quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

cada vez que se perde alguém um universo inteiro desaparece

Cada vez que se perde alguém um universo inteiro desaparece. É uma verdade, daquelas absolutas para a morte mas também para as rupturas. O que é a morte se não o desaparecimento de alguém. O que é o desaparecimento de alguém se não a morte. Quando, num estilo novelesco, as pessoas se zangam e afirmam que nós morremos para elas, de facto é isso mesmo que se passa. Da mesma maneira que, quando morre alguém, ficam as memórias, quando alguém desaparece para sempre das nossas vidas, ficam as memórias e pessoa deixou de coexistir connosco. Assim morte e rupturas andam de braços dados. A única vantagem que uma tem sobre a outra é que para a morte não há remédio, que se saiba, e para as roturas sempre fica uma réstiazinha de esperança. Por muito pequenina que seja, sempre os caminhos se podem cruzar um dia e os erros cometidos no passado ficarem resolvidos. 
Mas, aquilo que se sente mesmo é que um universo inteiro desaparece. Desaparecem as vivências, as cumplicidades, os olhares confidentes, os abraços, os beijinhos, os gostos semelhantes. Desaparecem os jantares à luz da vela, desaparecem os almoços fugidios mas que sabiam tão antes de uma tarde de trabalho intensa. Desaparecem os comandos da televisão arremessados para dentro do alguidar. Desaparecem os livros discutidos, os filmes vistos, as viagens partilhadas. Desaparecem as idas às compras, desaparecem as pequenas discussões, as grandes discussões, desaparecem as reconciliações. Quando alguém desaparece da nossa vida o nosso universo treme até atingir novo equilíbrio. Ficamos perdidos no vodka, ou no martini bianco se agradar mais. Tudo desaparece, as viagens de camelo, de barco, as caminhadas, as viagens de comboio, as protecções mútuas. Desaparecem, ao som de Arcade Fire, os pés arremessados contra a barriga de alguém que tratou mal a pessoa amada. Desaparecem os gritos quando alguém tentou abrir a nossa mochila num prédio pestilento de Berlin.. Desaparecem as tardes de amor ao som de milhares de músicas apreciadas em silêncio. Desaparecem os pés vomitados por uma noite de excessos no Bairro Alto e as olheiras vidradas à porta do Lux. Desaparecem as loucuras do circolo del artisti. Os passeios na Via del Corso. A busca pela farmácia romana... Desaparecem as noites de Jazz nessa Madrid amada e os bolos de chocolate na Amsterdão gelada. Tudo desaparece sem que se tenha querido. Camden Town ficou longe e Londres afundou-se. Olha-se à volta e percebe-se que Gdansk, Warsow, Krakow e Auschiwtz-Birkenau desaparecem do mapa. As viagens podem ser fugas, mas as nossas não foram. Recordo o meu carro novo a passar por entre riachos ao encontro de Gaspar, o burro. Esse universo colorido ficou cinzento. Tudo desaparece menos as memórias, que se vão tornando sépia.
(ouço Nick Cave and the Bad Seeds)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

