma agradável surpresa. Adorei o argumento e o ambiente darkness do filme. Este foi mais um exemplo de um trailer falso-negativo, ou seja o filme é realmente bom. |Estou cansado de escrever, vou acender uma vela e relaxar nos ensinamentos Zen ainda não leccionados por quem de direito|. 

sexta-feira, 13 de março de 2009

HeartBreaker

Alguém um dia me chamou heartbreaker. Inexplicavelmente apareceu um autocolante na porta do meu quarto de um coração com a palavra "heartbreaker" no seu interior. Na realidade, ao longa da minha vida tenho destroçado alguns corações, mas não raramente o meu tem sido destroçado. Aliás, fui a primeira vítima das vicissitudes da paixão precocemente arremessada. Como já aqui disse, tive duas ou três paixões intensas na minha vida. Duas delas esfumaram-se no horizonte. Uma nunca foi revelada. Talvez a mais intensa, por não ter passado da adolescência. Tudo o resto tem sido uma busca mal sucedida de um amor que sei que existirá algures por aí. Espero não morrer antes de o atingir. Não obstante, cheguei a um estado de desenvolvimento em que para a entrega total preciso de ter garantias que não vou ser novamente destroçado. Isso às vezes pode ser interpretado como uma barreira espiritual se quiserem. No entanto, é preciso que alguém tenha vontade de a trespassar e não forçar o tempo. É assim que estas coisas do amor funcionam. Apesar de tudo prefiro ser heartbreaker do que heartsuffer porque já passei o que tinha a passar... Se calhar gelei a alma, mas na realidade  já não fico perturbado com uma tampa. Pura e simplesmente não tento mais do que duas ou três vezes. E também não me deixa nenhuma dor na alma dar uma tampa em alguém. Pode ser que tenha um ego tamanho do mundo (e ainda bem), mas na realidade não sou eu que fico a perder. Nunca sou eu que fico a perder. Mas já fiquei. Já perdi pessoas das quais me arrependo fortemente por ter sido tão cego e imaturo noutros tempos, noutras vivências, noutras cidades... Não obstante, o que me entristece nas pessoas é a falta de sinceridade e a incapacidade que se tem de dizer nos olhos aquilo que realmente amadurece na alma... E isso eu não perdoo. O autocolante continua na porta do meu quarto por baixo de uma sinaléptica que enaltece as relações superficiais da nossa sociedade actual: a queca. Tudo começa ao contrário hoje em dia... e frequentemente começa por uma queca que acaba num café, num cinema, num jantar romântico, numa troca de olhares, num beijo na face, num aperto de mão, numa apresentação e que acaba mesmo antes de começar.