as pessoas só nos fazem falta quando já partiram

Nunca fui um homem de acreditar em verdades absolutas. Oponho-me completamente aos dogmas indesmentíveis. Talvez por isso as religiões nunca me seduziram. Mas quando dou por mim a pensar na Vida em geral consigo identificar duas ou três situações que ano após ano, geração após geração, não mudam. Um delas é que, fruto do egoísmo humano, as pessoas só nos fazem falta quando já partiram. Os portugueses conseguiram criar uma palavra para isso - Saudade. E de facto saudade é algo que surge quando menos se espera, quando estamos mais sensíveis, mas sobretudo quando sabemos que não voltaremos a ver a pessoa que perdemos. Ou por que morreu, ou porque desapareceu da nossa vida. A Morte é de facto irrerversível, mas uma relação fracturada, teoricamente, teria sempre hipóteses de recomeçar. Esquecemos-nos de um facto importante, é que após a ruptura, dificilmente as feridas que a ocasionaram sarão. E no nosso modo de vida actual, o ritmo que nos impomos a nós próprios, é contraproducente e as pessoas não perdoam e dificilmente aceitam ser perdoadas. O orgulho, se lhe quiserem chamar, mantêm viva a angústia, o mau génio e de uma forma inesperada a Saudade. As pessoas na realidade fazem-nos falta quando sabemos que nunca mais as iremos ter. Isso aplica-se aos familiares, aos amigos, às namoradas, às esposas, aos colegas... Acontece quando as pessoas se zangam por diversas razões, mas também quando, por circunstâncias da vida, vão viver para outro bairro, outra cidade, outro país. As saudades corroiem por dentro e demora muito tempo a que desapareçam. Normalmente nunca chegam a desaparecer completamente, estando sempre prontas a inflamar-se inesperadamente. Quantos de nós, com um copo a mais, não reviramos as nossas memórias e temos vontade de telefonar a alguém a meio da noite, só para ouvirmos a voz que perdemos no nosso ouvido. O estúpido é que quando temos as pessoas ao nosso lado, fruto das vidas rotineirazinhas, achamos que são dados adquiridos. Mas não são. Se não alimentarmos uma relação, seja ela qual fôr, mais cedo ou mais tarde aparece alguém com a frescura da novidade que coloca tudo em causa.  E o pior é que, ao contrário do que seria de esperar para pessoas inteligentes, não se vai aprendendo com os erros. Já errei, já fui vítima de erros, invariavelmente quando as pessoas supostamente amadas e amantes se separam deve-se sempre a erros bicefálicos. Muito raramente as pessoas conseguem voltar a reunir-se. Para isso seria precisa verdadeira sinceridade e amor-próprio. Talvez um dia...

(listening to: Don´t Give Up, Peter Gabriel)

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

apneia

Não consigo respirar. Acordo a meio da noite, molhado, a tremer de frio, depois de um mergulho em águas profundas e gélidas. Acordo sem conseguir respirar. Olho para o tecto, onde a hora projectada me diz que devia continuar a dormir. Não consigo. Levanto-me e acendo um cigarro. Apetece-me ouvir música. Ligo o sistema e ouço Franz Ferdinand. Não é muito adequado para as 4 da manhã. Já por vezes acordei a meia da noite com estes pesadelos, com esta sensação de ansiedade que me consome. De todas as vezes que isto aconteceu constatei mais tarde que eram sensações premonitórias. Existem sempre razões para sairmos da nossa outra dimensão. Umas somos nós os responsáveis, mas nem sempre. De todas as vezes que o meu amor foi adulterado acordei a meio da noite. De manhã sinto-me cansado. Não consigo dormir de uma forma reconfortante. Sinto-me em apneia constante e no entanto consigo respirar. Olho-me ao espelho, tenho os lábios cinzentos, os olhos vermelhos e o aspecto de quem não dormiu. Nem um duche quente me reconfortou. Os pássaros na cozinha abanam as asas ao ritmo do meu desespero. Assustei-me. A última vez que eles fizeram isso passados uns minutos o prédio abanou. Malditos tremores de terra. Tu de carro, de regresso à tua casa, nem deste por nada. Mas o meu mundo tremeu. Estou em apneia e o meu pensamento vagueia à tua volta. Cada dia que passa me vou esquecendo da tua face, do teu cabelo, do teu cheiro, do teu tom de voz, das tuas cores, das tuas botas perdidas na carpete preta quando nos envolvíamos ainda antes do elevador chegar ao seu destino. As peças de roupa iam sendo projectadas. Quando chegávamos à cama desfeita, era-mos um só. A meio da noite acordava molhado, mas desta vez não tremia de frio. A apneia era em uníssono, partilhada à medida que sentia a tua respiração ofegante no pescoço. Ouvíamos Sigur Ros. Mas à medida que os dias passam me vou esquecendo de ti. Não esqueço os momentos e as emoções, só a pessoa. Acordo em apneia. Hoje comentei que achava que tinha apneia de sono. Sinto-me cansado. Não consigo respirar. Na realidade nem quero. De facto, as pessoa quando desaparecem parecem desenhadas a lápis, cinzento, fraquinho, cujo o desenho se vai esbatendo no tempo. Adormeci novamente a pensar num filme que vimos uma vez, 9 Songs. À medida que os episódios se sucediam ao ritmo de cada concerto, a minha mente anteviu o nosso futuro. Que ao contrário de tudo o que vendemos ao outro, o nosso futuro a dois tinha os dias contados. Apesar dos muitos pontos de interesecção os nossos mundos diferentes e opostos colocaram-nos a caminhar nas antípodas um do outro. Sem esforço para invertermos a trajectória ela invariavelmente afastou-nos para sempre. Somos a viva prova que afinal a terra não é redonda e não nos voltamos a encontrar. (Ouço Fallen Empires, Snow Patrol) Acordo e deito-me em apneia. Preciso de oxigénio.



domingo, 17 de fevereiro de 2013

Photo Love

Estava deitado no sofá, onde praticamente passei metade do meu fim-de-semana, dei comigo a pensar nos pequenos prazeres que me preenchem. Um deles é a fotografia. Adoro fotografar mas sobretudo ver fotografias, da minha autoria mas não só. Continuo a comprar anualmente a especial amadores da Photo, hábito esse que absorvi de um velho amigo que não vejo há anos. As fotografias para mim são as traduções das memórias estáticas dos momentos que me marcaram. O meu estilo favorito é, sem sombra de dúvida, o retrato. Á medida que deambulo em locais aglomeradores de pessoas desejo sempre ter uma máquina por perto. Na sexta-feira, depois de um jantar com colegas, resolvi dar um salto ao Lux, a minha disco de sempre. Como ninguém me quis acompanhar lá me dirigi sozinho. Sem saber havia uma festa organizada pelos Bloc Party. Pela primeira vez paguei para lá entrar. Não havia como fugir a um bilhete. Gostei do som, gostei do ambiente, sobretudo gostei da música e encharquei-me de Vodka Redbull. É curioso, que á medida que vamos bebendo, as pessoas vão-se metamorfoseando. Desejei fotografa-las em tons de cinzento. Sozinho, recordei momentos em que desejei auto-retratos. As fotos são assim pinturas reais de momentos da nossa vida. E tenho tantos. Nunca me perturbou estar sozinho. Consigo viajar, ir ao cinema, dançar, sair à noite sozinho sem conversar, só ouvindo, observando e pensando sobre os que me rodeiam. Tiro fotografias mentais que mantenho em pequenas molduras penduradas na memória. Apesar de não parecer sou um lobo solitário, embora consiga viver em alcateia, mas não me acanho quando os outros preferem ficar na zona de conforto. Eu vou onde as coisas acontecem. Mas deitado no sofá, estava a pensar nos milhares de fotografias que me invadem diariamente através das molduras digitais espalhadas pela casa. Em tempos tive que apagar pedaços da minha memória porque as fotos que lá estavam magoavam quem por cá passou. Como se a vida das pessoas se resumisse a esses momentos estáticos. Acedi, porque apesar de me serem indiferentes, compreendi que isso a pudesse magoar. Não obstante, as fotos dela continuam ainda por cá. Passo por elas e recordo tantos momentos bons que ficaram imortalizados. Foram tantos os locais, os momentos, os minutos captados através das objectivas das nossas máquinas. O meu gosto pela fotografia é tanto que achei que oferecer-lhe uma máquina para substituir aquela que ela destruiu nos anos seria um presente com significado. Um dia terei que apagar essas fotos se alguém que venha cá a casa se melindre com esses momentos que estando ou não entrando pelos olhos dentro farão parte do meu passado, das minhas vivências. A vida é cíclica, mesmo para um lobo solitário. Dentro de 10 minutos irá começar a última temporada de Spartacus. Vou voltar ao sofá, não sem antes fumar um Marlboro Light.

PS: Á medida que escrevi estas palavras Mogwai (Mr. Beast) invadiu-me o silêncio da noite.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

:() blá blá blá blá blá... blá blá blá

blá blá blá... blá blá blá... e mais... blá blá blá... e ainda... blá blá blá. Há momentos em que nos cansamos de conversas repetitivas e desligamos de vez. Desliga-se porque não vale a pena, não é justificável ouvirmos sempre os mesmos argumentos dogmáticos em discursos espirais que não trazem mais do que sofrimento. No início custa, porque nos habituamos às pessoas com ou sem blás blás blás... depois vamos-nos habituando e quando damos por isso desligamos-nos definitivamente e tudo, mesmo tudo, não passa de uma memória distante. 


E vem-nos à memória uma frase batida: "Hoje é o primeiro dia do resto da tua Vida." Passar bem.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Love Crash


Amanhã é dia fatídico. É dia de clausura. É um dia que artificialmente criado pode ser muito interessante ou verdadeiramente emetizante. Estou na segunda opção. Já tive dias de amanhã engraçados, outros verdadeiramente apaixonado, mas neste ano de 2013 mais valia que desaparecesse do calendário Gregoriano. E neste caso é verdadeiramente Gregoriano, já que só me dá vontade de ir a correr para a casa de banho e vomitar-me todo. Só de imaginar os casalinhos enamorados a trocar saliva e a fazer jantarinhos da treta à luz da vela e com musiquinhas da treta e ripas de bacalhau em cama de grêlos e batata a murro e sobremesas da treta hipercalóricas ficou com vontade de fugir. E isso tudo tem uma palavra: Inveja. Sim inveja e auto-comiseração... mas sinceramente não me apetece desenvolver o tema. Pelo menos este ano não gasto dinheiro em merdices de relógios da Swatch criados oportunisticamente. Bahhh.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

rotinas

Há um dia em que chegamos a casa e paramos em frente à janela. Do meu quarto vejo a foz do Tejo. Na realidade este já morreu e envolveu-se com o Atlântico iluminado pelas luzes alternadas do Bugio. Nos dias de chuva intensa percebe-se, mesmo que ao longe, a mistura das águas barrentas com o azul profundo do mar frio e esbranquiçado pelas ondas que banham a baía de Cascais. Neste dia queremos acreditar que a nossa vida é especial e que somos iluminados pelo Sol incandescente que teima em manter-se acordado atrás da linha de prédios que rasgam o céu à nossa frente. Mas nem a nossa vida é especial nem nós deixaremos marcas numa humanidade que teima em esquecer-se das pessoas pequeninas e comuns. Dos milhões e milhões de pessoas que vão nascendo e morrendo diariamente neste planeta perdido no espaço só uma ínfima parte deixará marcas. Mas mesmo essas é só uma questão de tempo até serem varridas da memória. Há um dia em chegamos a casa e apercebemos-nos que a nossa vida não passa de uma rotina sem sentido. Que não somos verdadeiramente felizes, que mascaramos as nossas vivências com pequenos passatempos e que de um momento para o outro morremos e ninguém se lembrará de nós a não ser ocasionalmente em pequenas conversas melancólicas das que temos a recordar aqueles que já morreram, uns precocemente e outros nem por isso. Hoje cheguei a casa e defrontei-me em frente ao vidro acastanhado que me separa do vento frio e chuvoso que se faz sentir lá fora. Nesses minutos em que o cigarro ardia no cinzeiro o meu pensamento flutuou à minha volta. Pensei nas inúmeras asneiras que já fiz mas também nos momentos em que marquei a diferença pela positiva. No entanto se me perguntarem se sou feliz a resposta é NÃO. Os dias vão passando uns atrás dos outros e sinto falta de qualquer coisa que não sei definir. Vou aliviando a minha dor com música que é um dos meus grandes prazeres, vou adormecendo o sofrimento com leituras, encharco-me de analgésicos sem sucesso. A minha dor é espiritual e não encontro a resposta por mais que procure. Estou cansado desta vidinha rotineira que não traz nada de bom nem a mim nem aos que me rodeiam. Só me sinto bem a viajar e isso não é mais do que uma fuga à mesquinhez que me rodeia. Os amores vão aparecendo e desaparecendo até que nada sobra. Fico só com as minhas paredes cinzentas do fumo espiralado do tabaco, a minha companhia soturna e auto-destrutiva. Surge-me à memória aquele desenho de Quino que acompanha os meus pesadelos desde sempre. Recordo as leituras no sofá da tia Luisa em que me deleitava com este livro até aquele maldito cartoon que sempre me assustou, talvez por medo premonitório de traduzir a minha maneira de estar perante a vida. E desse sempre tive medo.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

O Banqueiro Sem-Abrigo.

A falta de sentido social de alguns indivíduos espantam-me. Fiz parte do grupo dos Médicos do Mundo que no ano 2000 em Lisboa iniciou apoio à população de sem-abrigos e contactei directamente com muitas pessoas que a vida negou os mais básicos elementos de dignidade. E afirmar que se os sem-abrigo aguentam porque é que nós não aguentamos é de uma falta de humanismo que me provoca vómitos. Sr. Dr. Ulrich, os sem-abrigo não aguentam, nem vivem, limitam-se a sobreviver. Muitos padecem de patologia psiquiátrica e muitos morrem em hipotermia e por inanição, palavras que provavelmente o senhor desconhece. Gostava que por uma semana, só uma, o senhor abandonasse o conforto do seu lar, do seu Mercedes, dos seus restaurantes de topo, das viagens em executiva e vivesse junto a uma das suas agências, à porta, debaixo de um cartão, comesse do lixo, não tomasse banho, fosse olhado com repugnância e muitas vezes mal-tratado por imbecis que também fazem afirmações como a que o senhor fez. Há certas franjas da nossa sociedade que me metem nojo. A sua é uma delas.

E hoje procurei Pablo Neruda...


Saudade

Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...

Saudade é amar um passado que ainda não passou,
é recusar um presente que nos machuca,
é não ver o futuro que nos convida...

Saudade é sentir que existe o que não existe mais...

Saudade é o inferno dos que perderam,
é a dor dos que ficaram para trás,
é o gosto de morte na boca dos que continuam...

Só uma pessoa no mundo deseja sentir saudade:
aquela que nunca amou.

E esse é o maior dos sofrimentos:
não ter por quem sentir saudades,
passar pela vida e não viver.

O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido.
Pablo Neruda

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

As minhas memórias sépia.

As memórias somos nós. As memórias são os bocadinhos bons e maus que nos constroem, que nos fazem ser assim. As memórias, embora distorcidas desde o primeiro momento mantêm vivos aqueles que já morreram, aqueles que fizeram parte das nossas vidas, aqueles que nos cruzaram e bem ou mal nos deixaram marcas para sempre. As memórias ficam connosco até à nossa morte. Pode-se desistir das relações, das pessoas, das profissões, dos hobbies, podemos deixar um livro inacabado, um disco por ouvir até ao fim, mas as memórias, por mais que queiramos acompanham-nos e surgem quando menos se espera. As memórias trazem-nos sorrisos aos lábios, lágrimas aos olhos, apertos no coração, põe-nos a falar sozinho quando estamos parados no trânsito. As memórias são assim infinitas embora mutáveis. À medida que vamos envelhecendo estás vão-se tornando cinzentos, esfumadas, pouco precisas, com menos cor, mas estão sempre lá. As minhas memórias sépia. 
Hoje o meu filho pediu-me para lhe imprimir umas fotografias de animais para um projecto da escola. Estivemos os dois à procura de animais exóticos, pelo menos para nós europeus, fotografados por mim. Abri a pasta da viagem à Patagónia. A viagem da minha vida e surgiram-me as memórias dos momentos mais pacíficos e ternos que tive até ao momento. Recordei cada momento, cada flash, cada esgar, cada sorriso com carinho e saudade. Essas boas memórias ficaram-me para sempre. Fazem parte de mim. Essas nunca poderão ser roubadas e distorcidas. Mesmo as outras memórias, cinzentas, de tristeza e mágoa, posteriores, nunca as poderão ocultar. Tomamos opções, umas mais forçadas do que outras, a minha foi chegar à conclusão da impossibilidade de manter uma chama viva que se teima em apagar. Mas nas minhas memórias essa chama viveu, esteve presente, deu-me momentos de paz e imensa felicidade. Nessas memórias fui amado e amei. Nessas memórias visuais, mas também olfactivas e tácteis fui feliz. E isso é o que realmente importa. Porque quando menos se espera elas surgem. E ninguém as poderá tirar. 

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Get the Fuck Out of my life

I hate this kind of people. Even worse if in the first place you had the biggest mistake of your life. Fuck Off.


segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O que queremos da nossa vida?

Durante a nossa existência muitas adversidades e calhaus se interporão nos nossos caminhos. Eu estou a atravessar talvez a fase mais negra dos últimos anos. Muitas vezes à nossa volta nem tudo é tão escuro e frio, mas não se consegue remover facilmente os óculos escuros que nos toldam a visão. O cansaço acumulado torna-nos hipersensíveis. Tudo nos parece mal e todos nos parecem inimigos. E às vezes reagimos como assim se tratasse. Despejar no balde lixo errado é sempre uma forma arcaica de nos darmos com os outros. Quando tudo nos parece desajustado não nos sentimos considerados, respeitados, acarinhados e amados na nossa mera condição humana. Há sempre pessoas, que como cães vadios, cheiram os problemas dos outros e aproveitam-se das fragilidades alheias para espezinhar, para torcer, para se promoveram a elas próprias elevando-se para uma condição menos canina. Esses género de seres são poucos mas difíceis de enxotar, tal como os cães vadios farejam-nos e perseguem-nos até à exaustão. 
Estou a atravessar uma semana difícil que ainda agora começou mas que terá o seu expoente máximo na quarta-feira. Este período de trevas fez-me reflectir sobre muitos outros assuntos e constatar a quantidade de gigantescos erros que tenho cometido ao longo da minha vida. E há erros sem resolução A única alternativa é geri-los. Estou a matar a pequena criança que sempre existiu dentro de mim e isso é matar parte de mim. As personalidades nunca são fáceis e a minha não é excepção. Mas sempre tive valores e nunca desrespeitei as pessoas à minha volta. Não obstante, mesmo involuntariamente, já magoei pessoas que admiro e de quem gosto. Quem não o fez? O importante é termos consciência dos nossos erros e os assumirmos na esperança de que nos perdoem, tal como nos perdoamos a quem nos tem ofendido. Da minha curta formação católica, esta é talvez a única frase que me marcou. Tudo isto me tem feito pensar em que mundo vivo, no que nos transformamos, nas pessoas que nos rodeiam, em casa, no local de trabalho, no grupo de amigos... Chego à triste conclusão que o egoísmo impera e pessoas que acreditamos amigas no primeiro momento nos atraiçoam, nos destratam, nos desrespeitam. Uma qualidade que julgo possuir prende-se com o facto de sempre ter sabido o meu lugar. E nessa condição respeitado as pessoas à minha volta. Há um ditado japonês que diz uma pessoa deve ser humilde perante os chefes por obrigação, perante os pares por cortesia e perante os subalternos por nobreza. É de facto uma verdade dogmática mas correcta na sua existência e na minha óptica ser humilde não aplica anulação nem ausência de discussão. No entanto a forma como se procede demonstra o grau de formação que nos temos. E essa não se aprende nas escolas, nas faculdades, é nossa e transmite-de pais para filhos. Esses tem sido os principais valores que tento passar aos meus filhos. A que nunca tenham uma postura arrogante e petulante perante a vida. E a vida que eles irão ter ninguém sabe. Mas vejo o futuro deles sombrio e isso entristece-me. Não sei que mundo estamos a deixar para as gerações vindouras. As pessoas perdem os escrúpulos e não olham a meios para atingir fins. Espero que para o final da semana a luz me invada novamente e veja as pessoas com brilho que anseio que elas tenham.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

the dark side of the moon

Há dias em que tudo parece negro,
Em que ninguém parece gostar de nós,
Há dias em que fechamos portas,
A dor revela-se atroz,
Há dias chuvosos sem guarda-chuva,
Ficamos frios, tristes, com as almas mortas.
Há dias em que só queremos fugir,
Flutuamos no rio cizento do desprezo,
Arremessados, moles, transparentes, voláteis,
como a pele das uvas que descascamos na praia escondida.
Há dias em que tudo nos parece mal,
Em que somos o centro das atenções negativas,
Há em dias em que somos merda,
Ou pelo menos assim nos sentimos perante as divas,
Há dias que deveriam ser noites,
E noites que deveriam não terminar.
Fechamos emoções e sentimentos na arrecadação dos nossos medos.
Há dias em que o arco-íris se funde com as trevas que nos invadem.
Ficamos em rigor mortis perante o espelho da nossa existência.
Há dias...



quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Sweet Disposition

Hoje à tarde fiz algo que há muito não fazia. Soube-me bem. Às vezes esquecemos o conforto das pequenas coisas. A temperatura da sala estava a ideal. A almofada colorida fofinha e envolvente. A mantinha cor-de-laranja por perto. A luz fraca envolveu-me. A música embalou-me. Fechei os olhos e adormeci rapidamente. Dormi uma sesta daquelas que quando acordamos não sabemos muito bem onde estamos. Foi o caso. Soube-me muito bem. Sonhei com intensidade, daqueles sonhos que parecem realidade. Hoje à tarde a conversar com os meus filhos chegamos à conclusão de que os sonhos podem ser a vida real de alguém que está acordado enquanto nós dormimos. Assim, temos sempre duas vidas. Só a que dos sonhos é mais estranha. Bem, às vezes não. Mas o meu sonho de hoje à tarde foi tudo menos normal. Na minha casa, encontrava-me com um casal de namorados do tempo de escola. Ele um verdadeiro idiota, sempre o foi, acho que acabou em porteiro de discoteca, daqueles agressivos e de boné à banda. Fazia parte do grupinho do mesmo tipo que fazia merda na comida dos outros. Ela engraçada mas submissa. Não faço a menor ideia do porquê entrarem no meu sonho. Não os vejo há anos. Na realidade andavam no meu liceu mas se trocámos duas ou três palavras durante a nossa vida foi muito. Mas no FB somos grandes amigos. Just Kidding. No entanto estavam no meu sonho e eu estava deitado de costas no sofá no colo dela enquanto olhava pela janela e vi uma nave espacial a passar por cima do meu prédio. Achei tudo uma bizarria. Levantamos-nos e espreitámos pelo buraquinho da porta à espera que um alien entrasse pelo terraço adentro. De repente sinto-me abraçado pelas costas por outra colega de liceu da qual neste momento não me consigo recordar. Esqueci-me. Mas no sonho consegui-a identificar perfeitamente. O curioso é que toda esta intimidade era pura amizade no meu espírito e eu conseguia senti-lo. Sempre consegui distinguir afecto de luxúria. De facto sou uma pessoa táctil. Toco nas pessoas. Provável defeito taurino meu. Mas no meu espírito sempre diferenciei aquilo que é desejo e erotismo do que é puro afecto e amizade. Serei eu o alien? Maybe. De repente acordei sem saber onde estava.


terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Underwater Love


Telefonei-te para saber como estavas. Gostava de te ver agora que tens mais tempo. Colocaste mil barreiras e ainda assim eu telefono-te para saber como estás. Na esperança que agora que tens mais tempo me queiras ver. Mais barreiras. Excepto quando não te telefono e então ligas-me tu. Para a seguir me colocares ainda mais barreiras.
Hoje à tarde andei pelos teus lados. Lembrei-me de ti. Na realidade fui lá porque me aconselhaste. Disseste-me ser mais rápido. E de facto foi-o. Almocei um hamburguer gourmet sempre de olho nos cozinheiros. Tinham aquele olhar patológico de quem faz merda na comida dos outros e fica à cuca a olhar as garfadas. Podem achar estranho, mas existem pessoas que se divertem com as coisas mais sórdidas e doentias. Tive um imbecil de um colega no liceu que no verão trabalhava num snack-bar e a vender pipocas. Esse psicopata tinha o hábito de fazer porcarias inimagináveis com os hamburguers e tostas que servia. A seguir vangloriava-se de ser tão atrasado mental. 
Andava com vontade de rever o Titanic há já algum tempo. Cheguei a casa à tarde e resolvi vê-lo. A primeira vez que o vi marcou-me. Não tanto pelos efeitos especiais mas pelo romantismo da estória. Hoje confesso que achei os diálogos mais forçados e a prestação dos actores mais fraca, mas ainda assim me fez chorar. Como da primeira vez. De facto sou um homem de choro fácil. Mas confesso que é das histórias de amor mais bonitas do cinema. Há de factos amores inesperados e que nos marcam para a vida, ainda que sejam de curta duração. Neste caso foi forçada pela morte precoce de Jack. Não obstante, todo o romance envolvente, a libertação de Rose de tudo o que era superficial e castrador, o ambiente, o bater de asas e a coragem da personagem é de facto marcante. Confesso que hoje estou sem grande imaginação para escrever. É verdade. Sinto-me cansado. Á medida que bato no teclado o meu pensamento voa até ti. Ao longo destas palavras comecei por ouvir So Cruel dos U2, a seguir Joga da Bjork, Ripe Tide dos Beirut e agora uma qualquer dos Faith No More. Como já se aperceberam isto não tem sequência nenhuma. Sintomático do meu estado de espírito. Perdido e inerte. Apareçam cá em casa para um café, um cigarro e dois dedos de conversa. Ouço o tema Blue Eyes revisitado. Bom. Muito bom.

domingo, 13 de janeiro de 2013

resiliência

Quanto tempo se consegue resistir a alguém que não nos deseja. Quanto tempo se consegue resistir a alguém que nos diz amar mas foge no primeiro momento. Quanto tempo é possível alguém manter-se à espera de alguém que desaparece no momento seguinte. Quanto tempo? Quanto tempo é possível? Quanto tempo é possível dobrarmos-nos e voltarmos à postura inicial. Qual a resistência da resiliência. O combustível amor não dura eternamente se a chama não for alimentada. É utópico pensarmos que os outros estarão sempre presentes. Um dia a resiliência deixa de ser um conceito aplicável e a amnésia total invade-nos o espírito. Abandona-se aquilo que já há muito nos abandonou. Um dia as contas de e-mail, os telefones, as campainhas, os telemóveis, os pombos-correio, as memórias, as fotografias, os postais, os presentes, as emoções tudo se esfuma em nada e dá-se um passo em frente. Tudo tem limites. E o limite é a anulação do amor próprio. 

domingo, 6 de janeiro de 2013

Verdades Absolutas


imaginaerum

As opções que tomamos nas nossas vidas têm sempre repercussões. Para um lado ou para o outro. Todos os caminhos seguidos vão invariavelmente dar a algum lado. Umas vez os sítios a que nos conduzem são ternos, quentes e agradáveis. Outras são sítios sombrios, cinzentos e adversos à nossa felicidade. Na maioria das vezes conduzem a sítios intermédios, umas vezes raiados pelo arco-íris que desenha no céu um sinal de esperança, outras cobertos pelas nuvens negras que parecem pôr em causa tudo aquilo com que se sonhou. Mas as opções têm sempre alguma repercussão. Não há atitudes, frases proferidas, olhares, comportamentos que não tenham as suas consequências. O amor e as relações entre as pessoas são o paradigma das consequências. Poucas pessoas conheço com relações aparentemente sólidas e estáveis. Digo aparentemente porque mesmo dessas por vezes surgem surpresas. Já tive dois ou três amigos verdadeiros, daqueles com quem se conversa, daqueles com quem se compartilham frustrações e alegrias, que viviam aparentemente relações sólidas e de um momento para o outro surge a ruptura. Isso leva-me a pensar que existem certos temas da esfera íntima dos casais que nunca chega cá fora até ao momento em que é impossível esconder mais. As pessoas, o ser humano, preocupa-se sempre mais com as aparências do que com aquilo que se vive na realidade. As pessoas pensam sempre mais naquilo que os outros possam pensar do que naquilo que sentem verdadeiramente. Na realidade acho isso muito triste, que na eventualidade de uma reconciliação a preocupação major seja transmitir aos outros quem é que cedeu, quem é que anda atrás, quem é que continua ligado a alguém. Quando isso é o menos importante. Aliás, não tem importância de todo. Na realidade desvirtua por completo a relação entre duas pessoas que se amam. Aquilo que mais uma vez importa são as aparências. Na sociedade actual o que se valoriza são as marcas, os objectos, o status, a ascensão social. As pessoas fazem tudo para entrar num baile de debutantes e no entanto não se apercebem que continuamos a viver em castas. Continua a ser muito difícil alguém de uma casta inferior chegar às esferas das elites. Elites essas que não são mais do que exercícios artificiais de futilidade. Como o ser humano consegue ser tão superficial. E é-o na realidade. Os elitismos não são mais do que comportamentos que escondem a verdadeira essência degraçada e primitiva de quem os pratica. Na maioria das vezes para esconder as origens. É um contrasenso, já que na minha opinião, quando alguém não esconde as suas raízes, mesmo que tenham sido desfavorecidas e ninguém escolhe o meio onde nasce, é realmente feliz. Mas prefere-se frequentemente continuar a viver num imaginaerum alimentado por uma histeria colectiva de futilidade e subserviência perante aqueles que aparentemente detêm o poder. Quando o poder somos nós todos que o alimentamos. E as pessoas tentam sempre deter poder sobre os outros. Umas vezes na base da força, outra na coacção psicológica, outras na privação de liberdade. E isso é transversal desde as relações entre duas pessoas até a grupos sociais maiores. Só quando se vislumbra a "ameaça" de se perder o outro definitivamente é que se regressa. Para cuspir e humilhar no momento a seguir. Alguém me disse ontem que, apesar de todo o clima de depressão nacional, sente uma onda positiva para 2013. Assim o espero, apesar dos calendários não serem mais do que barreiras artificiais, também eu vou tentar que 2013 seja um ano de reencontro comigo mesmo e dar um passo em frente. Quem quiser me acompanhar que seja sincero e me ame verdadeiramente. Não vou esperar mais dentro da gaiola enferrujada com a portinhola semi-aberta.